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Questão de Português — Frase, Oração e Período — FCC 2026

PortuguêsFrase, Oração e Período
Código
fc140722
Banca
FCC
Órgão
ALERR
Ano
2026
Cargo
Cons Leg ( )

Atenção: Considere o texto abaixo para responder à questão.

 

1. As duas éticas: a ética que brota da contemplação das estrelas perfeitas, imutáveis e mortas, a que os filósofos dão o nome de ética de princípios, e a ética que brota da contemplação dos jardins imperfeitos e mutáveis, mas vivos – a que os filósofos dão o nome de ética contextual.

 

2. Os jardineiros não olham para as estrelas. Eles nada sabem sobre as estrelas que alguns dizem já ter visto por revelação dos deuses. Como os homens comuns não veem essas estrelas, eles têm de acreditar na palavra dos que dizem já as ter visto longe, muito longe... Os jardineiros só acreditam no que os seus olhos veem. Pensam a partir da experiência: pegam a terra com as mãos e a cheiram...

 

3. Vejamos o seguinte caso. A mulher está com câncer em estado avançado. É certo que ela morrerá. Ela suspeita disso e tem medo. O médico vai visitá-la. Olhando, do fundo do seu medo, no fundo dos olhos do médico ela pergunta: “Doutor, será que eu escapo desta?” Está configurada uma situação ética. Que é que o médico vai dizer? Se o médico for um adepto da ética estelar de princípios, a resposta será simples. Ele não terá que decidir ou escolher. O princípio é claro: dizer a verdade sempre. A enferma perguntou. A resposta terá de ser a verdade. E ele, então, responderá: “Não, a senhora não escapará desta. A senhora vai morrer...” Respondeu segundo um princípio invariável para todas as situações. A lealdade a um princípio o livra de um pensamento perturbador: o que a verdade irá fazer com o corpo e a alma daquela mulher? O princípio, sendo absoluto, não leva em consideração o potencial destruidor da verdade.

 

4. Mas, se for um jardineiro, ele não se lembrará de nenhum princípio. Ele só pensará nos olhos suplicantes daquela mulher. Pensará que a sua palavra terá que produzir a bondade. E ele se perguntará: “Que palavra eu posso dizer que, não sendo um engano – ‘A senhora breve estará curada...’ –, cuidará da mulher como se a palavra fosse um colo que acolhe uma criança?” E ele dirá: “Você me faz essa pergunta porque você está com medo de morrer. Também tenho medo de morrer...” Aí, então, os dois conversarão longamente – como se estivessem de mãos dadas ... – sobre a morte que os dois haverão de enfrentar.

 

5. Como sugeriu o apóstolo Paulo, a verdade está subordinada à bondade. Pela ética de princípios, o uso da camisinha, a pesquisa das células-tronco, o aborto de fetos sem cérebro, o divórcio, a eutanásia são questões resolvidas que não requerem decisões: os princípios universais os proíbem. Mas a ética contextual nos obriga a fazer perguntas sobre o bem ou o mal que uma ação irá criar. O uso da camisinha contribui para diminuir a incidência da aids? As pesquisas com células-tronco contribuem para trazer a cura para uma infinidade de doenças? O aborto de um feto sem cérebro contribuirá para diminuir a dor de uma mulher? O divórcio contribuirá para que homens e mulheres possam recomeçar suas vidas afetivas? A eutanásia pode ser o único caminho para libertar uma pessoa da dor que não a deixará? Duas éticas. A única pergunta a se fazer é: “Qual delas está mais a serviço do amor?”

 

(Adaptado de: ALVES, Rubem. “As duas éticas”. Disponível em: https://cronicasbrasil.blogspot.com)

No trecho A mulher está com câncer em estado avançado. É certo que ela morrerá. Ela suspeita disso e tem medo. O médico vai visitá-la. (3º parágrafo),

  1. Aa sucessão de períodos simples cria o efeito de objetividade, centrando a leitura nos fatos narrados.
  2. Ba falta proposital de coesão pela auséncia de relação entre as frases ilustra o medo experimentado pela mulher.
  3. Ca auséncia de conjunções torna a leitura mais reflexiva, deixando a cargo do leitor a ordenação sequencial dos acontecimentos.
  4. Do uso de pronomes como "ela" e "la", retomando "mulher", é responsável pela progressão da narrativa.
  5. Eo efeito de suspense é gerado pela impessoalidade própria da justa posição de frases sem relação sintática entre si.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — a sucessão de períodos simples cria o efeito de objetividade, centrando a leitura nos fatos narrados.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Períodos simples e o efeito de objetividade no trecho de Rubem Alves

Gabarito: letra A. A sucessão de períodos simples no trecho cria, de fato, um efeito de objetividade, centrando a leitura nos fatos narrados. A técnica que decide a questão é reconhecer que período simples é aquele formado por uma única oração (um único verbo), e que a sequência deles, sem conectivos, produz um ritmo direto e factual — exatamente o que se vê em "A mulher está com câncer em estado avançado. É certo que ela morrerá. Ela suspeita disso e tem medo. O médico vai visitá-la." A alternativa correta é a única que descreve com precisão esse efeito, sem acrescentar nada que o texto não autorize.

O comando pede uma interpretação do efeito de sentido produzido pela estrutura sintática do trecho. Não se trata de identificar uma classe gramatical isolada, mas de perceber como a forma (períodos simples justapostos) gera um efeito de sentido (objetividade, foco nos fatos). É uma questão típica de "gramática aplicada ao texto": a resposta não está em uma regra decorada, mas na relação entre a construção sintática e a leitura que ela provoca.

No texto, o autor narra a situação da mulher com câncer de forma direta e impessoal, apresentando os fatos em sequência: o estado da mulher, a certeza da morte, o medo dela e a visita do médico. Cada período é uma unidade de informação fechada, sem subordinações ou conectivos que estabeleçam relações lógicas explícitas. Essa justaposição de períodos simples é um recurso estilístico que confere objetividade — o narrador não emite opiniões nem explica causas, apenas registra os acontecimentos. É o que se vê no trecho:

"A mulher está com câncer em estado avançado. É certo que ela morrerá. Ela suspeita disso e tem medo. O médico vai visitá-la."

A ausência de conectivos não significa ausência de coesão: a progressão temática é garantida pela retomada pronominal ("ela", "disso", "-la") e pela ordem lógica dos fatos. A coesão sequencial, aqui, é feita por justaposição, não por conectivos — e isso é perfeitamente coerente.

A armadilha central da questão é a confusão entre ausência de conectivos e falta de coesão. A banca quer que o candidato perceba que a justaposição de períodos simples é um recurso expressivo, e não um defeito. Além disso, há a tentação de atribuir ao trecho um efeito de suspense ou reflexividade que ele não tem — o trecho é factual, quase clínico, o que reforça a objetividade.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre "ausência de conectivos" e "falta de coesão". A ausência de conectivos não quebra a coesão; ela apenas muda o mecanismo de coesão (justaposição em vez de conectivo). Além disso, tenta seduzir com "suspense" e "reflexividade", que não são efeitos do trecho.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar o efeito de uma estrutura sintática, pergunte: "que tom o autor imprime?" Períodos curtos e justapostos costumam gerar objetividade, agilidade ou suspense — mas o contexto decide. Aqui, o contexto é de relato factual, não de tensão.

1Definição
Uma única oração
Um único verbo
2Efeito no texto
Objetividade
Foco nos fatos
Tom factual
3Coesão sem conectivos
Retomada pronominal
Progressão temática
Justaposição
Período simples
LEVELsoulevel.com.br
Período simples: Definição (Uma única oração, Um único verbo); Efeito no texto (Objetividade, Foco nos fatos, Tom factual); Coesão sem conectivos (Retomada pronominal, Progressão temática, Justaposição)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que "a sucessão de períodos simples cria o efeito de objetividade, centrando a leitura nos fatos narrados". Isso é exatamente o que ocorre. Cada período do trecho é uma oração absoluta (período simples), e a sequência deles, sem conectivos, apresenta os fatos de forma direta e impessoal. O trecho não traz opiniões, julgamentos ou divagações do narrador — apenas registra: o estado da mulher, a certeza da morte, o medo e a visita do médico. Essa objetividade é o efeito central da construção. A alternativa está correta e é a única que descreve com precisão o efeito produzido.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que há "falta proposital de coesão pela ausência de relação entre as frases". Isso é falso: não há falta de coesão. A coesão é estabelecida por retomada pronominal ("ela", "disso", "-la") e pela progressão temática — cada período acrescenta uma informação nova sobre a mulher e a situação. A ausência de conectivos não implica ausência de relação; a relação é de justaposição e sequência lógica. Além disso, a alternativa atribui a suposta falta de coesão a um propósito de "ilustrar o medo", o que não tem base no texto. O erro é contradizer o texto (a coesão existe) e extrapolar (inventar um propósito não indicado).

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que "a ausência de conjunções torna a leitura mais reflexiva, deixando a cargo do leitor a ordenação sequencial dos acontecimentos". Há dois problemas: primeiro, a ausência de conjunções não torna a leitura "mais reflexiva" — o trecho é objetivo, não reflexivo. Segundo, a ordenação sequencial não fica a cargo do leitor: ela é dada pela própria ordem dos períodos (estado → morte → medo → visita), que é linear e inequívoca. A alternativa extrapola ao atribuir um efeito reflexivo que o texto não autoriza e contradiz a objetividade do trecho.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que "o uso de pronomes como 'ela' e 'la', retomando 'mulher', é responsável pela progressão da narrativa". Essa afirmação é verdadeira em si — os pronomes "ela" e "-la" retomam "mulher" e contribuem para a coesão referencial. No entanto, a alternativa não responde ao que o enunciado pede: a questão quer o efeito da sucessão de períodos simples, não o papel dos pronomes. A alternativa tangencia o tema: fala de um mecanismo de coesão que existe, mas não explica o efeito de objetividade. Além disso, a progressão da narrativa não é responsabilidade apenas dos pronomes — ela também depende da ordem dos fatos. O erro é fugir ao foco da questão.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que "o efeito de suspense é gerado pela impessoalidade própria da justaposição de frases sem relação sintática entre si". Há dois erros: primeiro, o trecho não gera suspense — ele é factual e objetivo, sem tensão ou expectativa. Segundo, as frases têm relação sintática entre si: são períodos simples justapostos, e a relação é de coordenação por justaposição (assindetismo), não de ausência de relação. A alternativa contradiz o texto (não há suspense) e extrapola (inventa uma "impessoalidade" que, embora exista, não gera suspense). O efeito real é de objetividade, não de suspense.

Conclusão: a única alternativa que descreve com precisão o efeito da sucessão de períodos simples é a letra A. As demais ou contradizem o texto (B, E), extrapolam efeitos não autorizados (C, E) ou tangenciam o tema (D). A regra de ouro: ao analisar o efeito de uma estrutura sintática, confronte com o tom do trecho — aqui, objetividade, não suspense ou reflexão.

Gabarito: letra A

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