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Questão de Português — Orações Subordinadas Adverbiais — FCC 2026

PortuguêsOrações Subordinadas Adverbiais
Código
fc140759
Banca
FCC
Órgão
ALERR
Ano
2026
Cargo
Tec Leg Esp ( )

Atenção: Considere o conto “Sua excelência”, de Lima Barreto, para responder à questão.

 

O ministro saiu do baile da embaixada, embarcando logo no carro. Ansiava estar só, só com o seu pensamento, pesando bem as palavras que proferira, relembrando as atitudes e os pasmos olhares dos circunstantes. Por isso entrara no coupé¹ depressa, sôfrego, sem mesmo reparar se, de fato, era o seu. Vinha cegamente, tangido por sentimentos complexos: orgulho, força, valor, vaidade. Todo ele era um poço de certeza. As obscuras determinações das coisas, acertadamente, haviam-no erguido até ali, e mais alto levá-lo-iam, visto que só e unicamente ele seria capaz de fazer o país chegar aos destinos que os antecedentes dele impunham... Lembrou-se do seu discurso de ainda agora. “Na vida das sociedades, como na dos indivíduos...” Que maravilha! Tinha algo de filosófico, de transcendente. O olhar brilhante e cheio de admiração do líder da oposição foi o mais seguro penhor do efeito da frase... E quando terminou! Oh! “Senhor, o nosso tempo é de grandes reformas; estejamos com ele: reformemos!” A cerimônia mal conteve, nos circunstantes, o entusiasmo com que esse final foi recebido. O auditório delirou. As palmas estrugiram; e, dentro do grande salão iluminado, pareceu-lhe que recebia as palmas da Terra toda.

 

O carro continuava a voar. As luzes da rua extensa apareciam como um só traço de fogo; depois, sumiram-se. O veículo agora corria vertiginosamente dentro de uma névoa fosforescente. Era em vão que seus augustos olhos se abriam desmedidamente; não havia contornos, formas, onde eles pousassem. Consultou o relógio. Estava parado? Não; mas marcava a mesma hora e o mesmo minuto da saída da festa. Perguntou ao cocheiro: “Aonde vamos?” Quis arriar as vidraças. Não pôde; queimavam. Redobrou os esforços, conseguindo arriar as da frente. Gritou ao cocheiro: “Aonde vamos? Miserável, aonde me levas?” Apesar de ter o carro algumas vidraças arriadas, no seu interior fazia um calor de forja. Quando lhe veio esta imagem, apalpou bem, no peito, as grã-cruzes² magníficas. Graças a Deus, ainda não se haviam derretido. Gritou ainda uma vez ao cocheiro: “Para, para, senão me pagarás caro!”

 

Não era o mesmo cocheiro. Aquele homem de nariz adunco, queixo longo com uma barbicha, não era, de fato, o seu fiel Manuel. O calor aumentava. Pelos cantos o carro chispava. Não podendo suportar o calor, despiu-se. Saltaria do carro, se pudesse. Sufocado, estonteado, parecia-lhe que continuava com vida, mas que suas pernas e seus braços, seu tronco e sua cabeça dançavam, separados. Desmaiou; e, ao recuperar os sentidos, viu-se vestido com uma reles libre³ e uma grotesca cartola, cochilando à porta do palácio em que estivera ainda há pouco e de onde saíra triunfalmente, não havia minutos. Nas proximidades um coupé estacionava. Quis verificar bem as coisas circunstantes; mas não houve tempo. Pelas escadas de mármore, gravemente, solenemente, um homem (pareceu-lhe isso) descia os degraus envolvido no fardão que despira, tendo no peito as mesmas magníficas grã-cruzes. Logo que o personagem pisou na soleira, de um só ímpeto aproximou-se e, abjetamente, como se até ali não tivesse feito outra coisa, indagou: “Vossa Excelência quer o carro?”

 

BARRETO, Lima. Histórias e sonhos. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008, p. 33-36.

As obscuras determinações das coisas, acertadamente, haviam-no erguido até ali, e mais alto levá-lo-iam, visto que só e unicamente ele seria capaz de fazer o país chegar aos destinos que os antecedentes dele impunham... (1º parágrafo)

 

A locução conjuntiva sublinhada acima pode ser substituída, sem prejuízo para o sentido do texto, por:

  1. Aportanto
  2. Bembora
  3. Cmas
  4. Dpois
  5. Econtudo
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — pois

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Locução conjuntiva "visto que": valor causal e substituição

Gabarito: letra D. A locução "visto que" é uma conjunção subordinativa causal — introduz a causa do que se afirma na oração principal. No trecho, "mais alto levá-lo-iam, visto que só e unicamente ele seria capaz de fazer o país chegar aos destinos...", a oração sublinhada explica por que ele subiria mais alto: porque só ele seria capaz. A única alternativa que preserva esse valor é "pois", que também pode ser causal (equivalente a "porque"). As demais (portanto, embora, mas, contudo) expressam, respectivamente, conclusão, concessão e oposição — sentidos incompatíveis com o original.

O comando: substituição sem prejuízo de sentido

A questão pede que você troque a locução conjuntiva por outra que mantenha o sentido do trecho. Isso não é uma questão de "achar a mais bonita" — é uma questão de semântica dos conectivos: você precisa identificar a relação lógica que a conjunção estabelece entre as orações e escolher, entre as opções, aquela que expressa a mesma relação. O comando "sem prejuízo para o sentido" é o aviso clássico: a banca quer que você reconheça o valor semântico do conectivo, não que decore listas.

O texto: a certeza do ministro e a causa da ascensão

No 1º parágrafo, o narrador descreve a autoconfiança absoluta do ministro: "Todo ele era um poço de certeza". Ele acredita que as "obscuras determinações das coisas" o ergueram até ali e que subiriam mais alto — e a razão dessa crença é apresentada logo em seguida: "visto que só e unicamente ele seria capaz de fazer o país chegar aos destinos que os antecedentes dele impunham". A locução "visto que" liga a consequência (subir mais alto) à sua causa (a capacidade única do ministro). É exatamente essa relação de causa que a alternativa correta precisa manter.

A técnica: reconhecer o valor semântico do conectivo

As conjunções subordinativas adverbiais causais introduzem a causa, o motivo, a razão do que se declara na oração principal. São elas: porque, que, como, pois que, uma vez que, na medida em que, já que, visto que, em virtude de, por, porquanto. A locução "visto que" é causal — equivale a "já que", "uma vez que", "porque". A alternativa D (pois) é a única que pode assumir esse valor: "pois" é explicativa quando inicia a oração (justifica a anterior), mas também é causal quando equivale a "porque". No trecho, "pois" substitui "visto que" sem alterar o sentido: "mais alto levá-lo-iam, pois só e unicamente ele seria capaz...".

As demais alternativas expressam relações diferentes:

  • portanto (A): conclusiva — indica conclusão, consequência lógica do que foi dito antes. Ex.: "Estudou, portanto passou".

  • embora (B): concessiva — indica uma ressalva, um fato que se contrapõe à oração principal sem impedi-la. Ex.: "Embora chova, sairei".

  • mas (C): adversativa — indica oposição, contraste. Ex.: "Queria sair, mas chovia".

  • contudo (E): adversativa — também indica oposição, contraste. Ex.: "Estava cansado, contudo continuou".

Nenhuma dessas relações (conclusão, concessão, oposição) corresponde à relação de causa que "visto que" estabelece no texto.

1Causais
porque, pois, visto que, já que
2Conclusivas
portanto, logo, assim
3Concessivas
embora, ainda que, conquanto
4Adversativas
mas, contudo, porém
Conectivos
LEVELsoulevel.com.br
Conectivos: Causais (porque, pois, visto que, já que); Conclusivas (portanto, logo, assim); Concessivas (embora, ainda que, conquanto); Adversativas (mas, contudo, porém)

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Portanto" é uma conjunção conclusiva: introduz uma conclusão ou consequência do que foi afirmado antes. No trecho, a oração "só e unicamente ele seria capaz..." não é uma conclusão do que veio antes — é a causa que explica por que ele subiria mais alto. Substituir "visto que" por "portanto" inverteria a relação lógica: em vez de causa, teríamos consequência. Erro: troca de relação semântica (causa → conclusão).

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Embora" é uma conjunção concessiva: introduz uma ressalva, um fato que se contrapõe à oração principal sem impedi-la. No trecho, a oração "só e unicamente ele seria capaz..." não se contrapõe à ideia de que ele subiria mais alto — ela a justifica. Substituir "visto que" por "embora" criaria um sentido de oposição inexistente no original. Erro: troca de relação semântica (causa → concessão).

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Mas" é uma conjunção adversativa: indica oposição, contraste entre duas ideias. No trecho, não há oposição entre "subir mais alto" e "ser capaz de fazer o país chegar aos destinos" — há uma relação de causa e consequência. Substituir "visto que" por "mas" quebraria a lógica do período. Erro: troca de relação semântica (causa → oposição).

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Pois" pode ser explicativa (quando inicia a oração, justificando a anterior) ou causal (quando equivale a "porque"). No trecho, "pois" substitui "visto que" mantendo a relação de causa: "mais alto levá-lo-iam, pois só e unicamente ele seria capaz...". A oração continua explicando por que ele subiria mais alto. É a única alternativa que preserva o sentido original.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Contudo" é uma conjunção adversativa: indica oposição, contraste. Assim como "mas", não há oposição no trecho — há uma relação de causa. Substituir "visto que" por "contudo" criaria um sentido de contraste inexistente. Erro: troca de relação semântica (causa → oposição).

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre causa (visto que, porque, pois) e conclusão (portanto, logo). A diferença: na causa, a oração subordinada explica por que algo acontece; na conclusão, a oração coordenada apresenta o resultado do que foi dito. No trecho, "só e unicamente ele seria capaz" é a causa de ele subir mais alto — não a consequência.

PEGA ESSA DICA!

Ao substituir um conectivo, pergunte: "qual relação lógica ele estabelece?" — causa, consequência, oposição, concessão, condição. A alternativa correta é a que mantém a mesma relação, não a que "soa parecida".

Gabarito: letra D — "pois" é a única que preserva o valor causal de "visto que".

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