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Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — FCC 2026

PortuguêsOutras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
Código
fc140679
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ GO
Ano
2026
Cargo
AFRE GO

Para responder à questão, baseie-se no texto a seguir.

 

O devaneio é uma doença?

 

Cansada de sonhar de olhos abertos, uma leitora, Ana, quer saber mais sobre devaneios: “Por que acabo sempre fugindo para esse lugar fictício, onde tudo pode ser tão melhor ou pior, um mundo do que poderia ser, do que poderia ter sido, da pior hipótese fantástica, pretéritos imperfeitos, mais-que-perfeitos, futuros incertos – e quando vejo, perdi tanto tempo com isso?”

 

Tenho carinho pelos sonhos de olhos abertos. Até o começo da adolescência, o devaneio era meu aliado contra o que me parecia ser a mediocridade do mundo. Para mim, como para Ana, o devaneio era o país de onde eu vinha (minha origem escondida) ou minha pátria futura; de um jeito ou de outro, era meu passaporte para um outro mundo, que me salvaria de meu lugar e de meu presente.

 

Graças ao devaneio, assisti a centenas de aulas chatérrimas, aparentando minha absoluta atenção (embora de olhos um tanto vidrados). Quando atravessei a dolorosa época em que os adolescentes menosprezam os pais, o devaneio me consolou, alimentando a certeza de que eu, de fato, pertencia a outra família.

 

Enfim, à força de contar histórias para mim mesmo, aprendi a contá-las para os outros. O que fez com que aos poucos meu devaneio se acalmasse – por sorte, sem se exaurir. Será que eu amadureci? Ou será que as aulas, o trabalho e os amores se tornaram interessantes, e a necessidade de sonhar diminuiu? Na hora de explicar o excesso de devaneio, o adolescente tende a acusar a realidade na qual vive, a qual mereceria o enfado que ela lhe inspira. Mas, em geral, não há realidade enfadonha, apenas indivíduos enfadados, que, por alguma razão, não enxergam o encanto possível do dia a dia.

 

Ao devanear, eu me afasto da realidade. Por outro lado, sem devanear mal consigo inventar e desejar realidades diferentes. O que é pior? Entre renunciar a devanear e sucumbir ao devaneio, talvez seja pior renunciar a devanear. Infelizmente, enquanto a gente sonha sossegado, alguns se esforçam para transformar o devaneio num transtorno, senão numa doença. No fundo, nada disso me estranha. Desde o século 19 as regras para uma vida saudável (física e psíquica) são nossa nova moral. E esse ataque contra o devaneio era previsível: qualquer forma de poder prefere limitar os sonhos de seus sujeitos.

 

(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Aproveite a vida e suas dores. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025, p. 147-150, passim)

Ao atentar para a estruturação do texto, observa-se que no
  1. A4º parágrafo fala alto a experiência de um escritor que aproveitou seus devaneios para intensificar a atmosfera fantasiosa de suas narrativas.
  2. B5º parágrafo o autor se propõe a demonstrar que não há a possibilidade objetiva de se distinguir as operações de um devaneio das experiências reais.
  3. C1º parágrafo a leitora Ana manifesta seu repúdio aos devaneios por conta da ilusão de felicidade e do prazer gratuito desses sonhos profundos.
  4. D2º parágrafo o autor caracteriza o devaneio como um sonho dentro da vigília, que em sua adolescência lhe parecia bem diverso de como Ana o vê.
  5. E3º parágrafo afirma-se que na adolescência, tal como ocorreu com a do autor, pode-se valer do devaneio para fugir dos limites de situações impostas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — 3º parágrafo afirma-se que na adolescência, tal como ocorreu com a do autor, pode-se valer do devaneio para fugir dos limites de situações impostas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Estruturação do texto: o devaneio como fuga na adolescência

Gabarito: letra E. A alternativa correta é a que afirma que, no 3º parágrafo, o autor mostra que, na adolescência, o devaneio serviu para fugir dos limites de situações impostas — exatamente o que se lê em "Quando atravessei a dolorosa época em que os adolescentes menosprezam os pais, o devaneio me consolou, alimentando a certeza de que eu, de fato, pertencia a outra família". As demais alternativas ou extrapolam o texto, ou contradizem o que está escrito, ou atribuem ao autor opiniões que ele não emitiu.

O comando pede que se observe a estruturação do texto, ou seja, que se relacione cada parágrafo com a ideia que ele efetivamente desenvolve. Isso é uma questão de compreensão (informação explícita), não de inferência: a resposta correta é uma paráfrase fiel do que está dito no parágrafo indicado. O método é simples: para cada alternativa, localize o parágrafo mencionado e verifique se a afirmação encontra respaldo literal nele. Se a alternativa exigir que você "complete" o sentido com algo que não está escrito, ela está errada.

O texto é um ensaio do autor sobre o devaneio (sonhar de olhos abertos). No 1º parágrafo, a leitora Ana pergunta por que foge para um mundo fictício. No 2º, o autor diz que, até a adolescência, o devaneio era seu aliado contra a "mediocridade do mundo" e seu "passaporte para um outro mundo". No 3º, ele conta como o devaneio o ajudou a suportar aulas chatas e a fase em que os adolescentes menosprezam os pais. No 4º, ele reflete sobre como o devaneio o ajudou a contar histórias e sobre as possíveis causas de seu arrefecimento. No 5º, ele defende o devaneio contra a ideia de que seria uma doença. A questão testa se você consegue identificar, em cada parágrafo, a ideia central que o autor desenvolve.

A armadilha central desta questão é a extrapolação: várias alternativas acrescentam informações que não estão no texto, mas que parecem plausíveis. A alternativa A, por exemplo, fala em "intensificar a atmosfera fantasiosa de suas narrativas", algo que o texto não menciona. A alternativa B fala em "demonstrar que não há possibilidade objetiva de se distinguir as operações de um devaneio das experiências reais", uma tese filosófica que o autor não defende. A alternativa C atribui a Ana um "repúdio" e uma crítica à "ilusão de felicidade", quando ela apenas faz uma pergunta. A alternativa D afirma que o autor via o devaneio "bem diverso de como Ana o vê", mas o texto mostra que ele se identifica com ela. A única que se sustenta é a E, que parafraseia o 3º parágrafo.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação — oferece alternativas que parecem verdadeiras, mas que acrescentam ideias que o texto não contém. A correta é a única que se limita a parafrasear o que está escrito.

  1. 1Ler a alternativa
  2. 2Localizar o parágrafo indicado
  3. 3Confrontar com o texto
  4. 4Paráfrase fiel = correta
  5. 5Extrapolação = errada
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que, no 4º parágrafo, "fala alto a experiência de um escritor que aproveitou seus devaneios para intensificar a atmosfera fantasiosa de suas narrativas". O 4º parágrafo diz: "Enfim, à força de contar histórias para mim mesmo, aprendi a contá-las para os outros". O texto fala em aprender a contar histórias, não em intensificar a atmosfera fantasiosa de suas narrativas. A expressão "atmosfera fantasiosa" é uma extrapolação: o texto não diz que as narrativas do autor são fantasiosas nem que ele as usou para isso. O erro é do tipo fora_do_escopo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que, no 5º parágrafo, o autor "se propõe a demonstrar que não há a possibilidade objetiva de se distinguir as operações de um devaneio das experiências reais". O 5º parágrafo discute se o devaneio é uma doença e defende que "talvez seja pior renunciar a devanear". O texto não faz nenhuma afirmação sobre a impossibilidade de distinguir devaneio de realidade. Essa é uma tese filosófica que o autor não defende — é uma extrapolação completa. O erro é do tipo fora_do_escopo.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que, no 1º parágrafo, a leitora Ana "manifesta seu repúdio aos devaneios por conta da ilusão de felicidade e do prazer gratuito desses sonhos profundos". No 1º parágrafo, Ana faz uma pergunta: "Por que acabo sempre fugindo para esse lugar fictício...?". Ela não manifesta repúdio nem critica a "ilusão de felicidade" ou o "prazer gratuito". Ela apenas demonstra cansaço ("Cansada de sonhar de olhos abertos") e curiosidade. A alternativa contradiz o texto ao atribuir a Ana uma opinião que ela não expressa. O erro é do tipo contradiz_texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que, no 2º parágrafo, o autor caracteriza o devaneio como "um sonho dentro da vigília, que em sua adolescência lhe parecia bem diverso de como Ana o vê". No 2º parágrafo, o autor diz: "Para mim, como para Ana, o devaneio era o país de onde eu vinha...". A expressão "como para Ana" mostra que o autor se identifica com a visão de Ana, não que a via de forma "bem diversa". A alternativa contradiz o texto ao inverter a relação de semelhança. O erro é do tipo contradiz_texto.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que, no 3º parágrafo, "afirma-se que na adolescência, tal como ocorreu com a do autor, pode-se valer do devaneio para fugir dos limites de situações impostas". O 3º parágrafo diz:

"Quando atravessei a dolorosa época em que os adolescentes menosprezam os pais, o devaneio me consolou, alimentando a certeza de que eu, de fato, pertencia a outra família."

Aqui, o autor afirma que, na adolescência, o devaneio o consolou e o fez fugir da realidade (a família real) para uma realidade imaginada ("pertencia a outra família"). Isso é exatamente "fugir dos limites de situações impostas". A alternativa é uma paráfrase fiel do texto, sem acrescentar nem suprimir nada. É a única inteiramente sustentada pelo texto.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de "estruturação do texto", leia cada alternativa e pergunte: "o parágrafo indicado diz isso?" Se a resposta for "não, mas poderia dizer", a alternativa está errada. A correta é a que você consegue provar com uma citação literal.

Gabarito: letra E — a única que se limita a parafrasear o 3º parágrafo, sem extrapolar, contradizer ou acrescentar opiniões.

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