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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140714
Banca
FCC
Órgão
ALERR
Ano
2026
Cargo
Cons Leg ( )

Atenção: Considere o texto abaixo para responder à questão.

 

1. As duas éticas: a ética que brota da contemplação das estrelas perfeitas, imutáveis e mortas, a que os filósofos dão o nome de ética de princípios, e a ética que brota da contemplação dos jardins imperfeitos e mutáveis, mas vivos – a que os filósofos dão o nome de ética contextual.

 

2. Os jardineiros não olham para as estrelas. Eles nada sabem sobre as estrelas que alguns dizem já ter visto por revelação dos deuses. Como os homens comuns não veem essas estrelas, eles têm de acreditar na palavra dos que dizem já as ter visto longe, muito longe... Os jardineiros só acreditam no que os seus olhos veem. Pensam a partir da experiência: pegam a terra com as mãos e a cheiram...

 

3. Vejamos o seguinte caso. A mulher está com câncer em estado avançado. É certo que ela morrerá. Ela suspeita disso e tem medo. O médico vai visitá-la. Olhando, do fundo do seu medo, no fundo dos olhos do médico ela pergunta: “Doutor, será que eu escapo desta?” Está configurada uma situação ética. Que é que o médico vai dizer? Se o médico for um adepto da ética estelar de princípios, a resposta será simples. Ele não terá que decidir ou escolher. O princípio é claro: dizer a verdade sempre. A enferma perguntou. A resposta terá de ser a verdade. E ele, então, responderá: “Não, a senhora não escapará desta. A senhora vai morrer...” Respondeu segundo um princípio invariável para todas as situações. A lealdade a um princípio o livra de um pensamento perturbador: o que a verdade irá fazer com o corpo e a alma daquela mulher? O princípio, sendo absoluto, não leva em consideração o potencial destruidor da verdade.

 

4. Mas, se for um jardineiro, ele não se lembrará de nenhum princípio. Ele só pensará nos olhos suplicantes daquela mulher. Pensará que a sua palavra terá que produzir a bondade. E ele se perguntará: “Que palavra eu posso dizer que, não sendo um engano – ‘A senhora breve estará curada...’ –, cuidará da mulher como se a palavra fosse um colo que acolhe uma criança?” E ele dirá: “Você me faz essa pergunta porque você está com medo de morrer. Também tenho medo de morrer...” Aí, então, os dois conversarão longamente – como se estivessem de mãos dadas ... – sobre a morte que os dois haverão de enfrentar.

 

5. Como sugeriu o apóstolo Paulo, a verdade está subordinada à bondade. Pela ética de princípios, o uso da camisinha, a pesquisa das células-tronco, o aborto de fetos sem cérebro, o divórcio, a eutanásia são questões resolvidas que não requerem decisões: os princípios universais os proíbem. Mas a ética contextual nos obriga a fazer perguntas sobre o bem ou o mal que uma ação irá criar. O uso da camisinha contribui para diminuir a incidência da aids? As pesquisas com células-tronco contribuem para trazer a cura para uma infinidade de doenças? O aborto de um feto sem cérebro contribuirá para diminuir a dor de uma mulher? O divórcio contribuirá para que homens e mulheres possam recomeçar suas vidas afetivas? A eutanásia pode ser o único caminho para libertar uma pessoa da dor que não a deixará? Duas éticas. A única pergunta a se fazer é: “Qual delas está mais a serviço do amor?”

 

(Adaptado de: ALVES, Rubem. “As duas éticas”. Disponível em: https://cronicasbrasil.blogspot.com)

A diferença entre as duas éticas, segundo o texto, reside no fato de que a ética
  1. Ade princípios pauta-se pela experiência, problematizando-a em busca de regras gerais aplicáveis a casos particulares.
  2. Bcontextual evita o incômodo produzido pelo constante questionamento sobre sua validade, já que sua aplicação é universal.
  3. Cde princípios é válida por si só e não se pauta pelos efeitos de sua aplicação, como a ética contextual o faz.
  4. Dcontextual não é parâmetro para polêmicas, uma vez que costuma privilegiar a satisfação de uma das partes envolvidas.
  5. Econtextual não se preocupa com a verdade, como a de princípios, mas tão somente com o bem-estar das pessoas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — de princípios é válida por si só e não se pauta pelos efeitos de sua aplicação, como a ética contextual o faz.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A diferença entre ética de princípios e ética contextual

Gabarito: letra C. A ética de princípios é válida por si só, sem considerar os efeitos de sua aplicação, enquanto a ética contextual se pauta pelas consequências de cada ação. Essa distinção está explícita no texto quando o autor afirma que, na ética de princípios, "o princípio, sendo absoluto, não leva em consideração o potencial destruidor da verdade", e que a ética contextual "nos obriga a fazer perguntas sobre o bem ou o mal que uma ação irá criar".

O comando pede uma compreensão (recorrência): a resposta está literalmente no texto, apenas reescrita em outras palavras. Não se trata de inferir ou deduzir algo além do que está escrito, mas de localizar a passagem que define cada ética e identificar qual alternativa a parafraseia fielmente.

O texto de Rubem Alves constrói uma oposição entre duas posturas éticas. A ética de princípios é associada à contemplação das "estrelas perfeitas, imutáveis e mortas": ela se baseia em regras universais e absolutas, aplicadas independentemente do contexto. O exemplo do médico ilustra isso: o adepto dessa ética responde "segundo um princípio invariável para todas as situações", sem se perguntar sobre o efeito de suas palavras. Já a ética contextual é associada aos "jardins imperfeitos e mutáveis, mas vivos": ela parte da experiência concreta e se pergunta sobre as consequências de cada ação, buscando "produzir a bondade".

A técnica para resolver é simples: teste cada alternativa perguntando se o texto a autoriza. A alternativa correta é aquela que não acrescenta, não restringe e não contradiz o que está escrito. As distratoras, como veremos, ou invertem as características das duas éticas, ou extrapolam informações que o texto não traz.

Ética de princípios
  • 1Válida por si só
  • 2Princípio absoluto
  • 3Não considera efeitos
  • 4Ex.: estrelas perfeitas e mortas
  • 5Ética contextual
    • Pauta-se pelas consequências
    • Pergunta sobre o bem ou o mal
    • Parte da experiência
    • Ex.: jardins imperfeitos e vivos
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Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a ética de princípios "pauta-se pela experiência". O texto diz exatamente o oposto: o adepto da ética de princípios "não terá que decidir ou escolher", pois o princípio é claro e invariável. A experiência é a base da ética contextual, como se vê em "os jardineiros só acreditam no que os seus olhos veem. Pensam a partir da experiência". A alternativa inverte as características das duas éticas, atribuindo à ética de princípios o que pertence à contextual.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa diz que a ética contextual "evita o incômodo produzido pelo constante questionamento sobre sua validade, já que sua aplicação é universal". Isso contradiz o texto: a ética contextual é justamente a que questiona, como se lê em "a ética contextual nos obriga a fazer perguntas sobre o bem ou o mal que uma ação irá criar". Além disso, sua aplicação não é universal, mas particular, dependente do contexto. A alternativa contradiz o texto e inverte o sentido da ética contextual.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que a ética de princípios "é válida por si só e não se pauta pelos efeitos de sua aplicação, como a ética contextual o faz". Isso está diretamente no texto:

"O princípio, sendo absoluto, não leva em consideração o potencial destruidor da verdade."

E sobre a ética contextual:

"a ética contextual nos obriga a fazer perguntas sobre o bem ou o mal que uma ação irá criar."

A ética de princípios se basta em si mesma (o princípio é absoluto, não importa o efeito), enquanto a contextual se define justamente pela preocupação com as consequências. A alternativa é uma paráfrase fiel do texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a ética contextual "não é parâmetro para polêmicas, uma vez que costuma privilegiar a satisfação de uma das partes envolvidas". O texto não diz isso. Pelo contrário, a ética contextual é apresentada como aquela que "nos obriga a fazer perguntas" sobre cada caso polêmico (camisinha, células-tronco, aborto, divórcio, eutanásia). A alternativa extrapola ao afirmar que ela "privilegia a satisfação de uma das partes" — o texto fala em produzir bondade, não em satisfazer uma parte.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a ética contextual "não se preocupa com a verdade, como a de princípios, mas tão somente com o bem-estar das pessoas". O texto mostra que a ética contextual também se preocupa com a verdade, mas a subordina à bondade: o médico jardineiro busca uma palavra que "não sendo um engano" cuide da mulher. Ele não mente, mas escolhe uma verdade que acolhe. A alternativa restringe o alcance da ética contextual ao dizer "tão somente" o bem-estar, ignorando que ela também valoriza a verdade, apenas a hierarquiza de forma diferente.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a inversão de características entre as duas éticas (alternativas A e B) e a extrapolação (alternativas D e E). A correta é a única que mantém a distinção exata apresentada no texto: princípios = válidos por si; contexto = efeitos da ação.

PEGA ESSA DICA!

Ao comparar duas ideias opostas no texto, sublinhe as palavras que definem cada uma. Aqui, "princípio absoluto" e "perguntas sobre o bem ou o mal" são as chaves que separam as duas éticas.

Gabarito: letra C.

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