Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140683
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ GO
Ano
2026
Cargo
AFRE GO
Para responder à questão, baseie-se no texto a seguir.
Humanos e máquinas
Humanos e máquinas poderão se fundir tão completamente que os humanos não serão capazes de sobreviver se estiverem desconectados da rede. Estarão conectados desde o útero, e, se em algum momento da vida você optar por se desconectar, as companhias de seguro talvez se recusem a lhe fazer um seguro de vida, empregadores talvez se recusem a empregá-lo, e serviços de saúde talvez se recusem a cuidar de você. Na grande batalha entre saúde e privacidade, a saúde provavelmente vencerá sem muito esforço.
À medida que, através de sensores biométricos, cada vez mais dados fluírem de seu corpo e de seu cérebro para máquinas inteligentes, será fácil para corporações e agências do governo conhecer você, manipular você e tomar decisões por você. Mais importante ainda, eles serão capazes de decifrar os mecanismos profundos de todos os corpos e cérebros, e com isso adquirir o poder de fazer a engenharia da vida. Se quisermos evitar que uma pequena elite monopolize esses poderes, que parecem divinos, e se quisermos impedir que a humanidade se fragmente em castas biológicas, a questão-chave é: quem é dono dos dados? Os dados do meu DNA, meu cérebro e minha vida pertencem a mim, ao governo, a uma corporação ou ao coletivo humano?
Melhor será invocar juristas, políticos, filósofos e artistas para que voltem sua atenção para esta charada: como regular a propriedade de dados? Essa talvez seja a questão política mais importante de nossa era.
(Adaptado de: HARARI, Yuval Noah. 21 questões para o século 21. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, p. 109-110)
Ao longo do texto, o autor trabalha com a hipótese de que o ser humano,
Aem vista de uma forçosa conexão sua com a rede, precisará estar na regência dos poderes dessa conexão.
Bcompulsoriamente conectado com a rede, buscará constituir uma elite para poder competir com a mídia.
Ccaso admita vir a estar conectado com a rede, usufruirá dos novos benefícios que ela lhe reserva.
Dtentado que está a se integrar ao sistema digital, deve buscar uma forma de fugir da tirania da eletrônica.
Evoltado ao convívio com as máquinas, deve tentar aperfeiçoá-las tecnicamente para auferir vantagens socioeconômicas.
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GabaritoA — em vista de uma forçosa conexão sua com a rede, precisará estar na regência dos poderes dessa conexão.
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A hipótese do autor sobre a fusão entre humanos e máquinas
Gabarito: letra A. O texto trabalha com a hipótese de que o ser humano estará forçosamente conectado à rede e, diante disso, precisará estar na regência dos poderes dessa conexão — ou seja, controlar quem detém os dados. A passagem que ancora essa leitura está no 2º parágrafo: "a questão-chave é: quem é dono dos dados?" — o autor não apenas constata a conexão inevitável, mas propõe que a humanidade assuma o controle sobre esse poder.
O comando: compreensão, não inferência
O enunciado pede que você identifique a hipótese com a qual o autor trabalha — ou seja, uma ideia que ele defende ou apresenta ao longo do texto. Isso é uma questão de compreensão (localizar e parafrasear uma informação), não de inferência (deduzir algo não dito). A alternativa correta deve ser uma reescritura fiel de uma passagem, sem acrescentar nada que o texto não diga.
O texto: tema, tese e movimento argumentativo
O texto de Harari apresenta uma hipótese futurista: humanos e máquinas se fundirão a ponto de a desconexão ser inviável. No 1º parágrafo, ele descreve as consequências dessa conexão forçada (recusa de seguros, empregos, saúde). No 2º, ele levanta a questão central: quem controla os dados? — e alerta para o risco de uma elite monopolizar poderes "divinos". No 3º, ele conclui que regular a propriedade de dados é "a questão política mais importante de nossa era".
A tese, portanto, não é apenas a constatação da fusão, mas a necessidade de controle sobre esse processo. O autor não se limita a descrever; ele argumenta que a humanidade deve decidir quem detém os dados, para evitar a fragmentação em castas biológicas. Essa é a ideia que a alternativa A captura com precisão.
A técnica: como testar cada alternativa
A pergunta-chave para cada alternativa é: o texto autoriza esta afirmação, ou ela exige acrescentar algo de fora? A alternativa correta deve ser uma paráfrase de uma passagem, sem extrapolar, restringir ou contradizer o que está escrito. As distratoras, em geral, cometem um destes erros:
Extrapolação: acrescentam ideias que não estão no texto (ex.: "constituir elite", "fugir da tirania", "aperfeiçoar máquinas").
Restrição: limitam o alcance da hipótese (ex.: "caso admita", que torna a conexão opcional, quando o texto diz que ela é forçosa).
Contradição: invertem o sentido de uma passagem (ex.: "usufruirá dos benefícios", quando o texto fala em riscos e controle).
Análise das alternativas
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A é a única que sintetiza a tese do autor sem acrescentar nada. Ela afirma que o ser humano, diante da conexão forçosa com a rede, precisará estar na regência dos poderes dessa conexão — ou seja, controlar quem detém os dados. Isso está diretamente ancorado no 2º parágrafo:
"Se quisermos evitar que uma pequena elite monopolize esses poderes, que parecem divinos, e se quisermos impedir que a humanidade se fragmente em castas biológicas, a questão-chave é: quem é dono dos dados?"
O autor não apenas constata a fusão; ele propõe que a humanidade assuma o controle sobre os dados. A expressão "estar na regência" é uma paráfrase de "quem é dono dos dados" — a ideia de domínio sobre o poder da conexão. A alternativa A é a única que captura essa necessidade de controle sem extrapolar.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B afirma que o ser humano, "compulsoriamente conectado com a rede, buscará constituir uma elite para poder competir com a mídia". Isso extrapola o texto de duas formas:
O texto não diz que o ser humano buscará constituir uma elite; pelo contrário, alerta para o risco de uma elite monopolizar os poderes, e propõe evitar isso.
A menção a "competir com a mídia" é totalmente ausente do texto. O autor fala em corporações e agências do governo, não em mídia.
A alternativa B inverte a posição do autor: ele quer evitar a elite, não constituí-la. Erro: extrapolação e contradição.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C diz que o ser humano, "caso admita vir a estar conectado com a rede, usufruirá dos novos benefícios que ela lhe reserva". Dois erros:
Restrição: o texto não diz que a conexão é opcional ("caso admita"); pelo contrário, afirma que os humanos estarão conectados desde o útero e que a desconexão trará punições (recusa de seguros, empregos, saúde). A conexão é forçosa, não uma escolha.
Extrapolação: o texto não fala em "usufruir dos benefícios"; ele fala em riscos (manipulação, decisões tomadas por máquinas) e na necessidade de controle. A ideia de "benefícios" é uma opinião embutida, não uma ideia do autor.
Erro: restrição (torna a conexão opcional) e extrapolação (introduz a noção de benefícios).
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D afirma que o ser humano, "tentado que está a se integrar ao sistema digital, deve buscar uma forma de fugir da tirania da eletrônica". Dois problemas:
Extrapolação: o texto não diz que o ser humano está "tentado" a se integrar; ele diz que a integração é inevitável ("estarão conectados desde o útero"). A ideia de "tentação" é uma opinião embutida.
Contradição: o texto não propõe "fugir" da eletrônica; ele propõe controlar quem detém os dados. A fuga é uma solução que o autor não sugere — ele sugere regulação ("como regular a propriedade de dados?").
Erro: extrapolação (tentação) e contradição (fugir vs. controlar).
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E diz que o ser humano, "voltado ao convívio com as máquinas, deve tentar aperfeiçoá-las tecnicamente para auferir vantagens socioeconômicas". Isso é uma fuga ao tema:
O texto não fala em "aperfeiçoar tecnicamente" as máquinas; ele fala em regular a propriedade dos dados.
A ideia de "auferir vantagens socioeconômicas" é totalmente ausente. O autor não discute benefícios econômicos; ele discute riscos de manipulação e concentração de poder.
A alternativa E tangencia o tema (máquinas, tecnologia) mas não aborda a tese central do texto. Erro: fuga ao tema (tangência).
Conclusão
A alternativa A é a única que sintetiza a tese do autor sem extrapolar, restringir ou contradizer o texto. Ela captura a necessidade de controle sobre os dados, que é a questão central levantada por Harari. As demais alternativas ou acrescentam ideias ausentes (extrapolação), ou limitam o alcance da hipótese (restrição), ou invertem o sentido do texto (contradição).
PEGA ESSA DICA!
Ao resolver questões de compreensão, pergunte-se: "o texto autoriza esta afirmação, ou ela exige acrescentar algo de fora?" A alternativa correta é sempre uma paráfrase fiel de uma passagem, sem acréscimos.