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Questão de Português — Orações Subordinadas Adverbiais — FCC 2026

PortuguêsOrações Subordinadas Adverbiais
Código
fc140735
Banca
FCC
Órgão
ALERR
Ano
2026
Cargo
Cons Leg ( )

Atenção: Considere os textos abaixo para responder à questão.

 

História de um olhar

 

1. O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos. Diminutos, invisíveis. O mundo é salvo pelo avesso da importância. Pelo antônimo da evidência. O mundo é salvo por um olhar. Que envolve e afaga. Abarca. Resgata. Reconhece. Salva. Inclui.

 

Esta é a história de um olhar. Um olhar que enxerga. E por enxergar, reconhece. E por reconhecer, salva. Esta é a história do olhar de uma professora chamada Eliane Vanti e de um andarilho chamado Israel Pires.

 

5. Um olhar que nasceu na Vila Kephas. Dizem que, em grego, kephas significa pedra. Por isso um nome tão singular para uma vila de Novo Hamburgo. Kephas foi inventada mais de uma década atrás pedra sobre pedra. Em regime de mutirão. Eram operários da indústria naqueles tempos nada longínquos. Hoje, desempregados da indústria. Biscateiros, papeleiros. Excluídos.

 

Nesta Kephas cheia de presságios e de misérias vagava um rapaz de 29 anos com o nome de Israel. Porque em todo lugar, por mais cinzento, trágico e desesperançado que seja, há sempre alguém ainda mais cinzento, trágico e desesperançado. Há sempre alguém para ser chutado por expressar a imagem-síntese, renegada e assustadora, do grupo. Israel, para a Vila Kephas, era esse ícone. O enjeitado da vila enjeitada. A imagem indesejada no espelho.

 

Imundo, meio abilolado, malcheiroso, Israel vivia atirado num canto ou noutro da vila. Filho de pai pedreiro e de mãe morta, vivendo em uma casa cheia de fome com a madrasta e uma irmã doente. Desregulado das ideias, segundo o senso comum. Nascido prematuro, mas sem dinheiro para diagnóstico. Escorraçado como um cão, torturado pelos garotos maus. Amarrado, quase violado. Israel era cuspido. Era apedrejado. Israel era a escória da escória.

 

Um dia Israel se aproximou de um menino. De nove anos, chamado Lucas. Olhos de amêndoa, rosto de esconderijo. Bom de bola. Bom de rua. De tanto gostar do menino que lhe sorriu, Israel o seguiu até a escola. Até a porta onde Lucas desaparecia todas as tardes, tragado sabe-se lá por qual magia. Até a porta onde as crianças recebiam cucas e leite. Israel chegou até lá por fome. De comida, de afago, de lápis de cor. Fome de olhar.

 

Aconteceu neste inverno. Eliane, a professora, descobriu Israel. Desajeitado, envergonhado, quase desaparecido dentro dele mesmo. Um vulto, um espectro na porta da escola. Com um sorriso inocente e uns olhos de vira-lata pidão, dando a cara para bater porque nunca foi capaz de escondê-la.

 

10. Eliane viu Israel. E Israel se viu refletido no olhar de Eliane. E o que se passou naquele olhar é um milagre de gente. Israel descobriu um outro Israel navegando nas pupilas da professora. Terno, especial, até meio garboso. Israel descobriu nos olhos da professora que era um homem, não um escombro.

 

Capturado por essa irresistível imagem de si mesmo, Israel perseguiu o olho de espelho da professora. A cada dia dava um passo para dentro do olhar. E, ao perceberem, Israel estava no interior da escola. E, ao virem, Israel estava na janela da sala de aula da 2ª série C. Com meio corpo para dentro do olhar da professora.

 

Uma cena e tanto. Israel na janela, espiando para dentro. Cantando no lado de fora, desenhando com os olhos. Quando o chamavam, fugia correndo. Escondia-se atrás dos prédios. Mas devagar, como bicho acuado, que de tanto apanhar ficou ressabiado, foi pegando primeiro um lápis, depois um afago. E, num dia de agosto, Israel completou a subversão. Cruzou a porta e pintou bonecos de papel. Israel estava todo dentro do olhar da professora.

 

E o olhar começou a se espalhar, se expandir, e engolfou toda a sala de aula. A imagem se multiplicou por 31 pares de olhos de crianças. Israel, o pária, tinha se transformado em Israel, o amigo. Ganhou roupas, ganhou pasta, ganhou lápis de cor. E, no dia seguinte, Israel chegou de banho tomado, barba feita, roupa limpa. Igualzinho ao Israel que havia avistado no olho da professora. Trazia até umas pupilas novas, enormes, em forma de facho. E um sorriso também recém-inventado. Entrou na sala onde a professora pintava no chão e ela começou a chorar. E as lágrimas da professora, tal qual um vagalhão, terminaram de lavar a imagem acossada, ferida, flagelada de Israel.

 

Israel, capturado pelo olhar da professora, nunca mais o abandonou. Vive hoje nesse olhar em formato de sala de aula, cercado por 31 pares de olhos de infância que lhe contam histórias e lhe ensinam palavras novas. Refletido por esses olhos, Israel passou a refletir todos eles. E a professora, que andava deprimida e de mal com a vida, descobriu-se bela, importante, nos olhos de Israel. E as crianças, que têm na escola um intervalo entre a violência e a fome, descobriram-se livres de todos os destinos traçados nos olhos de Israel.

 

15. Israel, não importa se alguém não gosta de você. O que importa é que você siga a vida, aconselha Jeferson, de oito anos. Israel, não faz mal que tu sejas grande e um pouco doente, tu podes fazer tudo o que tu imaginares, promete Greice, de nove. Israel, se alguém te atirar uma pedra eu vou chamar o Vandinho, porque todo mundo tem medo do Vandinho, tranquiliza Lucas, nove. Israel, tu me botas na garupa no recreio?

 

E foi assim que o olhar escorreu pela escola e amoleceu as ruas de pedra.

 

Israel, depois que se descobriu no olhar da professora, ganhou o respeito da vila, a admiração do pai. Vai ganhar uma vaga oficial na escola. Já consegue escrever o "P" de professora. E ninguém mais lhe atira pedras. A professora, depois que se descobriu no olhar de Israel, ri sozinha e chora à toa. Parou de reclamar da vida e as aulas viraram uma cantoria. A redenção de Israel foi a revolução da professora.

 

Em 7 de Setembro, Israel desfilou. Pintado de verde-amarelo, aplaudido de pé pela Vila Pedra.

 

[18 de setembro de 1999]

 

(Adaptado de: BRUM, Eliane. A vida que ninguém vê. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2006. p. 20-25)

E, ao perceberem, Israel estava no interior da escola. (11º parágrafo)

 

Em relação à função que cumpre no período, a oração sublinhada

  1. Aintroduz uma justificativa.
  2. Brevela um atributo de Israel.
  3. Ccompleta o nome "interior".
  4. Dindica o momento em que a ação principal ocorreu.
  5. Eimpõe uma condição para Israel estar na escola.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — indica o momento em que a ação principal ocorreu.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Orações subordinadas adverbiais temporais: o valor de "quando" no texto

Gabarito: letra D. A oração sublinhada "ao perceberem" é uma oração subordinada adverbial temporal reduzida de infinitivo, pois indica o momento em que a ação principal ocorreu — exatamente o que a alternativa D afirma. A pista está na própria estrutura: "ao + infinitivo" é uma forma clássica de expressar tempo (equivale a "quando perceberam"), e o texto confirma essa leitura ao narrar a sequência: "E, ao perceberem, Israel estava no interior da escola." — ou seja, no momento em que perceberam, Israel já estava lá.

O comando: o que a questão pede

O enunciado pergunta "Em relação à função que cumpre no período, a oração sublinhada" — ou seja, quer que você identifique a função sintático-semântica da oração "ao perceberem" dentro do período. Isso é uma questão de análise sintática de período composto, especificamente sobre orações subordinadas adverbiais. Não se trata de interpretação de texto, mas de gramática aplicada ao texto: você precisa reconhecer o valor circunstancial que a oração acrescenta à ação principal.

O texto: onde mora a resposta

No 11º parágrafo, lemos:

"E, ao perceberem, Israel estava no interior da escola."

A oração principal é "Israel estava no interior da escola". A oração "ao perceberem" está deslocada (anteposta à principal), separada por vírgula, e funciona como um adjunto adverbial de tempo: ela situa quando a ação de "estar no interior da escola" ocorreu. O sujeito de "perceberem" é indeterminado (eles — as pessoas da escola), mas isso não muda a função: a oração modifica o verbo da principal, acrescentando uma circunstância de tempo.

A técnica: como reconhecer uma oração subordinada adverbial temporal

As orações subordinadas adverbiais exercem a função de adjunto adverbial em relação à oração principal. Elas são introduzidas por conjunções subordinativas que expressam circunstâncias como tempo, causa, condição, concessão, finalidade, etc.

No caso da temporal, as conjunções típicas são: quando, enquanto, logo que, assim que, antes que, depois que, sempre que. A forma "ao + infinitivo" é uma redução da oração temporal: equivale a "quando + verbo no pretérito". Exemplo:

  • "Ao chegar, avise-me." = "Quando chegar, avise-me."

  • "Ao perceberem, Israel estava lá." = "Quando perceberam, Israel estava lá."

Essa equivalência é a prova de que a oração é temporal: ela responde à pergunta "quando?" — "Quando Israel estava no interior da escola?" → "Quando perceberam".

A pegadinha da banca

A banca (FCC) adora explorar a confusão entre oração temporal e outras funções. Aqui, as distratoras tentam fazer você acreditar que a oração poderia ser causal (A), adjetiva (B), complemento nominal (C) ou condicional (E). Mas nenhuma dessas leituras se sustenta: a oração não expressa causa (não diz por que Israel estava lá), não caracteriza Israel, não completa o nome "interior" e não impõe uma condição (não diz se perceberem, Israel estará lá). A única leitura coerente é a de tempo: a oração situa o momento da ação.

Análise das alternativas

Alternativa

Classificação da oração "ao perceberem"

Justificativa

A

❌ Incorreta

Não expressa causa (justificativa), pois não responde a "por quê?".

B

❌ Incorreta

Não revela atributo de Israel; refere-se à ação de terceiros.

C

❌ Incorreta

Não completa o nome "interior"; liga-se ao verbo "estava".

D

✅ Correta

É oração subordinada adverbial temporal (equivale a "quando perceberam").

E

❌ Incorreta

Não impõe condição; o fato é real e já ocorrido, não hipotético.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Introduz uma justificativa. A oração "ao perceberem" não expressa causa (motivo). Se fosse causal, teríamos algo como "porque perceberam, Israel estava lá" — o que mudaria o sentido: a percepção seria a razão da presença, não o momento. No texto, a percepção é apenas o marco temporal: "quando perceberam". A alternativa confunde tempo com causa — erro clássico.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Revela um atributo de Israel. A oração não caracteriza Israel (não diz como ele é). Ela se refere à ação de perceber (de terceiros), não a uma qualidade do personagem. A alternativa tangencia o texto: fala de algo que o texto aborda (Israel), mas atribui à oração uma função que ela não tem.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Completa o nome "interior". A oração não é complemento nominal do substantivo "interior". Complemento nominal é um termo que completa o sentido de um nome (ex.: "interior da escola" — isso sim é complemento nominal). A oração "ao perceberem" não se liga a "interior", mas ao verbo "estava", funcionando como adjunto adverbial. A alternativa confunde função sintática: trata uma oração adverbial como se fosse um termo integrante.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Indica o momento em que a ação principal ocorreu. Exatamente. A oração "ao perceberem" é uma oração subordinada adverbial temporal reduzida de infinitivo, equivalente a "quando perceberam". Ela responde à pergunta "quando?" em relação à ação de "estar no interior da escola". O texto confirma: a percepção é o marco temporal da presença de Israel na escola.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Impõe uma condição para Israel estar na escola. A oração não expressa condição (não diz "se perceberem, Israel estará"). Condicional seria introduzida por "se", "caso", "desde que" — e o sentido seria hipotético. Aqui, o fato é real e já ocorrido: "ao perceberem" = "quando perceberam". A alternativa confunde tempo com condição — outra pegadinha comum.

Conclusão

A questão testa sua capacidade de reconhecer o valor semântico de uma oração subordinada adverbial. A forma "ao + infinitivo" é uma marca inequívoca de tempo — basta substituir por "quando + verbo" para confirmar. As distratoras tentam desviar para causa, condição, atributo ou complemento, mas nenhuma se sustenta diante do texto.

PEGA ESSA DICA!

Ao encontrar "ao + infinitivo" em um período, pergunte: "quando?" Se a resposta fizer sentido, é oração subordinada adverbial temporal. Essa é a técnica mais rápida para esse tipo de questão.

Gabarito: letra D

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