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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140752
Banca
FCC
Órgão
ALERR
Ano
2026
Cargo
Tec Leg Esp ( )

Atenção: Considere o conto “Sua excelência”, de Lima Barreto, para responder à questão.

 

O ministro saiu do baile da embaixada, embarcando logo no carro. Ansiava estar só, só com o seu pensamento, pesando bem as palavras que proferira, relembrando as atitudes e os pasmos olhares dos circunstantes. Por isso entrara no coupé¹ depressa, sôfrego, sem mesmo reparar se, de fato, era o seu. Vinha cegamente, tangido por sentimentos complexos: orgulho, força, valor, vaidade. Todo ele era um poço de certeza. As obscuras determinações das coisas, acertadamente, haviam-no erguido até ali, e mais alto levá-lo-iam, visto que só e unicamente ele seria capaz de fazer o país chegar aos destinos que os antecedentes dele impunham... Lembrou-se do seu discurso de ainda agora. “Na vida das sociedades, como na dos indivíduos...” Que maravilha! Tinha algo de filosófico, de transcendente. O olhar brilhante e cheio de admiração do líder da oposição foi o mais seguro penhor do efeito da frase... E quando terminou! Oh! “Senhor, o nosso tempo é de grandes reformas; estejamos com ele: reformemos!” A cerimônia mal conteve, nos circunstantes, o entusiasmo com que esse final foi recebido. O auditório delirou. As palmas estrugiram; e, dentro do grande salão iluminado, pareceu-lhe que recebia as palmas da Terra toda.

 

O carro continuava a voar. As luzes da rua extensa apareciam como um só traço de fogo; depois, sumiram-se. O veículo agora corria vertiginosamente dentro de uma névoa fosforescente. Era em vão que seus augustos olhos se abriam desmedidamente; não havia contornos, formas, onde eles pousassem. Consultou o relógio. Estava parado? Não; mas marcava a mesma hora e o mesmo minuto da saída da festa. Perguntou ao cocheiro: “Aonde vamos?” Quis arriar as vidraças. Não pôde; queimavam. Redobrou os esforços, conseguindo arriar as da frente. Gritou ao cocheiro: “Aonde vamos? Miserável, aonde me levas?” Apesar de ter o carro algumas vidraças arriadas, no seu interior fazia um calor de forja. Quando lhe veio esta imagem, apalpou bem, no peito, as grã-cruzes² magníficas. Graças a Deus, ainda não se haviam derretido. Gritou ainda uma vez ao cocheiro: “Para, para, senão me pagarás caro!”

 

Não era o mesmo cocheiro. Aquele homem de nariz adunco, queixo longo com uma barbicha, não era, de fato, o seu fiel Manuel. O calor aumentava. Pelos cantos o carro chispava. Não podendo suportar o calor, despiu-se. Saltaria do carro, se pudesse. Sufocado, estonteado, parecia-lhe que continuava com vida, mas que suas pernas e seus braços, seu tronco e sua cabeça dançavam, separados. Desmaiou; e, ao recuperar os sentidos, viu-se vestido com uma reles libre³ e uma grotesca cartola, cochilando à porta do palácio em que estivera ainda há pouco e de onde saíra triunfalmente, não havia minutos. Nas proximidades um coupé estacionava. Quis verificar bem as coisas circunstantes; mas não houve tempo. Pelas escadas de mármore, gravemente, solenemente, um homem (pareceu-lhe isso) descia os degraus envolvido no fardão que despira, tendo no peito as mesmas magníficas grã-cruzes. Logo que o personagem pisou na soleira, de um só ímpeto aproximou-se e, abjetamente, como se até ali não tivesse feito outra coisa, indagou: “Vossa Excelência quer o carro?”

 

BARRETO, Lima. Histórias e sonhos. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008, p. 33-36.

Depreende-se do conto que o trecho “Senhor, o nosso tempo é de grandes reformas; estejamos com ele: reformemos!” constitui

  1. Ao final do discurso proferido pelo líder da oposição.
  2. Buma réplica do ministro ao discurso do líder da oposição.
  3. Cum comentário irônico do narrador sobre o discurso do ministro.
  4. Duma réplica do líder da oposição ao discurso do ministro.
  5. Eo final do discurso proferido pelo ministro.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — o final do discurso proferido pelo ministro.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Discurso direto: a quem pertence a fala do ministro

Gabarito: letra E. O trecho “Senhor, o nosso tempo é de grandes reformas; estejamos com ele: reformemos!” é o final do discurso proferido pelo ministro, como se prova pela sequência narrativa do 1º parágrafo: o narrador apresenta o ministro lembrando-se do próprio discurso e, em seguida, transcreve a frase como parte dele. A alternativa correta é a única que identifica corretamente o locutor da fala.

O comando pede que se depreenda do conto — ou seja, exige uma inferência ancorada em pistas textuais, não uma informação solta. A pista decisiva está na estrutura do 1º parágrafo: o narrador diz que o ministro “Lembrou-se do seu discurso de ainda agora” e, logo após os dois-pontos, insere a fala entre aspas. A sequência “Lembrou-se do seu discurso... “Na vida das sociedades, como na dos indivíduos...” Que maravilha! ... E quando terminou! Oh! “Senhor, o nosso tempo é de grandes reformas; estejamos com ele: reformemos!”” deixa claro que toda a citação pertence ao discurso do ministro, e a última frase é o fecho dele.

A técnica para resolver: identifique o locutor de cada fala. No conto, há três vozes — o narrador, o ministro e o líder da oposição (que apenas aparece como ouvinte, com “olhar brilhante e cheio de admiração”). O trecho citado está dentro do fluxo de pensamento do ministro, marcado pelo verbo “Lembrou-se” e pela exclamação “Que maravilha!”, que expressa a autoavaliação do próprio ministro. O líder da oposição não fala em nenhum momento; ele apenas reage com admiração. Portanto, a fala só pode ser do ministro.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o locutor de um discurso direto, procure o verbo de elocução (disse, perguntou, lembrou-se) e o contexto imediato. Aqui, o verbo “Lembrou-se” e a exclamação “Que maravilha!” indicam que a fala é uma recordação do próprio ministro.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o trecho é o final do discurso do líder da oposição. O texto, porém, mostra o líder da oposição apenas como ouvinte: “O olhar brilhante e cheio de admiração do líder da oposição foi o mais seguro penhor do efeito da frase”. Ele não profere discurso algum. A alternativa inverte os papéis — erro de troca de locutor.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa diz que o trecho é uma réplica do ministro ao discurso do líder da oposição. Não há réplica: o líder da oposição não discursa, e o ministro está apenas relembrando o próprio discurso. A alternativa inventa uma situação que não existe no texto — erro de extrapolação.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o trecho é um comentário irônico do narrador. O narrador não comenta ironicamente; ele apenas transcreve a fala do ministro dentro do fluxo de pensamento dele. A ironia não está presente — a fala é levada a sério pelo ministro, que a considera “maravilhosa”. A alternativa atribui ao narrador uma intenção que o texto não sustenta — erro de opinião embutida.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa diz que o trecho é uma réplica do líder da oposição ao discurso do ministro. O líder da oposição não fala em momento algum; ele apenas reage com admiração. A alternativa inverte os papéis — erro de troca de locutor.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa identifica corretamente o trecho como o final do discurso proferido pelo ministro. O texto prova: “Lembrou-se do seu discurso de ainda agora... E quando terminou! Oh! “Senhor, o nosso tempo é de grandes reformas; estejamos com ele: reformemos!””. A fala está dentro do discurso do ministro, e a exclamação “E quando terminou!” marca o fecho. A alternativa é a única inteiramente sustentada pelo texto.

Conclusão: a questão testa a habilidade de identificar o locutor de um discurso direto. A pista está no verbo “Lembrou-se” e na reação do líder da oposição, que é apenas ouvinte. As alternativas incorretas ou invertem os papéis ou acrescentam intenções que o texto não autoriza. Gabarito: letra E.

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