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Questão de Português — Figuras de Linguagem — FCC 2026

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
fc140716
Banca
FCC
Órgão
ALERR
Ano
2026
Cargo
Cons Leg ( )

Atenção: Considere o texto abaixo para responder à questão.

 

1. As duas éticas: a ética que brota da contemplação das estrelas perfeitas, imutáveis e mortas, a que os filósofos dão o nome de ética de princípios, e a ética que brota da contemplação dos jardins imperfeitos e mutáveis, mas vivos – a que os filósofos dão o nome de ética contextual.

 

2. Os jardineiros não olham para as estrelas. Eles nada sabem sobre as estrelas que alguns dizem já ter visto por revelação dos deuses. Como os homens comuns não veem essas estrelas, eles têm de acreditar na palavra dos que dizem já as ter visto longe, muito longe... Os jardineiros só acreditam no que os seus olhos veem. Pensam a partir da experiência: pegam a terra com as mãos e a cheiram...

 

3. Vejamos o seguinte caso. A mulher está com câncer em estado avançado. É certo que ela morrerá. Ela suspeita disso e tem medo. O médico vai visitá-la. Olhando, do fundo do seu medo, no fundo dos olhos do médico ela pergunta: “Doutor, será que eu escapo desta?” Está configurada uma situação ética. Que é que o médico vai dizer? Se o médico for um adepto da ética estelar de princípios, a resposta será simples. Ele não terá que decidir ou escolher. O princípio é claro: dizer a verdade sempre. A enferma perguntou. A resposta terá de ser a verdade. E ele, então, responderá: “Não, a senhora não escapará desta. A senhora vai morrer...” Respondeu segundo um princípio invariável para todas as situações. A lealdade a um princípio o livra de um pensamento perturbador: o que a verdade irá fazer com o corpo e a alma daquela mulher? O princípio, sendo absoluto, não leva em consideração o potencial destruidor da verdade.

 

4. Mas, se for um jardineiro, ele não se lembrará de nenhum princípio. Ele só pensará nos olhos suplicantes daquela mulher. Pensará que a sua palavra terá que produzir a bondade. E ele se perguntará: “Que palavra eu posso dizer que, não sendo um engano – ‘A senhora breve estará curada...’ –, cuidará da mulher como se a palavra fosse um colo que acolhe uma criança?” E ele dirá: “Você me faz essa pergunta porque você está com medo de morrer. Também tenho medo de morrer...” Aí, então, os dois conversarão longamente – como se estivessem de mãos dadas ... – sobre a morte que os dois haverão de enfrentar.

 

5. Como sugeriu o apóstolo Paulo, a verdade está subordinada à bondade. Pela ética de princípios, o uso da camisinha, a pesquisa das células-tronco, o aborto de fetos sem cérebro, o divórcio, a eutanásia são questões resolvidas que não requerem decisões: os princípios universais os proíbem. Mas a ética contextual nos obriga a fazer perguntas sobre o bem ou o mal que uma ação irá criar. O uso da camisinha contribui para diminuir a incidência da aids? As pesquisas com células-tronco contribuem para trazer a cura para uma infinidade de doenças? O aborto de um feto sem cérebro contribuirá para diminuir a dor de uma mulher? O divórcio contribuirá para que homens e mulheres possam recomeçar suas vidas afetivas? A eutanásia pode ser o único caminho para libertar uma pessoa da dor que não a deixará? Duas éticas. A única pergunta a se fazer é: “Qual delas está mais a serviço do amor?”

 

(Adaptado de: ALVES, Rubem. “As duas éticas”. Disponível em: https://cronicasbrasil.blogspot.com)

Com a analogia ... como se a palavra fosse um colo que acolhe uma criança.... (4º parágrafo), o autor busca expressar

  1. Ao papel educativo da linguagem maternal em situações amedrontadoras.
  2. Bo caráter pueril que assumem as pessoas quando adoecem.
  3. Ca ingenuidade de uma criança ao fazer perguntas a um adulto.
  4. Do limite da linguagem informativa frente a uma pessoa fragilizada.
  5. Eo amparo emocional que a linguagem pode oferecer a quem ouve.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — o amparo emocional que a linguagem pode oferecer a quem ouve.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A comparação como recurso expressivo: o amparo da palavra

Gabarito: letra E. A analogia "como se a palavra fosse um colo que acolhe uma criança" expressa o amparo emocional que a linguagem pode oferecer a quem ouve, pois compara a palavra a um colo — gesto de acolhimento e proteção — e a pessoa que a recebe a uma criança, que busca conforto. A passagem do 4º parágrafo confirma: o médico-jardineiro quer "cuidar da mulher como se a palavra fosse um colo que acolhe uma criança", ou seja, a palavra deve acolher, amparar, dar suporte emocional.

O comando pede que se identifique o efeito de sentido produzido pela comparação. Não se trata de reconhecer a figura (comparação/símile, com o conectivo "como"), mas de interpretar o que ela significa no contexto: a palavra que acolhe, que ampara, que conforta. A banca testa se o candidato entende a função expressiva do recurso, não apenas sua classificação.

No texto, o autor contrapõe duas éticas: a de princípios (que diz a verdade crua, sem considerar o efeito) e a contextual (que busca "produzir a bondade" com a palavra). No 4º parágrafo, o médico-jardineiro pensa: "Que palavra eu posso dizer que, não sendo um engano – 'A senhora breve estará curada...' –, cuidará da mulher como se a palavra fosse um colo que acolhe uma criança?" A comparação evidencia que a palavra deve cuidar, acolher, amparar — exatamente o que a alternativa E afirma.

A técnica para resolver: leia a comparação e pergunte o que ela evoca — um colo evoca acolhimento, proteção, conforto; uma criança evoca fragilidade, necessidade de cuidado. A soma dessas imagens aponta para o amparo emocional. As distratoras exploram elementos periféricos (a criança, a maternidade, a doença) sem captar o núcleo: a função da palavra como suporte afetivo.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa fala em "papel educativo da linguagem maternal". O texto não menciona educação nem maternidade; o colo é usado como imagem de acolhimento, não de ensino. Há uma extrapolação: o candidato associa "colo" a "mãe" e "criança" a "educação", mas o texto não autoriza essa cadeia. O foco é o amparo, não o ensinar.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Caráter pueril que assumem as pessoas quando adoecem" — o texto não diz que a mulher se torna infantil ou pueril. A comparação com criança serve para ilustrar a necessidade de acolhimento, não para caracterizar a doente como infantil. Há troca de conceito: confunde a imagem (criança) com uma suposta regressão psicológica, que não está no texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Ingenuidade de uma criança ao fazer perguntas a um adulto" — a mulher não é ingênua; ela tem medo e busca conforto. A pergunta "será que eu escapo desta?" é de quem teme a morte, não de quem é ingênua. A alternativa tangencia o tema: fala de criança, mas inverte o sentido — a criança aqui é quem recebe o colo, não quem pergunta com ingenuidade.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Limite da linguagem informativa frente a uma pessoa fragilizada" — o texto não discute limites da linguagem informativa; pelo contrário, mostra que a palavra pode ir além da informação e oferecer amparo. A alternativa contradiz o texto: o autor valoriza a palavra que acolhe, não aponta sua insuficiência. O médico-jardineiro não se cala; ele encontra uma palavra que cuida.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A comparação "como se a palavra fosse um colo que acolhe uma criança" expressa o amparo emocional que a linguagem pode oferecer a quem ouve. O colo é símbolo de acolhimento e proteção; a criança, de fragilidade que busca conforto. O texto confirma: o médico quer "cuidar da mulher" com a palavra, e a palavra deve "produzir a bondade". A alternativa é uma paráfrase fiel do efeito de sentido da comparação.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação — oferece alternativas que usam elementos da imagem (criança, colo, doença) mas fogem do núcleo: a palavra como amparo. A correta é a única que capta a função afetiva da linguagem.

PEGA ESSA DICA!

Ao interpretar uma comparação, pergunte: o que os dois elementos evocam juntos? Colo + criança = acolhimento, proteção, conforto. Não se prenda a elementos isolados; busque o efeito conjunto.

Gabarito: letra E — a única que expressa o amparo emocional que a palavra oferece, como prova o trecho "cuidará da mulher como se a palavra fosse um colo que acolhe uma criança".

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