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Questão de Português — Orações Subordinadas Adverbiais — FCC 2026

PortuguêsOrações Subordinadas Adverbiais
Código
fc140758
Banca
FCC
Órgão
ALERR
Ano
2026
Cargo
Tec Leg Esp ( )

Atenção: Considere o conto “Sua excelência”, de Lima Barreto, para responder à questão.

 

O ministro saiu do baile da embaixada, embarcando logo no carro. Ansiava estar só, só com o seu pensamento, pesando bem as palavras que proferira, relembrando as atitudes e os pasmos olhares dos circunstantes. Por isso entrara no coupé¹ depressa, sôfrego, sem mesmo reparar se, de fato, era o seu. Vinha cegamente, tangido por sentimentos complexos: orgulho, força, valor, vaidade. Todo ele era um poço de certeza. As obscuras determinações das coisas, acertadamente, haviam-no erguido até ali, e mais alto levá-lo-iam, visto que só e unicamente ele seria capaz de fazer o país chegar aos destinos que os antecedentes dele impunham... Lembrou-se do seu discurso de ainda agora. “Na vida das sociedades, como na dos indivíduos...” Que maravilha! Tinha algo de filosófico, de transcendente. O olhar brilhante e cheio de admiração do líder da oposição foi o mais seguro penhor do efeito da frase... E quando terminou! Oh! “Senhor, o nosso tempo é de grandes reformas; estejamos com ele: reformemos!” A cerimônia mal conteve, nos circunstantes, o entusiasmo com que esse final foi recebido. O auditório delirou. As palmas estrugiram; e, dentro do grande salão iluminado, pareceu-lhe que recebia as palmas da Terra toda.

 

O carro continuava a voar. As luzes da rua extensa apareciam como um só traço de fogo; depois, sumiram-se. O veículo agora corria vertiginosamente dentro de uma névoa fosforescente. Era em vão que seus augustos olhos se abriam desmedidamente; não havia contornos, formas, onde eles pousassem. Consultou o relógio. Estava parado? Não; mas marcava a mesma hora e o mesmo minuto da saída da festa. Perguntou ao cocheiro: “Aonde vamos?” Quis arriar as vidraças. Não pôde; queimavam. Redobrou os esforços, conseguindo arriar as da frente. Gritou ao cocheiro: “Aonde vamos? Miserável, aonde me levas?” Apesar de ter o carro algumas vidraças arriadas, no seu interior fazia um calor de forja. Quando lhe veio esta imagem, apalpou bem, no peito, as grã-cruzes² magníficas. Graças a Deus, ainda não se haviam derretido. Gritou ainda uma vez ao cocheiro: “Para, para, senão me pagarás caro!”

 

Não era o mesmo cocheiro. Aquele homem de nariz adunco, queixo longo com uma barbicha, não era, de fato, o seu fiel Manuel. O calor aumentava. Pelos cantos o carro chispava. Não podendo suportar o calor, despiu-se. Saltaria do carro, se pudesse. Sufocado, estonteado, parecia-lhe que continuava com vida, mas que suas pernas e seus braços, seu tronco e sua cabeça dançavam, separados. Desmaiou; e, ao recuperar os sentidos, viu-se vestido com uma reles libre³ e uma grotesca cartola, cochilando à porta do palácio em que estivera ainda há pouco e de onde saíra triunfalmente, não havia minutos. Nas proximidades um coupé estacionava. Quis verificar bem as coisas circunstantes; mas não houve tempo. Pelas escadas de mármore, gravemente, solenemente, um homem (pareceu-lhe isso) descia os degraus envolvido no fardão que despira, tendo no peito as mesmas magníficas grã-cruzes. Logo que o personagem pisou na soleira, de um só ímpeto aproximou-se e, abjetamente, como se até ali não tivesse feito outra coisa, indagou: “Vossa Excelência quer o carro?”

 

BARRETO, Lima. Histórias e sonhos. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008, p. 33-36.

ao recuperar os sentidos, viu-se vestido com uma reles libré e uma grotesca cartola. (3º parágrafo)

 

Em relação à oração que a sucede, a oração sublinhada acima expressa ideia de

  1. Aconclusão.
  2. Btempo.
  3. Cfinalidade.
  4. Dconcessão.
  5. Econsequência.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — tempo.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Orações subordinadas adverbiais: o valor temporal de "ao recuperar os sentidos"

Gabarito: letra B. A oração sublinhada "ao recuperar os sentidos" expressa ideia de tempo, pois indica o momento em que ocorre a ação da oração principal "viu-se vestido com uma reles libré e uma grotesca cartola". A locução "ao + infinitivo" é uma forma reduzida de oração subordinada adverbial temporal, equivalente a "quando recuperou os sentidos". No texto, o trecho "Desmaiou; e, ao recuperar os sentidos, viu-se vestido..." confirma que a ação de ver-se vestido acontece no instante em que ele recobra a consciência.

O comando da questão

O enunciado pede que se identifique a circunstância expressa pela oração sublinhada em relação à oração que a sucede. Isso é uma questão de classificação de oração subordinada adverbial, ou seja, exige reconhecer o valor semântico (tempo, causa, finalidade, concessão, consequência) que a oração acrescenta à principal. Não se trata de interpretação de texto, mas de análise sintática com foco no sentido — a resposta está na relação lógica entre as orações, não em deduções sobre o enredo.

O texto e a oração em análise

No conto de Lima Barreto, o ministro, após desmaiar dentro do carro em chamas, recupera os sentidos e se vê transformado em um simples criado. A oração sublinhada é:

"ao recuperar os sentidos, viu-se vestido com uma reles libré e uma grotesca cartola"

A oração "ao recuperar os sentidos" é uma oração subordinada adverbial temporal reduzida de infinitivo, introduzida pela preposição "a" + artigo "o" + verbo no infinitivo. Essa construção equivale a "quando recuperou os sentidos" ou "no momento em que recuperou os sentidos". Ela estabelece uma circunstância de tempo para a ação principal: foi quando ele recobrou a consciência que ele se viu naquela situação degradante.

A técnica para identificar a oração temporal

A chave para reconhecer uma oração subordinada adverbial temporal é perguntar: quando? A oração que responde a essa pergunta, indicando o momento da ação principal, é temporal. Veja o teste:

  • "Quando ele recuperou os sentidos, viu-se vestido..." → a resposta é "quando recuperou os sentidos", logo, é uma oração temporal.

As orações temporais podem ser:

  • Desenvolvidas: introduzidas por conjunções como "quando", "enquanto", "logo que", "assim que", "antes que", "depois que".

  • Reduzidas de infinitivo: com a estrutura "ao + infinitivo" (como no texto), "antes de + infinitivo", "depois de + infinitivo".

  • Reduzidas de gerúndio: "chegando em casa, liguei para ela".

  • Reduzidas de particípio: "terminada a prova, saí da sala".

No caso, "ao recuperar os sentidos" é uma forma reduzida que mantém o valor temporal, podendo ser reescrita sem alteração de sentido como "quando recuperou os sentidos".

Análise das alternativas

  1. 1Pergunte: quando?
  2. 2Resposta = tempo
  3. 3Reescreva: quando + verbo
  4. 4Confirme o valor
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Alternativa A — ❌ Incorreta

A oração não expressa conclusão. Conclusão é a ideia de um resultado lógico extraído de uma premissa, introduzida por conectivos como "portanto", "logo", "por isso". No trecho, não há relação de conclusão entre "recuperar os sentidos" e "ver-se vestido"; há uma relação de simultaneidade temporal. A alternativa confunde a sequência narrativa (primeiro recupera, depois vê) com uma relação lógica de conclusão, o que é um erro de classificação.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A oração "ao recuperar os sentidos" expressa tempo. A locução "ao + infinitivo" é uma forma clássica de oração subordinada adverbial temporal reduzida, equivalente a "quando recuperou os sentidos". No texto, o trecho "Desmaiou; e, ao recuperar os sentidos, viu-se vestido..." mostra que a ação de ver-se vestido ocorre no momento em que ele recobra a consciência. A pergunta "quando?" é respondida pela oração sublinhada, confirmando o valor temporal.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A oração não expressa finalidade. Finalidade é o propósito, a intenção com que se pratica uma ação, introduzida por "para", "a fim de", "para que". No trecho, "recuperar os sentidos" não é o objetivo de "ver-se vestido"; é uma circunstância que acompanha a ação. A alternativa confunde a ideia de "ao" (tempo) com "para" (finalidade), que são conectivos com valores distintos.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A oração não expressa concessão. Concessão é a ideia de um fato que se admite, mas que não impede a realização da ação principal, introduzida por "embora", "ainda que", "mesmo que", "apesar de". No trecho, não há oposição ou ressalva entre "recuperar os sentidos" e "ver-se vestido"; há uma relação de tempo. A alternativa atribui à oração um valor de contraste que não existe no texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A oração não expressa consequência. Consequência é o efeito de uma causa, introduzida por "de modo que", "de forma que", "tão... que", "tanto... que". No trecho, "ver-se vestido" não é uma consequência de "recuperar os sentidos"; é um evento que ocorre quando ele recupera os sentidos. A alternativa inverte a relação: a oração sublinhada não é o efeito, mas a circunstância temporal da ação principal.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre a forma reduzida "ao + infinitivo" (que tem valor temporal) e outras relações adverbiais. O candidato que não conhece essa construção pode achar que se trata de causa ou consequência, mas a pergunta "quando?" resolve a questão.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar orações adverbiais, faça a pergunta certa: tempo (quando?), causa (por quê?), finalidade (para quê?), concessão (apesar de quê?), consequência (o que resultou?). A oração que responde à pergunta é a que tem aquele valor.

Gabarito: letra B.

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