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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140731
Banca
FCC
Órgão
ALERR
Ano
2026
Cargo
Cons Leg ( )

Atenção: Considere os textos abaixo para responder à questão.

 

História de um olhar

 

1. O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos. Diminutos, invisíveis. O mundo é salvo pelo avesso da importância. Pelo antônimo da evidência. O mundo é salvo por um olhar. Que envolve e afaga. Abarca. Resgata. Reconhece. Salva. Inclui.

 

Esta é a história de um olhar. Um olhar que enxerga. E por enxergar, reconhece. E por reconhecer, salva. Esta é a história do olhar de uma professora chamada Eliane Vanti e de um andarilho chamado Israel Pires.

 

5. Um olhar que nasceu na Vila Kephas. Dizem que, em grego, kephas significa pedra. Por isso um nome tão singular para uma vila de Novo Hamburgo. Kephas foi inventada mais de uma década atrás pedra sobre pedra. Em regime de mutirão. Eram operários da indústria naqueles tempos nada longínquos. Hoje, desempregados da indústria. Biscateiros, papeleiros. Excluídos.

 

Nesta Kephas cheia de presságios e de misérias vagava um rapaz de 29 anos com o nome de Israel. Porque em todo lugar, por mais cinzento, trágico e desesperançado que seja, há sempre alguém ainda mais cinzento, trágico e desesperançado. Há sempre alguém para ser chutado por expressar a imagem-síntese, renegada e assustadora, do grupo. Israel, para a Vila Kephas, era esse ícone. O enjeitado da vila enjeitada. A imagem indesejada no espelho.

 

Imundo, meio abilolado, malcheiroso, Israel vivia atirado num canto ou noutro da vila. Filho de pai pedreiro e de mãe morta, vivendo em uma casa cheia de fome com a madrasta e uma irmã doente. Desregulado das ideias, segundo o senso comum. Nascido prematuro, mas sem dinheiro para diagnóstico. Escorraçado como um cão, torturado pelos garotos maus. Amarrado, quase violado. Israel era cuspido. Era apedrejado. Israel era a escória da escória.

 

Um dia Israel se aproximou de um menino. De nove anos, chamado Lucas. Olhos de amêndoa, rosto de esconderijo. Bom de bola. Bom de rua. De tanto gostar do menino que lhe sorriu, Israel o seguiu até a escola. Até a porta onde Lucas desaparecia todas as tardes, tragado sabe-se lá por qual magia. Até a porta onde as crianças recebiam cucas e leite. Israel chegou até lá por fome. De comida, de afago, de lápis de cor. Fome de olhar.

 

Aconteceu neste inverno. Eliane, a professora, descobriu Israel. Desajeitado, envergonhado, quase desaparecido dentro dele mesmo. Um vulto, um espectro na porta da escola. Com um sorriso inocente e uns olhos de vira-lata pidão, dando a cara para bater porque nunca foi capaz de escondê-la.

 

10. Eliane viu Israel. E Israel se viu refletido no olhar de Eliane. E o que se passou naquele olhar é um milagre de gente. Israel descobriu um outro Israel navegando nas pupilas da professora. Terno, especial, até meio garboso. Israel descobriu nos olhos da professora que era um homem, não um escombro.

 

Capturado por essa irresistível imagem de si mesmo, Israel perseguiu o olho de espelho da professora. A cada dia dava um passo para dentro do olhar. E, ao perceberem, Israel estava no interior da escola. E, ao virem, Israel estava na janela da sala de aula da 2ª série C. Com meio corpo para dentro do olhar da professora.

 

Uma cena e tanto. Israel na janela, espiando para dentro. Cantando no lado de fora, desenhando com os olhos. Quando o chamavam, fugia correndo. Escondia-se atrás dos prédios. Mas devagar, como bicho acuado, que de tanto apanhar ficou ressabiado, foi pegando primeiro um lápis, depois um afago. E, num dia de agosto, Israel completou a subversão. Cruzou a porta e pintou bonecos de papel. Israel estava todo dentro do olhar da professora.

 

E o olhar começou a se espalhar, se expandir, e engolfou toda a sala de aula. A imagem se multiplicou por 31 pares de olhos de crianças. Israel, o pária, tinha se transformado em Israel, o amigo. Ganhou roupas, ganhou pasta, ganhou lápis de cor. E, no dia seguinte, Israel chegou de banho tomado, barba feita, roupa limpa. Igualzinho ao Israel que havia avistado no olho da professora. Trazia até umas pupilas novas, enormes, em forma de facho. E um sorriso também recém-inventado. Entrou na sala onde a professora pintava no chão e ela começou a chorar. E as lágrimas da professora, tal qual um vagalhão, terminaram de lavar a imagem acossada, ferida, flagelada de Israel.

 

Israel, capturado pelo olhar da professora, nunca mais o abandonou. Vive hoje nesse olhar em formato de sala de aula, cercado por 31 pares de olhos de infância que lhe contam histórias e lhe ensinam palavras novas. Refletido por esses olhos, Israel passou a refletir todos eles. E a professora, que andava deprimida e de mal com a vida, descobriu-se bela, importante, nos olhos de Israel. E as crianças, que têm na escola um intervalo entre a violência e a fome, descobriram-se livres de todos os destinos traçados nos olhos de Israel.

 

15. Israel, não importa se alguém não gosta de você. O que importa é que você siga a vida, aconselha Jeferson, de oito anos. Israel, não faz mal que tu sejas grande e um pouco doente, tu podes fazer tudo o que tu imaginares, promete Greice, de nove. Israel, se alguém te atirar uma pedra eu vou chamar o Vandinho, porque todo mundo tem medo do Vandinho, tranquiliza Lucas, nove. Israel, tu me botas na garupa no recreio?

 

E foi assim que o olhar escorreu pela escola e amoleceu as ruas de pedra.

 

Israel, depois que se descobriu no olhar da professora, ganhou o respeito da vila, a admiração do pai. Vai ganhar uma vaga oficial na escola. Já consegue escrever o "P" de professora. E ninguém mais lhe atira pedras. A professora, depois que se descobriu no olhar de Israel, ri sozinha e chora à toa. Parou de reclamar da vida e as aulas viraram uma cantoria. A redenção de Israel foi a revolução da professora.

 

Em 7 de Setembro, Israel desfilou. Pintado de verde-amarelo, aplaudido de pé pela Vila Pedra.

 

[18 de setembro de 1999]

 

(Adaptado de: BRUM, Eliane. A vida que ninguém vê. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2006. p. 20-25)

Sobre a importância simbólica do espelho no texto “História de um olhar”, é correto afirmar que ele
  1. Amostra que a professora Eliane, por estar deprimida, via em Israel o reflexo de suas próprias falhas e de sua desesperança com a vida.
  2. Brepresenta a vaidade de Israel, que, ao se ver refletido, decide mudar sua aparência para ser aceito pela sociedade da Vila Kephas.
  3. Cfunciona como um instrumento de julgamento, no qual a professora aponta as falhas de Israel para que ele possa corrigi-las e frequentar a escola.
  4. Dindica a dualidade da Vila Kephas, que reflete a riqueza dos operários do passado em contraste com a miséria dos desempregados do presente.
  5. Esimboliza o reconhecimento da dignidade humana, onde Israel consegue enxergar uma versão positiva de si mesmo através do olhar da professora.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — simboliza o reconhecimento da dignidade humana, onde Israel consegue enxergar uma versão positiva de si mesmo através do olhar da professora.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O espelho como símbolo do reconhecimento da dignidade humana

Gabarito: letra E. O espelho, no texto, não é um objeto físico, mas uma metáfora do olhar da professora Eliane, que reflete para Israel uma imagem positiva de si mesmo, reconhecendo sua dignidade. A passagem que ancora essa leitura é: "Israel descobriu um outro Israel navegando nas pupilas da professora. Terno, especial, até meio garboso. Israel descobriu nos olhos da professora que era um homem, não um escombro." A alternativa E é a única que captura exatamente esse sentido simbólico.

O comando pede uma interpretação do valor simbólico do espelho — ou seja, não se trata de localizar uma informação literal, mas de depreender o sentido figurado que o texto constrói. A palavra-chave é "simbolicamente": o espelho não aparece como objeto, mas como imagem do olhar que transforma. Para resolver, é preciso identificar o que o olhar de Eliane faz com Israel e qual o efeito disso na narrativa.

O texto é uma crônica narrativa que conta a redenção de Israel, um andarilho excluído, a partir do olhar de uma professora. A tese central é que um gesto de reconhecimento — um olhar que enxerga o outro como digno — tem poder transformador. O movimento argumentativo é claro: Israel, tratado como "escória da escória", é visto por Eliane não como um problema, mas como uma pessoa. Esse olhar funciona como um espelho que devolve a ele uma imagem positiva de si, e é essa imagem que o salva.

A técnica que decide a questão é a distinção entre o que o texto afirma e o que as alternativas acrescentam. Cada distratora parte de um fragmento real do texto, mas o distorce ao inverter o sentido, restringir o alcance ou embutir uma motivação que o autor não menciona. O teste para cada alternativa é: "o texto autoriza esta leitura, ou ela exige acrescentar algo de fora?".

"Israel descobriu um outro Israel navegando nas pupilas da professora. Terno, especial, até meio garboso. Israel descobriu nos olhos da professora que era um homem, não um escombro."

Este trecho é a prova central: o olhar de Eliane não julga, não acusa, não reflete falhas — ele reconhece uma versão digna de Israel. A palavra "descobriu" indica que essa imagem já existia, mas estava oculta; o olhar da professora a revela. É exatamente o que a alternativa E afirma: o espelho (o olhar) simboliza o reconhecimento da dignidade humana, permitindo que Israel enxergue uma versão positiva de si.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa inverte a direção do olhar. O texto diz que Eliane, ao se ver refletida nos olhos de Israel, "descobriu-se bela, importante" — ou seja, o espelho a valoriza, não a expõe a falhas. A passagem "a professora, que andava deprimida e de mal com a vida, descobriu-se bela, importante, nos olhos de Israel" mostra que o efeito sobre Eliane é positivo. A alternativa contradiz o texto ao afirmar que ela via em Israel o reflexo de suas próprias falhas.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa extrapola ao atribuir a mudança de Israel à vaidade e ao desejo de aceitação social. O texto diz que Israel "chegou de banho tomado, barba feita, roupa limpa. Igualzinho ao Israel que havia avistado no olho da professora" — a mudança é consequência de se reconhecer no olhar, não de vaidade. Além disso, o texto não menciona desejo de "ser aceito pela sociedade"; a transformação é interna, não social.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa contradiz o texto ao transformar o olhar em instrumento de julgamento. O texto descreve o olhar como algo que "envolve e afaga. Abarca. Resgata. Reconhece. Salva. Inclui" — jamais como julgamento. Não há nenhuma passagem em que Eliane aponte falhas de Israel; ao contrário, ela o vê como "terno, especial, até meio garboso".

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa tangencia o tema ao falar da dualidade da Vila Kephas, que não é o foco da pergunta sobre o espelho. O texto menciona a miséria da vila, mas o espelho (o olhar) não reflete essa dualidade. A alternativa foge ao que o enunciado pede, que é o valor simbólico do espelho na relação entre Eliane e Israel.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa é uma paráfrase fiel do trecho central: "Israel descobriu um outro Israel navegando nas pupilas da professora. Terno, especial, até meio garboso. Israel descobriu nos olhos da professora que era um homem, não um escombro." O espelho (o olhar) simboliza exatamente o reconhecimento da dignidade humana: Israel, que se via como "escória", passa a se ver como homem. A alternativa não acrescenta nem restringe nada — apenas traduz o sentido simbólico construído pelo texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a inversão de sentido — cada distratora pega um fragmento real do texto (a depressão de Eliane, a mudança de Israel, a miséria da vila) e o distorce, atribuindo ao espelho um papel que ele não tem. A correta é a única que mantém a direção do olhar: de Eliane para Israel, reconhecendo sua dignidade.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de valor simbólico, pergunte-se: "o que este elemento FAZ no texto?" O espelho não julga, não acusa, não reflete a vila — ele reconhece. A alternativa que captura a função do elemento no texto é a correta.

Gabarito: letra E. A resposta mora no trecho em que Israel se descobre "um homem, não um escombro" nos olhos da professora — o espelho simbólico do reconhecimento da dignidade humana.

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