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Questão de Português — Denotação e Conotação — FCC 2026

PortuguêsDenotação e Conotação
Código
fc140754
Banca
FCC
Órgão
ALERR
Ano
2026
Cargo
Tec Leg Esp ( )

Atenção: Considere o conto “Sua excelência”, de Lima Barreto, para responder à questão.

 

O ministro saiu do baile da embaixada, embarcando logo no carro. Ansiava estar só, só com o seu pensamento, pesando bem as palavras que proferira, relembrando as atitudes e os pasmos olhares dos circunstantes. Por isso entrara no coupé¹ depressa, sôfrego, sem mesmo reparar se, de fato, era o seu. Vinha cegamente, tangido por sentimentos complexos: orgulho, força, valor, vaidade. Todo ele era um poço de certeza. As obscuras determinações das coisas, acertadamente, haviam-no erguido até ali, e mais alto levá-lo-iam, visto que só e unicamente ele seria capaz de fazer o país chegar aos destinos que os antecedentes dele impunham... Lembrou-se do seu discurso de ainda agora. “Na vida das sociedades, como na dos indivíduos...” Que maravilha! Tinha algo de filosófico, de transcendente. O olhar brilhante e cheio de admiração do líder da oposição foi o mais seguro penhor do efeito da frase... E quando terminou! Oh! “Senhor, o nosso tempo é de grandes reformas; estejamos com ele: reformemos!” A cerimônia mal conteve, nos circunstantes, o entusiasmo com que esse final foi recebido. O auditório delirou. As palmas estrugiram; e, dentro do grande salão iluminado, pareceu-lhe que recebia as palmas da Terra toda.

 

O carro continuava a voar. As luzes da rua extensa apareciam como um só traço de fogo; depois, sumiram-se. O veículo agora corria vertiginosamente dentro de uma névoa fosforescente. Era em vão que seus augustos olhos se abriam desmedidamente; não havia contornos, formas, onde eles pousassem. Consultou o relógio. Estava parado? Não; mas marcava a mesma hora e o mesmo minuto da saída da festa. Perguntou ao cocheiro: “Aonde vamos?” Quis arriar as vidraças. Não pôde; queimavam. Redobrou os esforços, conseguindo arriar as da frente. Gritou ao cocheiro: “Aonde vamos? Miserável, aonde me levas?” Apesar de ter o carro algumas vidraças arriadas, no seu interior fazia um calor de forja. Quando lhe veio esta imagem, apalpou bem, no peito, as grã-cruzes² magníficas. Graças a Deus, ainda não se haviam derretido. Gritou ainda uma vez ao cocheiro: “Para, para, senão me pagarás caro!”

 

Não era o mesmo cocheiro. Aquele homem de nariz adunco, queixo longo com uma barbicha, não era, de fato, o seu fiel Manuel. O calor aumentava. Pelos cantos o carro chispava. Não podendo suportar o calor, despiu-se. Saltaria do carro, se pudesse. Sufocado, estonteado, parecia-lhe que continuava com vida, mas que suas pernas e seus braços, seu tronco e sua cabeça dançavam, separados. Desmaiou; e, ao recuperar os sentidos, viu-se vestido com uma reles libre³ e uma grotesca cartola, cochilando à porta do palácio em que estivera ainda há pouco e de onde saíra triunfalmente, não havia minutos. Nas proximidades um coupé estacionava. Quis verificar bem as coisas circunstantes; mas não houve tempo. Pelas escadas de mármore, gravemente, solenemente, um homem (pareceu-lhe isso) descia os degraus envolvido no fardão que despira, tendo no peito as mesmas magníficas grã-cruzes. Logo que o personagem pisou na soleira, de um só ímpeto aproximou-se e, abjetamente, como se até ali não tivesse feito outra coisa, indagou: “Vossa Excelência quer o carro?”

 

BARRETO, Lima. Histórias e sonhos. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008, p. 33-36.

Verifica-se uma expressão empregada em sentido conotativo no seguinte trecho:
  1. ANas proximidades um coupé estacionava.
  2. BLembrou-se do seu discurso de ainda agora.
  3. CConsultou o relógio.
  4. DTodo ele era um poço de certeza.
  5. EQuis verificar bem as coisas circundantes.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Todo ele era um poço de certeza.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Denotação e conotação: o sentido figurado em Lima Barreto

Gabarito: letra D. A expressão "Todo ele era um poço de certeza" é a única empregada em sentido conotativo (figurado), pois o ministro não é literalmente um poço — a metáfora transmite a ideia de que ele estava repleto de certeza, como um poço cheio de água. As demais alternativas apresentam sentido denotativo (literal), em que as palavras são usadas em seu significado dicionarizado.

O comando da questão

O enunciado pede que você identifique a alternativa em que há expressão empregada em sentido conotativo. Isso significa que você deve reconhecer o uso figurado da linguagem, ou seja, quando uma palavra ou expressão adquire um significado que vai além do literal, dependendo do contexto. É o oposto da denotação, que é o sentido próprio, objetivo, de dicionário.

O texto e a pista decisiva

No conto "Sua Excelência", de Lima Barreto, o narrador descreve o ministro em um momento de euforia e autoconfiança. A passagem-chave é:

"Todo ele era um poço de certeza."

Aqui, "poço" não designa um buraco no chão; é uma metáfora que compara o ministro a um poço cheio de água, sugerindo que ele estava transbordando de certeza, convicto de seu valor e de seu destino. Essa é a essência da conotação: o sentido figurado, criativo, que depende do contexto.

A técnica para resolver

Para distinguir denotação de conotação, pergunte: a palavra pode ser interpretada literalmente? Se sim, é denotação; se não, é conotação. No caso de "poço de certeza", a resposta é não — ninguém é literalmente um poço. A metáfora é o recurso mais comum de conotação, e a banca adora usá-la.

Análise das alternativas

Sentido das palavras
  • 1Denotativo (literal)
    • Dicionário
    • Objetivo
    • Ex.: "Consultou o relógio"
  • 2Conotativo (figurado)
    • Metáfora
    • Depende do contexto
    • Ex.: "Poço de certeza"
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"Nas proximidades um coupé estacionava."

Aqui, "coupé" é um tipo de carruagem, e "estacionava" indica a ação de parar. Tudo é literal: o carro está parando nas proximidades. Não há nenhum desvio de sentido. Erro: sentido denotativo, não conotativo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Lembrou-se do seu discurso de ainda agora."

"Lembrou-se" e "discurso" são usados em seu sentido próprio. O ministro realmente recorda o discurso que acabou de proferir. Não há figura de linguagem. Erro: sentido denotativo.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Consultou o relógio."

A ação de consultar o relógio é literal: ele olha as horas. Não há metáfora nem sentido figurado. Erro: sentido denotativo.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Todo ele era um poço de certeza."

A expressão "poço de certeza" é uma metáfora: o ministro não é um poço, mas está cheio de certeza, como um poço cheio de água. O sentido é conotativo, pois depende do contexto para ser compreendido. É a única alternativa com linguagem figurada.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Quis verificar bem as coisas circundantes."

"Verificar" e "coisas circundantes" são usados literalmente: ele quer examinar o que está ao redor. Não há desvio de sentido. Erro: sentido denotativo.

Conclusão

A questão testa a habilidade de reconhecer a conotação, que é o sentido figurado, criativo, dependente do contexto. A única alternativa com esse recurso é a D, que usa a metáfora "poço de certeza". As demais são denotativas, ou seja, literais.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre sentido literal e figurado, oferecendo frases com sentido denotativo como distratores. A correta é a única com metáfora.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar conotação, procure por metáforas, comparações implícitas ou expressões que não podem ser interpretadas ao pé da letra. Se a frase fizer sentido literalmente, é denotação.

Gabarito: letra D

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