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Questão de Português — Significação de Vocábulo e Expressões — FCC 2026

PortuguêsSignificação de Vocábulo e Expressões
Código
fc140682
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ GO
Ano
2026
Cargo
AFRE GO

Para responder à questão, baseie-se no texto a seguir.

 

O devaneio é uma doença?

 

Cansada de sonhar de olhos abertos, uma leitora, Ana, quer saber mais sobre devaneios: “Por que acabo sempre fugindo para esse lugar fictício, onde tudo pode ser tão melhor ou pior, um mundo do que poderia ser, do que poderia ter sido, da pior hipótese fantástica, pretéritos imperfeitos, mais-que-perfeitos, futuros incertos – e quando vejo, perdi tanto tempo com isso?”

 

Tenho carinho pelos sonhos de olhos abertos. Até o começo da adolescência, o devaneio era meu aliado contra o que me parecia ser a mediocridade do mundo. Para mim, como para Ana, o devaneio era o país de onde eu vinha (minha origem escondida) ou minha pátria futura; de um jeito ou de outro, era meu passaporte para um outro mundo, que me salvaria de meu lugar e de meu presente.

 

Graças ao devaneio, assisti a centenas de aulas chatérrimas, aparentando minha absoluta atenção (embora de olhos um tanto vidrados). Quando atravessei a dolorosa época em que os adolescentes menosprezam os pais, o devaneio me consolou, alimentando a certeza de que eu, de fato, pertencia a outra família.

 

Enfim, à força de contar histórias para mim mesmo, aprendi a contá-las para os outros. O que fez com que aos poucos meu devaneio se acalmasse – por sorte, sem se exaurir. Será que eu amadureci? Ou será que as aulas, o trabalho e os amores se tornaram interessantes, e a necessidade de sonhar diminuiu? Na hora de explicar o excesso de devaneio, o adolescente tende a acusar a realidade na qual vive, a qual mereceria o enfado que ela lhe inspira. Mas, em geral, não há realidade enfadonha, apenas indivíduos enfadados, que, por alguma razão, não enxergam o encanto possível do dia a dia.

 

Ao devanear, eu me afasto da realidade. Por outro lado, sem devanear mal consigo inventar e desejar realidades diferentes. O que é pior? Entre renunciar a devanear e sucumbir ao devaneio, talvez seja pior renunciar a devanear. Infelizmente, enquanto a gente sonha sossegado, alguns se esforçam para transformar o devaneio num transtorno, senão numa doença. No fundo, nada disso me estranha. Desde o século 19 as regras para uma vida saudável (física e psíquica) são nossa nova moral. E esse ataque contra o devaneio era previsível: qualquer forma de poder prefere limitar os sonhos de seus sujeitos.

 

(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Aproveite a vida e suas dores. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025, p. 147-150, passim)

Considerando-se o contexto, traduz-se adequadamente o sentido de um segmento do texto em:
  1. Amereceria o enfado que ela lhe inspira (4º parágrafo) = faria jus ao tédio que ela lhe incute.
  2. Bsem devanear mal consigo inventar (5º parágrafo) = nem a fuga do sonho me leva a criar.
  3. Cfugindo para esse lugar fictício (1º parágrafo) = subtraindo-me o espaço ficcional.
  4. Do devaneio era meu aliado (2º parágrafo) = alienava-me no meu devanear.
  5. Eaos poucos meu devaneio se acalmasse (4º parágrafo) = minimamente contornasse o meu sonho.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — mereceria o enfado que ela lhe inspira (4º parágrafo) = faria jus ao tédio que ela lhe incute.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Sentido contextual: a paráfrase que preserva o sentido

Gabarito: letra A. A única alternativa que traduz fielmente o sentido do segmento é a A, pois "mereceria o enfado que ela lhe inspira" equivale a "faria jus ao tédio que ela lhe incute" — ambas expressam a ideia de que a realidade seria digna do tédio que provoca. As demais alternativas ou trocam o sentido, ou extrapolam o que o texto afirma, ou restringem indevidamente o alcance da expressão original.

O comando pede uma tradução contextual: não se trata de sinônimo isolado, mas de reescrever o segmento preservando o sentido que ele tem no texto. Isso exige atenção ao valor semântico de cada palavra no contexto, e não apenas ao significado dicionarizado. A banca testa se o candidato percebe nuances como a diferença entre "fugir para" e "subtrair", entre "aliado" e "alienar", entre "acalmar" e "contornar".

O texto de Contardo Calligaris defende o devaneio como algo positivo e necessário, não como doença. No 4º parágrafo, o autor critica a tendência de culpar a realidade pelo tédio: "em geral, não há realidade enfadonha, apenas indivíduos enfadados". A frase "a qual mereceria o enfado que ela lhe inspira" é irônica: o adolescente acha que a realidade merece o tédio que ela causa nele. A alternativa A capta exatamente isso: "faria jus" = mereceria; "tédio" = enfado; "incute" = inspira.

A técnica central é testar cada paráfrase perguntando: o sentido original foi preservado ou foi alterado? Uma paráfrase adequada pode trocar as palavras, mas não pode mudar a relação lógica entre os termos. Vejamos cada alternativa.

Tradução contextual
  • 1Preserva o sentido
    • Mereceria = faria jus
    • Enfado = tédio
    • Inspira = incute
  • 2Altera o sentido
    • Inverte relação de causa (B)
    • Troca direção do movimento (C)
    • Introduz juízo negativo (D)
    • Restringe com "minimamente" (E)
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"a qual mereceria o enfado que ela lhe inspira"

A paráfrase "faria jus ao tédio que ela lhe incute" preserva todos os elementos: mereceria = faria jus (ser digno de), enfado = tédio (sinônimos), inspira = incute (provoca, causa). A estrutura "o enfado que ela lhe inspira" (o tédio que a realidade causa nele) é mantida em "o tédio que ela lhe incute". Não há acréscimo nem supressão de sentido. É uma reescritura fiel.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"sem devanear mal consigo inventar"

A paráfrase "nem a fuga do sonho me leva a criar" inverte o sentido. No texto, "sem devanear mal consigo inventar" significa: sem devanear, dificilmente consigo inventar — ou seja, o devaneio é condição para a criação. A alternativa B diz que "nem a fuga do sonho me leva a criar", o que sugere que a fuga do sonho (o não devanear) não leva a criar — mas o texto diz exatamente o contrário: sem devanear, mal consigo inventar, isto é, quase não consigo. A troca de "mal consigo" (dificilmente consigo) por "nem me leva" (não me leva) contradiz o texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"fugindo para esse lugar fictício"

A paráfrase "subtraindo-me o espaço ficcional" troca o sentido. "Fugindo para" indica movimento em direção a um lugar; "subtraindo-me" indica retirada de algo. Além disso, "subtraindo-me o espaço ficcional" sugere que o espaço ficcional é tirado de alguém, enquanto o texto diz que a pessoa foge para esse lugar. A alternativa C extrapola e inverte a relação: não é o espaço que é subtraído, é a pessoa que se desloca até ele.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"o devaneio era meu aliado"

A paráfrase "alienava-me no meu devanear" troca o sentido e acrescenta opinião. "Aliado" significa algo que ajuda, que está a favor; "alienar" significa tornar alheio, afastar da realidade — um sentido negativo que o texto não atribui ao devaneio. Pelo contrário, o autor diz que o devaneio "era meu aliado contra o que me parecia ser a mediocridade do mundo", ou seja, algo positivo. A alternativa D contradiz o texto ao introduzir um juízo negativo (alienação) que o autor não faz.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"aos poucos meu devaneio se acalmasse"

A paráfrase "minimamente contornasse o meu sonho" restringe e troca o sentido. "Acalmar-se" significa tornar-se mais tranquilo, diminuir de intensidade; "contornar" significa dar a volta, evitar, desviar. Além disso, "minimamente" introduz uma ideia de quantidade mínima que não está no texto: "aos poucos" indica gradualidade, não minimidade. A alternativa E restringe o sentido original e troca o verbo por outro de significado diverso.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a troca de vocábulo que altera sutilmente o sentido. Em B, inverte a relação de causa; em C, troca a direção do movimento; em D, introduz um juízo negativo; em E, restringe com "minimamente". A única que preserva todos os elementos é a A.

PEGA ESSA DICA!

Ao resolver questões de "tradução contextual", sublinhe os núcleos semânticos do segmento original (verbo, substantivo, advérbio) e confira se cada um foi preservado na paráfrase. Se qualquer um mudar, a alternativa está errada.

Gabarito: letra A — a única paráfrase que mantém integralmente o sentido do texto, sem acrescentar, suprimir ou inverter nada.

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