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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140678
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ GO
Ano
2026
Cargo
AFRE GO

Para responder à questão, baseie-se no texto a seguir.

 

O devaneio é uma doença?

 

Cansada de sonhar de olhos abertos, uma leitora, Ana, quer saber mais sobre devaneios: “Por que acabo sempre fugindo para esse lugar fictício, onde tudo pode ser tão melhor ou pior, um mundo do que poderia ser, do que poderia ter sido, da pior hipótese fantástica, pretéritos imperfeitos, mais-que-perfeitos, futuros incertos – e quando vejo, perdi tanto tempo com isso?”

 

Tenho carinho pelos sonhos de olhos abertos. Até o começo da adolescência, o devaneio era meu aliado contra o que me parecia ser a mediocridade do mundo. Para mim, como para Ana, o devaneio era o país de onde eu vinha (minha origem escondida) ou minha pátria futura; de um jeito ou de outro, era meu passaporte para um outro mundo, que me salvaria de meu lugar e de meu presente.

 

Graças ao devaneio, assisti a centenas de aulas chatérrimas, aparentando minha absoluta atenção (embora de olhos um tanto vidrados). Quando atravessei a dolorosa época em que os adolescentes menosprezam os pais, o devaneio me consolou, alimentando a certeza de que eu, de fato, pertencia a outra família.

 

Enfim, à força de contar histórias para mim mesmo, aprendi a contá-las para os outros. O que fez com que aos poucos meu devaneio se acalmasse – por sorte, sem se exaurir. Será que eu amadureci? Ou será que as aulas, o trabalho e os amores se tornaram interessantes, e a necessidade de sonhar diminuiu? Na hora de explicar o excesso de devaneio, o adolescente tende a acusar a realidade na qual vive, a qual mereceria o enfado que ela lhe inspira. Mas, em geral, não há realidade enfadonha, apenas indivíduos enfadados, que, por alguma razão, não enxergam o encanto possível do dia a dia.

 

Ao devanear, eu me afasto da realidade. Por outro lado, sem devanear mal consigo inventar e desejar realidades diferentes. O que é pior? Entre renunciar a devanear e sucumbir ao devaneio, talvez seja pior renunciar a devanear. Infelizmente, enquanto a gente sonha sossegado, alguns se esforçam para transformar o devaneio num transtorno, senão numa doença. No fundo, nada disso me estranha. Desde o século 19 as regras para uma vida saudável (física e psíquica) são nossa nova moral. E esse ataque contra o devaneio era previsível: qualquer forma de poder prefere limitar os sonhos de seus sujeitos.

 

(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Aproveite a vida e suas dores. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025, p. 147-150, passim)

A interrogação “Será que eu amadureci?”, no contexto do 4º parágrafo, deriva da seguinte percepção que o autor passou a ter:

  1. Ahá um amadurecimento em quem incorpora o excesso dos devaneios.
  2. Bum traço previsível da maturidade é o afastar-se do mundo enfadonho.
  3. Ccontar histórias evita que se forjem devaneios sem sentido.
  4. Dnarrar algo de modo criativo relativiza a pressão do devaneio.
  5. Ea maturidade de um escritor abole a necessidade de sonhar.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — narrar algo de modo criativo relativiza a pressão do devaneio.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A interrogação "Será que eu amadureci?" e a relativização do devaneio

Gabarito: letra D. A pergunta "Será que eu amadureci?" deriva da percepção de que narrar algo de modo criativo relativiza a pressão do devaneio — ou seja, o autor percebe que, ao aprender a contar histórias, o devaneio deixou de ser uma fuga necessária e se tornou uma atividade criativa que se acomoda à vida real. A passagem que ancora essa leitura está no 4º parágrafo: "Enfim, à força de contar histórias para mim mesmo, aprendi a contá-las para os outros. O que fez com que aos poucos meu devaneio se acalmasse – por sorte, sem se exaurir."

O comando pede uma interpretação ("deriva da seguinte percepção"), não uma mera localização literal. Isso significa que a resposta não está escrita palavra por palavra, mas é uma dedução ancorada em pistas do texto. A pista central é a sequência causal: contar histórias → aprender a contá-las para os outros → o devaneio se acalma. A pergunta "Será que eu amadureci?" é a hipótese que o autor levanta para explicar essa mudança. A alternativa D captura exatamente essa relação: a criatividade narrativa (contar histórias) relativiza (acalma, sem eliminar) a pressão do devaneio (a necessidade de fugir da realidade).

O texto não afirma que o autor amadureceu de fato — ele apenas pergunta se amadureceu, em dúvida. Por isso, qualquer alternativa que transforme essa dúvida em certeza ou que atribua ao amadurecimento um efeito absoluto (abolir, incorporar, afastar-se) extrapola o que está escrito. A banca explora exatamente essa armadilha: o candidato que lê "Será que eu amadureci?" e responde com uma definição pronta de maturidade cai nas distratoras. O método é voltar ao parágrafo e ver o que mudou para o autor: o devaneio se acalmou porque ele aprendeu a narrar.

"Enfim, à força de contar histórias para mim mesmo, aprendi a contá-las para os outros. O que fez com que aos poucos meu devaneio se acalmasse – por sorte, sem se exaurir."

A expressão "sem se exaurir" é decisiva: o devaneio não desapareceu, apenas perdeu a intensidade. Isso elimina qualquer alternativa que fale em abolição ou eliminação. A letra D é a única que preserva essa nuance — "relativiza" significa exatamente "torna relativo, diminui a pressão, sem eliminar". As demais ou absolutizam (A, E), ou invertem a relação (B), ou introduzem um juízo que o texto não faz (C).

1Causa da pergunta
Contar histórias para si
Aprender a contá-las para outros
Devaneio se acalmou
2Efeito no devaneio
Acalmou-se
Sem se exaurir
3Relação com a maturidade
Dúvida (não certeza)
Criatividade narrativa relativiza a pressão
"Será que eu amadureci?"
LEVELsoulevel.com.br
"Será que eu amadureci?": Causa da pergunta (Contar histórias para si, Aprender a contá-las para outros, Devaneio se acalmou); Efeito no devaneio (Acalmou-se, Sem se exaurir); Relação com a maturidade (Dúvida (não certeza), Criatividade narrativa relativiza a pressão)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A alternativa diz que "há um amadurecimento em quem incorpora o excesso dos devaneios". O texto não diz isso. O autor pergunta se amadureceu, não afirma que amadureceu. Além disso, "incorporar o excesso" sugere que o amadurecimento viria de manter o devaneio excessivo, mas o texto mostra o oposto: o devaneio se acalmou. A alternativa inverte a direção da mudança e transforma uma dúvida em certeza.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. "Um traço previsível da maturidade é o afastar-se do mundo enfadonho." O texto afirma que "não há realidade enfadonha, apenas indivíduos enfadados" — ou seja, o problema não está no mundo, mas no indivíduo. A maturidade, para o autor, não seria se afastar do mundo, mas enxergar o encanto possível do dia a dia. A alternativa contradiz essa tese ao valorizar o afastamento.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: opinião embutida. "Contar histórias evita que se forjem devaneios sem sentido." O texto diz que contar histórias acalmou o devaneio, não que evitou devaneios sem sentido. A palavra "sem sentido" é um juízo de valor que o autor não emite — ele nunca chama os devaneios de "sem sentido". A alternativa parafraseia o texto, mas acrescenta uma avaliação que não está nele.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A resposta certa. "Narrar algo de modo criativo relativiza a pressão do devaneio." Isso é exatamente o que o texto diz: "à força de contar histórias para mim mesmo, aprendi a contá-las para os outros. O que fez com que aos poucos meu devaneio se acalmasse". O ato de narrar criativamente (contar histórias) relativiza (acalma, sem exaurir) a pressão do devaneio (a necessidade de fugir da realidade). A pergunta "Será que eu amadureci?" é a hipótese que o autor levanta para explicar essa mudança — e a alternativa D é a única que preserva a relação causal e a nuance de "sem se exaurir".

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto (absolutização). "A maturidade de um escritor abole a necessidade de sonhar." O texto diz explicitamente que o devaneio se acalmou "sem se exaurir" — ou seja, não foi abolido. Além disso, o autor não se apresenta como "escritor" nem afirma que a maturidade abole o sonho. A palavra "abole" é um absoluto que o texto refuta diretamente.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a dúvida "Será que eu amadureci?" para induzir o candidato a responder com definições prontas de maturidade (A, B, E). A resposta, porém, não está na palavra "maturidade", mas na causa que o autor aponta: contar histórias acalmou o devaneio. Volte sempre à relação causal do parágrafo.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de interpretação, grife os conectivos de causa e consequência ("O que fez com que", "porque", "portanto"). A resposta quase sempre mora na relação que eles estabelecem — aqui, a causa (contar histórias) e o efeito (devaneio acalmado).

Gabarito: letra D. A regra de ouro: a alternativa correta é a única que reescreve com outras palavras a relação causal que o texto estabelece, sem acrescentar, suprimir ou inverter nada. Teste cada uma perguntando: "o texto autoriza isto, ou exige que eu traga uma ideia de fora?".

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