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Questão de Português — Correlação Verbal — FCC 2026

PortuguêsCorrelação Verbal
Código
fc140727
Banca
FCC
Órgão
ALERR
Ano
2026
Cargo
Cons Leg ( )

Atenção: Considere o texto abaixo para responder à questão.

 

1. As duas éticas: a ética que brota da contemplação das estrelas perfeitas, imutáveis e mortas, a que os filósofos dão o nome de ética de princípios, e a ética que brota da contemplação dos jardins imperfeitos e mutáveis, mas vivos – a que os filósofos dão o nome de ética contextual.

 

2. Os jardineiros não olham para as estrelas. Eles nada sabem sobre as estrelas que alguns dizem já ter visto por revelação dos deuses. Como os homens comuns não veem essas estrelas, eles têm de acreditar na palavra dos que dizem já as ter visto longe, muito longe... Os jardineiros só acreditam no que os seus olhos veem. Pensam a partir da experiência: pegam a terra com as mãos e a cheiram...

 

3. Vejamos o seguinte caso. A mulher está com câncer em estado avançado. É certo que ela morrerá. Ela suspeita disso e tem medo. O médico vai visitá-la. Olhando, do fundo do seu medo, no fundo dos olhos do médico ela pergunta: “Doutor, será que eu escapo desta?” Está configurada uma situação ética. Que é que o médico vai dizer? Se o médico for um adepto da ética estelar de princípios, a resposta será simples. Ele não terá que decidir ou escolher. O princípio é claro: dizer a verdade sempre. A enferma perguntou. A resposta terá de ser a verdade. E ele, então, responderá: “Não, a senhora não escapará desta. A senhora vai morrer...” Respondeu segundo um princípio invariável para todas as situações. A lealdade a um princípio o livra de um pensamento perturbador: o que a verdade irá fazer com o corpo e a alma daquela mulher? O princípio, sendo absoluto, não leva em consideração o potencial destruidor da verdade.

 

4. Mas, se for um jardineiro, ele não se lembrará de nenhum princípio. Ele só pensará nos olhos suplicantes daquela mulher. Pensará que a sua palavra terá que produzir a bondade. E ele se perguntará: “Que palavra eu posso dizer que, não sendo um engano – ‘A senhora breve estará curada...’ –, cuidará da mulher como se a palavra fosse um colo que acolhe uma criança?” E ele dirá: “Você me faz essa pergunta porque você está com medo de morrer. Também tenho medo de morrer...” Aí, então, os dois conversarão longamente – como se estivessem de mãos dadas ... – sobre a morte que os dois haverão de enfrentar.

 

5. Como sugeriu o apóstolo Paulo, a verdade está subordinada à bondade. Pela ética de princípios, o uso da camisinha, a pesquisa das células-tronco, o aborto de fetos sem cérebro, o divórcio, a eutanásia são questões resolvidas que não requerem decisões: os princípios universais os proíbem. Mas a ética contextual nos obriga a fazer perguntas sobre o bem ou o mal que uma ação irá criar. O uso da camisinha contribui para diminuir a incidência da aids? As pesquisas com células-tronco contribuem para trazer a cura para uma infinidade de doenças? O aborto de um feto sem cérebro contribuirá para diminuir a dor de uma mulher? O divórcio contribuirá para que homens e mulheres possam recomeçar suas vidas afetivas? A eutanásia pode ser o único caminho para libertar uma pessoa da dor que não a deixará? Duas éticas. A única pergunta a se fazer é: “Qual delas está mais a serviço do amor?”

 

(Adaptado de: ALVES, Rubem. “As duas éticas”. Disponível em: https://cronicasbrasil.blogspot.com)

A correlação entre os verbos está correta e não prejudica a clareza do enunciado em:
  1. ASe todos pudessem compreender a finitude, irão tratar a morte de maneira mais humanizada, acolhendo o paciente em seus momentos finais.
  2. BO profissional da saúde necessita comunicar a verdade sobre o diagnóstico, contanto que o paciente desejou saber a real gravidade de sua doença.
  3. CQuando a equipe investe em cuidados paliativos de qualidade, o paciente sentiria menos dor e a dignidade seria preservada até os ùltimos momentos de vida.
  4. DQuando uma doença não tem cura, a conduta ética migra para os cuidados paliativos, cujo principal objetivo passa a ser o conforto físico e o suporte emocional.
  5. ESe médicos mantém-se serenos ao comunicar notícias graves, os pacientes teriam mais conforto; no entanto, muitos não souberam comunicar-se adequadamente.
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GabaritoD — Quando uma doença não tem cura, a conduta ética migra para os cuidados paliativos, cujo principal objetivo passa a ser o conforto físico e o suporte emocional.

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Correlação verbal: a harmonia entre tempos e modos

Gabarito: letra D. A frase "Quando uma doença não tem cura, a conduta ética migra para os cuidados paliativos, cujo principal objetivo passa a ser o conforto físico e o suporte emocional" é a única em que os tempos e modos verbais se combinam com perfeita harmonia: o presente do indicativo em "tem", "migra" e "passa" expressa fatos atuais e certos, sem quebra de sentido. As demais alternativas misturam tempos e modos de forma incoerente, como se lê em "Se todos pudessem compreender a finitude, irão tratar a morte" (A), em que o pretérito imperfeito do subjuntivo (hipótese) não se combina com o futuro do presente (certeza).

A questão cobra correlação verbal, ou seja, a harmonia entre os tempos e modos verbais dentro de um mesmo período. O comando pede a alternativa em que essa correlação está correta e não prejudica a clareza. Isso significa que devemos analisar cada frase verificando se os verbos se complementam semanticamente: se a oração condicional usa o subjuntivo (hipótese), a principal deve usar um tempo que expresse também hipótese (futuro do pretérito, por exemplo); se a oração temporal usa o presente do indicativo (fato), a principal deve manter o presente.

O texto-base, de Rubem Alves, discute duas éticas: a de princípios (estrelas) e a contextual (jardins). No parágrafo 3, o autor apresenta o caso da mulher com câncer e a pergunta ao médico: "Doutor, será que eu escapo desta?". No parágrafo 4, o médico "jardineiro" responde com uma abordagem contextual, e o autor conclui no parágrafo 5: "A única pergunta a se fazer é: 'Qual delas está mais a serviço do amor?'". A questão, porém, não pede interpretação do texto, mas análise gramatical de frases que poderiam ser ditas por um profissional de saúde. O texto serve apenas como pano de fundo temático.

A técnica para resolver é simples: identifique o modo e o tempo de cada verbo e verifique se a combinação é semanticamente coerente. As "dobradinhas" clássicas são: Se + pretérito imperfeito do subjuntivo → futuro do pretérito (ex.: "Se eu pudesse, faria") e Se + futuro do subjuntivo → futuro do presente (ex.: "Se eu puder, farei"). Também é válido usar o presente do indicativo em ambas as orações para expressar fatos gerais ou habituais. A banca adora misturar hipótese com certeza, como em "Se eu tivesse dinheiro, faço um curso" — isso é erro.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre hipótese (subjuntivo) e certeza (indicativo/futuro). Em A, "pudessem" (subjuntivo) exige "tratariam" (futuro do pretérito), não "irão tratar" (futuro do presente). Em B, "desejou" (pretérito perfeito) não combina com "contanto que" (que pede subjuntivo). Em C, "investe" (presente) não combina com "sentiria" (futuro do pretérito). Em E, "mantém-se" (presente) não combina com "teriam" (futuro do pretérito) e "souberam" (pretérito perfeito).

Correlação verbal
  • 1Combinações clássicas
    • Se + pret. imperf. subjuntivo → futuro do pretérito
    • Se + futuro do subjuntivo → futuro do presente
    • Presente + presente (fatos gerais)
  • 2Erros comuns
    • Hipótese + certeza
    • Conectivo condicional + indicativo
    • Presente + futuro do pretérito
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Alternativa A — ❌ Incorreta

A frase "Se todos pudessem compreender a finitude, irão tratar a morte de maneira mais humanizada" apresenta erro de correlação. O verbo "pudessem" está no pretérito imperfeito do subjuntivo, que expressa hipótese ou condição irreal. O verbo "irão tratar" está no futuro do presente do indicativo, que expressa certeza ou fato futuro. Essa mistura é incoerente: não se pode combinar uma condição hipotética com uma consequência certa. O correto seria "Se todos pudessem compreender a finitude, tratariam a morte de maneira mais humanizada" (futuro do pretérito). A alternativa extrapola a harmonia verbal, criando uma quebra de sentido.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A frase "O profissional da saúde necessita comunicar a verdade sobre o diagnóstico, contanto que o paciente desejou saber a real gravidade de sua doença" apresenta erro de correlação. A locução conjuntiva "contanto que" exige o verbo no modo subjuntivo (presente ou pretérito imperfeito), pois expressa condição ou hipótese. O verbo "desejou" está no pretérito perfeito do indicativo, que expressa fato concluído. O correto seria "contanto que o paciente deseje saber" (presente do subjuntivo) ou "contanto que o paciente desejasse saber" (pretérito imperfeito do subjuntivo). A alternativa contradiz a regra de correlação, pois o conectivo condicional exige subjuntivo.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A frase "Quando a equipe investe em cuidados paliativos de qualidade, o paciente sentiria menos dor e a dignidade seria preservada até os últimos momentos de vida" apresenta erro de correlação. O verbo "investe" está no presente do indicativo, que expressa fato atual ou habitual. Os verbos "sentiria" e "seria" estão no futuro do pretérito do indicativo, que expressa hipótese ou condição. Essa mistura é incoerente: se a oração temporal usa o presente (fato), a principal deve usar também o presente ou o futuro do presente. O correto seria "o paciente sente menos dor" ou "o paciente sentirá menos dor". A alternativa restringe indevidamente o alcance temporal, criando uma quebra de sentido.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A frase "Quando uma doença não tem cura, a conduta ética migra para os cuidados paliativos, cujo principal objetivo passa a ser o conforto físico e o suporte emocional" apresenta correlação verbal perfeita. Todos os verbos estão no presente do indicativo: "tem", "migra" e "passa". Essa combinação expressa fatos gerais ou habituais, sem quebra de sentido. A oração temporal "Quando uma doença não tem cura" estabelece uma condição que se repete, e a principal "a conduta ética migra" expressa a consequência natural. O pronome relativo "cujo" introduz uma oração adjetiva que também mantém o presente. A alternativa é a única que não prejudica a clareza e mantém a harmonia entre os tempos e modos.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A frase "Se médicos mantém-se serenos ao comunicar notícias graves, os pacientes teriam mais conforto; no entanto, muitos não souberam comunicar-se adequadamente" apresenta erro de correlação. O verbo "mantém-se" está no presente do indicativo, que expressa fato atual. O verbo "teriam" está no futuro do pretérito do indicativo, que expressa hipótese. Essa mistura é incoerente: se a oração condicional usa o presente (fato), a principal deve usar também o presente ou o futuro do presente. O correto seria "os pacientes têm mais conforto" ou "os pacientes terão mais conforto". Além disso, "souberam" está no pretérito perfeito do indicativo, que expressa fato concluído, mas o contexto pede presente ou futuro. A alternativa contradiz a harmonia verbal, criando uma quebra de sentido.

Conclusão: a única alternativa que mantém a correlação verbal correta e a clareza é a letra D, pois todos os verbos estão no presente do indicativo, expressando fatos gerais. As demais alternativas misturam tempos e modos de forma incoerente, prejudicando o sentido. Lembre-se: verifique sempre se a combinação de tempos e modos é semanticamente coerente, usando as "dobradinhas" clássicas como referência.

Gabarito: letra D

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