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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140713
Banca
FCC
Órgão
ALERR
Ano
2026
Cargo
Cons Leg ( )

Atenção: Considere o texto abaixo para responder à questão.

 

1. As duas éticas: a ética que brota da contemplação das estrelas perfeitas, imutáveis e mortas, a que os filósofos dão o nome de ética de princípios, e a ética que brota da contemplação dos jardins imperfeitos e mutáveis, mas vivos – a que os filósofos dão o nome de ética contextual.

 

2. Os jardineiros não olham para as estrelas. Eles nada sabem sobre as estrelas que alguns dizem já ter visto por revelação dos deuses. Como os homens comuns não veem essas estrelas, eles têm de acreditar na palavra dos que dizem já as ter visto longe, muito longe... Os jardineiros só acreditam no que os seus olhos veem. Pensam a partir da experiência: pegam a terra com as mãos e a cheiram...

 

3. Vejamos o seguinte caso. A mulher está com câncer em estado avançado. É certo que ela morrerá. Ela suspeita disso e tem medo. O médico vai visitá-la. Olhando, do fundo do seu medo, no fundo dos olhos do médico ela pergunta: “Doutor, será que eu escapo desta?” Está configurada uma situação ética. Que é que o médico vai dizer? Se o médico for um adepto da ética estelar de princípios, a resposta será simples. Ele não terá que decidir ou escolher. O princípio é claro: dizer a verdade sempre. A enferma perguntou. A resposta terá de ser a verdade. E ele, então, responderá: “Não, a senhora não escapará desta. A senhora vai morrer...” Respondeu segundo um princípio invariável para todas as situações. A lealdade a um princípio o livra de um pensamento perturbador: o que a verdade irá fazer com o corpo e a alma daquela mulher? O princípio, sendo absoluto, não leva em consideração o potencial destruidor da verdade.

 

4. Mas, se for um jardineiro, ele não se lembrará de nenhum princípio. Ele só pensará nos olhos suplicantes daquela mulher. Pensará que a sua palavra terá que produzir a bondade. E ele se perguntará: “Que palavra eu posso dizer que, não sendo um engano – ‘A senhora breve estará curada...’ –, cuidará da mulher como se a palavra fosse um colo que acolhe uma criança?” E ele dirá: “Você me faz essa pergunta porque você está com medo de morrer. Também tenho medo de morrer...” Aí, então, os dois conversarão longamente – como se estivessem de mãos dadas ... – sobre a morte que os dois haverão de enfrentar.

 

5. Como sugeriu o apóstolo Paulo, a verdade está subordinada à bondade. Pela ética de princípios, o uso da camisinha, a pesquisa das células-tronco, o aborto de fetos sem cérebro, o divórcio, a eutanásia são questões resolvidas que não requerem decisões: os princípios universais os proíbem. Mas a ética contextual nos obriga a fazer perguntas sobre o bem ou o mal que uma ação irá criar. O uso da camisinha contribui para diminuir a incidência da aids? As pesquisas com células-tronco contribuem para trazer a cura para uma infinidade de doenças? O aborto de um feto sem cérebro contribuirá para diminuir a dor de uma mulher? O divórcio contribuirá para que homens e mulheres possam recomeçar suas vidas afetivas? A eutanásia pode ser o único caminho para libertar uma pessoa da dor que não a deixará? Duas éticas. A única pergunta a se fazer é: “Qual delas está mais a serviço do amor?”

 

(Adaptado de: ALVES, Rubem. “As duas éticas”. Disponível em: https://cronicasbrasil.blogspot.com)

No primeiro parágrafo do texto, o autor
  1. Aantecipa sua inclinação pela ética contextual, ao qualificar os jardins como “imperfeitos e mutáveis, mas vivos”.
  2. Bconsidera que a dualidade inerente à ética dificulta a tomada de decisões de maneira impessoal.
  3. Cdescreve de maneira objetiva as duas espécies de ética de que irá tratar, apoiando sua escolha pessoal na autoridade dos filósofos.
  4. Dsinaliza que seria a junção das duas éticas a forma perfeita de lidar com as questões com que nos deparamos, sejam elas divinas, sejam humanas.
  5. Edá preferência à ética dos princípios, abordada em primeiro plano, já que a igualdade é a base da noção mais aceita de justiça.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — antecipa sua inclinação pela ética contextual, ao qualificar os jardins como “imperfeitos e mutáveis, mas vivos”.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A inclinação do autor pela ética contextual no primeiro parágrafo

Gabarito: letra A. No primeiro parágrafo, o autor antecipa sua inclinação pela ética contextual ao qualificar os jardins como “imperfeitos e mutáveis, mas vivos”. A pista decisiva está na conjunção adversativa “mas”, que valoriza a vida dos jardins em detrimento da perfeição imutável das estrelas, revelando uma preferência sutil do autor pela ética contextual.

O comando da questão

O enunciado pede que se identifique o que o autor faz no primeiro parágrafo. Isso exige uma leitura atenta do movimento argumentativo do trecho, não apenas a localização de uma informação isolada. A alternativa correta deve descrever uma ação do autor (antecipar, considerar, descrever, sinalizar, dar preferência) que esteja ancorada em elementos textuais do parágrafo.

O texto e o movimento argumentativo

O primeiro parágrafo apresenta as duas éticas por meio de uma metáfora: a ética de princípios é associada às “estrelas perfeitas, imutáveis e mortas”, enquanto a ética contextual é associada aos “jardins imperfeitos e mutáveis, mas vivos”. A escolha dos adjetivos não é neutra: “perfeitas, imutáveis e mortas” tem uma carga negativa (morte), enquanto “imperfeitos e mutáveis, mas vivos” tem uma carga positiva (vida). O uso do “mas” é crucial: ele introduz uma ressalva que valoriza o segundo termo, indicando que, apesar das imperfeições, a vida é um atributo superior. Essa escolha lexical já revela a preferência do autor pela ética contextual, antes mesmo de ele desenvolver os argumentos nos parágrafos seguintes.

A técnica: como identificar a posição do autor

Em questões de compreensão, a resposta deve estar ancorada no texto, mas isso não significa que a posição do autor esteja sempre explícita. Muitas vezes, ela é sinalizada por escolhas vocabulares e conectivos. Aqui, o “mas” é o operador argumentativo que inverte a expectativa: o leitor esperaria que “imperfeitos e mutáveis” fosse algo negativo, mas o autor acrescenta “vivos”, e o “mas” faz com que essa qualidade positiva prevaleça sobre as negativas. É exatamente isso que a alternativa A captura: o autor antecipa sua inclinação, ou seja, já no primeiro parágrafo ele deixa transparecer sua preferência, ainda que de forma sutil.

Análise das alternativas

Movimento argumentativo do 1º parágrafo
  • 1Apresenta as duas éticas (metáfora)
    • Ética de princípios → estrelas
      • perfeitas
      • imutáveis
      • mortas
    • Ética contextual → jardins
      • imperfeitos
      • mutáveis
      • mas vivos
  • 2Sinaliza a preferência do autor
    • Conjunção "mas" valoriza a vida
    • Adjetivos com carga positiva/negativa
    • Antecipa a inclinação pela ética contextual
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A afirma que o autor antecipa sua inclinação pela ética contextual ao qualificar os jardins como “imperfeitos e mutáveis, mas vivos”. Isso está diretamente ancorado no texto:

“a ética que brota da contemplação dos jardins imperfeitos e mutáveis, mas vivos – a que os filósofos dão o nome de ética contextual.”

O “mas” é a chave: ele introduz uma ressalva que valoriza o segundo termo, indicando que, apesar das imperfeições, a vida é um atributo superior. Essa escolha lexical já revela a preferência do autor pela ética contextual, antes mesmo de ele desenvolver os argumentos nos parágrafos seguintes. Portanto, a alternativa A é a única que descreve corretamente o movimento do autor no primeiro parágrafo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B afirma que o autor considera que a dualidade inerente à ética dificulta a tomada de decisões de maneira impessoal. Isso não está no texto. O autor não menciona dificuldade de tomada de decisões nem impessoalidade. Ele apenas apresenta as duas éticas, sem discutir a dificuldade de decidir. A alternativa extrapola ao acrescentar uma ideia que não está presente no parágrafo.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C afirma que o autor descreve de maneira objetiva as duas espécies de ética, apoiando sua escolha pessoal na autoridade dos filósofos. Há dois problemas: primeiro, a descrição não é objetiva, pois o autor usa adjetivos carregados de valor (“mortas” vs. “vivas”), o que revela sua subjetividade. Segundo, o autor não se apoia na autoridade dos filósofos para fazer sua escolha; ele apenas menciona que os filósofos dão nomes às éticas. A alternativa contradiz o texto ao afirmar que a descrição é objetiva.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D afirma que o autor sinaliza que seria a junção das duas éticas a forma perfeita de lidar com as questões. Isso não está no texto. O autor não fala em junção, muito menos em “forma perfeita”. Ele apenas apresenta as duas éticas como alternativas distintas. A alternativa extrapola ao inventar uma ideia de fusão que não é mencionada.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E afirma que o autor dá preferência à ética dos princípios, abordada em primeiro plano, já que a igualdade é a base da noção mais aceita de justiça. Isso contradiz o texto. O autor, como vimos, valoriza a ética contextual (os jardins vivos). Além disso, a ideia de “igualdade como base da justiça” não aparece no texto. A alternativa inverte a posição do autor e extrapola com um conceito externo.

Conclusão

A questão testa a habilidade de identificar a posição do autor a partir de pistas textuais, especialmente o uso de conectivos e adjetivos. A alternativa A é a única que se sustenta integralmente no texto, pois o “mas” revela a preferência do autor pela ética contextual. As demais alternativas ou extrapolam (B, D) ou contradizem (C, E) o que está escrito.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, desconfie de alternativas que usam palavras absolutas como “sempre”, “nunca”, “apenas” ou que introduzem ideias não mencionadas no texto. A resposta correta é sempre uma paráfrase fiel do que está escrito, sem acréscimos.

Gabarito: letra A

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