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Questão de Português — Tipologia e Gênero Textual — FCC 2026

PortuguêsTipologia e Gênero Textual
Código
fc140728
Banca
FCC
Órgão
ALERR
Ano
2026
Cargo
Cons Leg ( )

Atenção: Considere os textos abaixo para responder à questão.

 

História de um olhar

 

1. O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos. Diminutos, invisíveis. O mundo é salvo pelo avesso da importância. Pelo antônimo da evidência. O mundo é salvo por um olhar. Que envolve e afaga. Abarca. Resgata. Reconhece. Salva. Inclui.

 

Esta é a história de um olhar. Um olhar que enxerga. E por enxergar, reconhece. E por reconhecer, salva. Esta é a história do olhar de uma professora chamada Eliane Vanti e de um andarilho chamado Israel Pires.

 

5. Um olhar que nasceu na Vila Kephas. Dizem que, em grego, kephas significa pedra. Por isso um nome tão singular para uma vila de Novo Hamburgo. Kephas foi inventada mais de uma década atrás pedra sobre pedra. Em regime de mutirão. Eram operários da indústria naqueles tempos nada longínquos. Hoje, desempregados da indústria. Biscateiros, papeleiros. Excluídos.

 

Nesta Kephas cheia de presságios e de misérias vagava um rapaz de 29 anos com o nome de Israel. Porque em todo lugar, por mais cinzento, trágico e desesperançado que seja, há sempre alguém ainda mais cinzento, trágico e desesperançado. Há sempre alguém para ser chutado por expressar a imagem-síntese, renegada e assustadora, do grupo. Israel, para a Vila Kephas, era esse ícone. O enjeitado da vila enjeitada. A imagem indesejada no espelho.

 

Imundo, meio abilolado, malcheiroso, Israel vivia atirado num canto ou noutro da vila. Filho de pai pedreiro e de mãe morta, vivendo em uma casa cheia de fome com a madrasta e uma irmã doente. Desregulado das ideias, segundo o senso comum. Nascido prematuro, mas sem dinheiro para diagnóstico. Escorraçado como um cão, torturado pelos garotos maus. Amarrado, quase violado. Israel era cuspido. Era apedrejado. Israel era a escória da escória.

 

Um dia Israel se aproximou de um menino. De nove anos, chamado Lucas. Olhos de amêndoa, rosto de esconderijo. Bom de bola. Bom de rua. De tanto gostar do menino que lhe sorriu, Israel o seguiu até a escola. Até a porta onde Lucas desaparecia todas as tardes, tragado sabe-se lá por qual magia. Até a porta onde as crianças recebiam cucas e leite. Israel chegou até lá por fome. De comida, de afago, de lápis de cor. Fome de olhar.

 

Aconteceu neste inverno. Eliane, a professora, descobriu Israel. Desajeitado, envergonhado, quase desaparecido dentro dele mesmo. Um vulto, um espectro na porta da escola. Com um sorriso inocente e uns olhos de vira-lata pidão, dando a cara para bater porque nunca foi capaz de escondê-la.

 

10. Eliane viu Israel. E Israel se viu refletido no olhar de Eliane. E o que se passou naquele olhar é um milagre de gente. Israel descobriu um outro Israel navegando nas pupilas da professora. Terno, especial, até meio garboso. Israel descobriu nos olhos da professora que era um homem, não um escombro.

 

Capturado por essa irresistível imagem de si mesmo, Israel perseguiu o olho de espelho da professora. A cada dia dava um passo para dentro do olhar. E, ao perceberem, Israel estava no interior da escola. E, ao virem, Israel estava na janela da sala de aula da 2ª série C. Com meio corpo para dentro do olhar da professora.

 

Uma cena e tanto. Israel na janela, espiando para dentro. Cantando no lado de fora, desenhando com os olhos. Quando o chamavam, fugia correndo. Escondia-se atrás dos prédios. Mas devagar, como bicho acuado, que de tanto apanhar ficou ressabiado, foi pegando primeiro um lápis, depois um afago. E, num dia de agosto, Israel completou a subversão. Cruzou a porta e pintou bonecos de papel. Israel estava todo dentro do olhar da professora.

 

E o olhar começou a se espalhar, se expandir, e engolfou toda a sala de aula. A imagem se multiplicou por 31 pares de olhos de crianças. Israel, o pária, tinha se transformado em Israel, o amigo. Ganhou roupas, ganhou pasta, ganhou lápis de cor. E, no dia seguinte, Israel chegou de banho tomado, barba feita, roupa limpa. Igualzinho ao Israel que havia avistado no olho da professora. Trazia até umas pupilas novas, enormes, em forma de facho. E um sorriso também recém-inventado. Entrou na sala onde a professora pintava no chão e ela começou a chorar. E as lágrimas da professora, tal qual um vagalhão, terminaram de lavar a imagem acossada, ferida, flagelada de Israel.

 

Israel, capturado pelo olhar da professora, nunca mais o abandonou. Vive hoje nesse olhar em formato de sala de aula, cercado por 31 pares de olhos de infância que lhe contam histórias e lhe ensinam palavras novas. Refletido por esses olhos, Israel passou a refletir todos eles. E a professora, que andava deprimida e de mal com a vida, descobriu-se bela, importante, nos olhos de Israel. E as crianças, que têm na escola um intervalo entre a violência e a fome, descobriram-se livres de todos os destinos traçados nos olhos de Israel.

 

15. Israel, não importa se alguém não gosta de você. O que importa é que você siga a vida, aconselha Jeferson, de oito anos. Israel, não faz mal que tu sejas grande e um pouco doente, tu podes fazer tudo o que tu imaginares, promete Greice, de nove. Israel, se alguém te atirar uma pedra eu vou chamar o Vandinho, porque todo mundo tem medo do Vandinho, tranquiliza Lucas, nove. Israel, tu me botas na garupa no recreio?

 

E foi assim que o olhar escorreu pela escola e amoleceu as ruas de pedra.

 

Israel, depois que se descobriu no olhar da professora, ganhou o respeito da vila, a admiração do pai. Vai ganhar uma vaga oficial na escola. Já consegue escrever o "P" de professora. E ninguém mais lhe atira pedras. A professora, depois que se descobriu no olhar de Israel, ri sozinha e chora à toa. Parou de reclamar da vida e as aulas viraram uma cantoria. A redenção de Israel foi a revolução da professora.

 

Em 7 de Setembro, Israel desfilou. Pintado de verde-amarelo, aplaudido de pé pela Vila Pedra.

 

[18 de setembro de 1999]

 

(Adaptado de: BRUM, Eliane. A vida que ninguém vê. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2006. p. 20-25)

O texto de Eliane Brum se configura como
  1. Auma denúncia da violência praticada por crianças em comunidades carentes.
  2. Buma crítica às condições sociais das vilas urbanas e ao desemprego industrial.
  3. Cum alerta sobre a importância da disciplina escolar para transformar indivíduos marginalizados.
  4. Dum exemplo de como pequenas ações de respeito são capazes de acolher e restabelecer a dignidade de uma pessoa.
  5. Eum pedido de criação de políticas públicas para inclusão social de pessoas em situação de rua.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — um exemplo de como pequenas ações de respeito são capazes de acolher e restabelecer a dignidade de uma pessoa.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O texto de Eliane Brum: um exemplo de acolhimento e restauração da dignidade

Gabarito: letra D. O texto de Eliane Brum se configura como um exemplo de como pequenas ações de respeito são capazes de acolher e restabelecer a dignidade de uma pessoa. A tese central está na abertura: "O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos. Diminutos, invisíveis. O mundo é salvo pelo avesso da importância. Pelo antônimo da evidência. O mundo é salvo por um olhar. Que envolve e afaga. Abarca. Resgata. Reconhece. Salva. Inclui." O restante do texto narra exatamente como o olhar da professora Eliane acolheu Israel, o andarilho excluído, e o transformou, restabelecendo sua dignidade.

O comando pede que se identifique a configuração do texto, ou seja, sua finalidade e sentido global. Não se trata de uma questão de compreensão literal de um detalhe, mas de interpretação da intenção comunicativa do autor. Para resolvê-la, é preciso captar o tema (a história de Israel e da professora), a tese (pequenos gestos de respeito salvam e restauram) e os argumentos (a narrativa do processo de inclusão de Israel). A alternativa correta é a que sintetiza essa tese, sem acrescentar ou restringir informações.

O texto é uma crônica narrativa: conta a história real de Israel, um andarilho excluído da Vila Kephas, e de como o olhar da professora Eliane o acolheu. A narrativa é o veículo para defender uma ideia: a importância do respeito e do acolhimento. A tese é explicitada no primeiro parágrafo e confirmada no desfecho: "A redenção de Israel foi a revolução da professora." A alternativa D é uma paráfrase dessa tese: "pequenas ações de respeito" (o olhar, o lápis, o afago) "acolhem e restabelecem a dignidade" (Israel se vê como homem, não como escombro).

A banca monta as distratoras explorando extrapolações e generalizações a partir de elementos presentes no texto, mas que não constituem a finalidade central. Cada alternativa errada pega um aspecto periférico e o transforma em tese, ou acrescenta um juízo que o autor não emite. A técnica para resolver é: perguntar, para cada alternativa, se o texto a sustenta como ideia central ou se ela exige acrescentar algo de fora.

1Tese central
Pequenos gestos de respeito
Acolhem e restauram a dignidade
2Gênero
Crônica narrativa
História real de Israel
3Distratoras (extrapolação)
Denúncia de violência
Crítica social
Disciplina escolar
Políticas públicas
Finalidade do texto
LEVELsoulevel.com.br
Finalidade do texto: Tese central (Pequenos gestos de respeito, Acolhem e restauram a dignidade); Gênero (Crônica narrativa, História real de Israel); Distratoras (extrapolação) (Denúncia de violência, Crítica social, Disciplina escolar, Políticas públicas)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação (fora do escopo). O texto menciona que Israel era "torturado pelos garotos maus" e "apedrejado", mas isso é contexto da história, não a finalidade do texto. A alternativa transforma um detalhe em tese, afirmando que o texto é "uma denúncia da violência praticada por crianças em comunidades carentes". O texto não tem caráter de denúncia; ele narra uma história de superação e acolhimento. A violência é apresentada como parte da realidade de Israel, mas o foco está na transformação promovida pelo olhar da professora.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação (fora do escopo). O texto menciona que os moradores da Vila Kephas eram "desempregados da indústria. Biscateiros, papeleiros. Excluídos." e que a vila era "cheia de presságios e de misérias". No entanto, isso é pano de fundo para a história, não a tese. A alternativa afirma que o texto é "uma crítica às condições sociais das vilas urbanas e ao desemprego industrial", o que seria uma generalização a partir de elementos periféricos. O texto não faz uma crítica social sistemática; ele narra um caso particular de acolhimento.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito (generalização indevida). O texto mostra que Israel, ao ser acolhido, passa a frequentar a escola e a aprender, mas isso é consequência do acolhimento, não a finalidade do texto. A alternativa afirma que o texto é "um alerta sobre a importância da disciplina escolar para transformar indivíduos marginalizados", o que inverte a lógica: não é a disciplina que transforma Israel, mas o olhar de respeito da professora. A palavra "disciplina" não aparece no texto e a ideia de que a escola transforma por meio da disciplina é uma extrapolação.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa D é a única que sintetiza a tese central do texto. A abertura já anuncia: "O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos. Diminutos, invisíveis. O mundo é salvo pelo avesso da importância. Pelo antônimo da evidência. O mundo é salvo por um olhar. Que envolve e afaga. Abarca. Resgata. Reconhece. Salva. Inclui." O texto narra como o olhar da professora Eliane acolheu Israel, que era "a escória da escória", e o transformou: "Israel descobriu nos olhos da professora que era um homem, não um escombro." O desfecho confirma: "A redenção de Israel foi a revolução da professora." Portanto, o texto é um exemplo de como pequenas ações de respeito (o olhar, o lápis, o afago) são capazes de acolher (Israel passa a ser aceito na escola e na vila) e restabelecer a dignidade (Israel se vê como homem, ganha respeito e admiração).

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação (fora do escopo). O texto narra a história de Israel, que vivia em situação de rua, mas não faz um "pedido de criação de políticas públicas para inclusão social de pessoas em situação de rua". Não há nenhuma menção a políticas públicas, ao Estado ou a reivindicações nesse sentido. A alternativa extrapola o texto, atribuindo-lhe uma finalidade que ele não tem. O texto é uma crônica sobre o poder do olhar e do acolhimento individual, não um manifesto político.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação com elementos reais do texto (violência, desemprego, escola, situação de rua) para tentar fazer o candidato escolher uma alternativa que parece plausível, mas que não corresponde à tese central. A correta é a única que sintetiza a ideia de acolhimento e restauração da dignidade.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar a finalidade de um texto, pergunte-se: "qual é a ideia central que o autor defende?" e "qual é a função do texto: denunciar, criticar, alertar, exemplificar, pedir?". A resposta deve estar ancorada na tese, não em detalhes periféricos.

Gabarito: letra D

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