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Questão de Português — Figuras de Linguagem — FCC 2026

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
fc140760
Banca
FCC
Órgão
ALERR
Ano
2026
Cargo
Tec Leg Esp ( )

Atenção: Considere o conto “Sua excelência”, de Lima Barreto, para responder à questão.

 

O ministro saiu do baile da embaixada, embarcando logo no carro. Ansiava estar só, só com o seu pensamento, pesando bem as palavras que proferira, relembrando as atitudes e os pasmos olhares dos circunstantes. Por isso entrara no coupé¹ depressa, sôfrego, sem mesmo reparar se, de fato, era o seu. Vinha cegamente, tangido por sentimentos complexos: orgulho, força, valor, vaidade. Todo ele era um poço de certeza. As obscuras determinações das coisas, acertadamente, haviam-no erguido até ali, e mais alto levá-lo-iam, visto que só e unicamente ele seria capaz de fazer o país chegar aos destinos que os antecedentes dele impunham... Lembrou-se do seu discurso de ainda agora. “Na vida das sociedades, como na dos indivíduos...” Que maravilha! Tinha algo de filosófico, de transcendente. O olhar brilhante e cheio de admiração do líder da oposição foi o mais seguro penhor do efeito da frase... E quando terminou! Oh! “Senhor, o nosso tempo é de grandes reformas; estejamos com ele: reformemos!” A cerimônia mal conteve, nos circunstantes, o entusiasmo com que esse final foi recebido. O auditório delirou. As palmas estrugiram; e, dentro do grande salão iluminado, pareceu-lhe que recebia as palmas da Terra toda.

 

O carro continuava a voar. As luzes da rua extensa apareciam como um só traço de fogo; depois, sumiram-se. O veículo agora corria vertiginosamente dentro de uma névoa fosforescente. Era em vão que seus augustos olhos se abriam desmedidamente; não havia contornos, formas, onde eles pousassem. Consultou o relógio. Estava parado? Não; mas marcava a mesma hora e o mesmo minuto da saída da festa. Perguntou ao cocheiro: “Aonde vamos?” Quis arriar as vidraças. Não pôde; queimavam. Redobrou os esforços, conseguindo arriar as da frente. Gritou ao cocheiro: “Aonde vamos? Miserável, aonde me levas?” Apesar de ter o carro algumas vidraças arriadas, no seu interior fazia um calor de forja. Quando lhe veio esta imagem, apalpou bem, no peito, as grã-cruzes² magníficas. Graças a Deus, ainda não se haviam derretido. Gritou ainda uma vez ao cocheiro: “Para, para, senão me pagarás caro!”

 

Não era o mesmo cocheiro. Aquele homem de nariz adunco, queixo longo com uma barbicha, não era, de fato, o seu fiel Manuel. O calor aumentava. Pelos cantos o carro chispava. Não podendo suportar o calor, despiu-se. Saltaria do carro, se pudesse. Sufocado, estonteado, parecia-lhe que continuava com vida, mas que suas pernas e seus braços, seu tronco e sua cabeça dançavam, separados. Desmaiou; e, ao recuperar os sentidos, viu-se vestido com uma reles libre³ e uma grotesca cartola, cochilando à porta do palácio em que estivera ainda há pouco e de onde saíra triunfalmente, não havia minutos. Nas proximidades um coupé estacionava. Quis verificar bem as coisas circunstantes; mas não houve tempo. Pelas escadas de mármore, gravemente, solenemente, um homem (pareceu-lhe isso) descia os degraus envolvido no fardão que despira, tendo no peito as mesmas magníficas grã-cruzes. Logo que o personagem pisou na soleira, de um só ímpeto aproximou-se e, abjetamente, como se até ali não tivesse feito outra coisa, indagou: “Vossa Excelência quer o carro?”

 

BARRETO, Lima. Histórias e sonhos. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008, p. 33-36.

Por razões de coesão, omite-se um substantivo anteriormente expresso na própria frase em:
  1. ANa vida das sociedades, como na dos indivíduos...
  2. BTodo ele era um poço de certeza.
  3. CAs luzes da rua extensa apareciam como um só traço de fogo.
  4. DA cerimônia mal conteve, nos circunstantes, o entusiasmo.
  5. EPelos cantos o carro chispava.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — Na vida das sociedades, como na dos indivíduos...

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Coesão por elipse: o substantivo omitido em "Sua excelência"

Gabarito: letra A. A frase "Na vida das sociedades, como na dos indivíduos..." é a única em que, por coesão, omite-se um substantivo já expresso na própria frase: o termo "vida" aparece no primeiro membro e é suprimido no segundo, sendo retomado apenas pelo artigo "a" (na dos indivíduos = na vida dos indivíduos). Trata-se de zeugma, uma modalidade de elipse em que se omite um termo já mencionado, evitando repetição desnecessária.

"Na vida das sociedades, como na dos indivíduos..."

O pronome demonstrativo "a" (combinado com a preposição "em": em + a = na) retoma o substantivo vida, que fica subentendido. Essa é a essência da coesão referencial por elipse: o leitor recupera o termo omitido graças ao contexto imediato.

O comando: o que a banca pede

A questão quer que você identifique o trecho em que um substantivo anteriormente expresso é omitido por razões de coesão. Isso é típico de coesão referencial por elipse/zeugma: em vez de repetir o substantivo, o autor o suprime, e o leitor o recupera pela estrutura paralela da frase. Não se trata de interpretação de sentido, mas de reconhecimento de um mecanismo gramatical de coesão.

A técnica: como reconhecer a elipse

  1. Procure a estrutura paralela: em "Na vida das sociedades, como na dos indivíduos", há dois termos comparados: "vida das sociedades" e "vida dos indivíduos". O segundo "vida" é omitido, mas o artigo "a" (na) sinaliza sua presença implícita.

  2. Verifique se o termo omitido já apareceu: a elipse só ocorre quando o termo suprimido é recuperável pelo contexto — aqui, "vida" está explícito no primeiro membro.

  3. Diferencie de outras figuras: metáfora, comparação e hipérbole são figuras de palavra/pensamento; a elipse é figura de construção (sintaxe).

Análise das alternativas

1O que é
Omissão de termo já expresso
Recuperável pelo contexto
2Como reconhecer
Estrutura paralela
Termo omitido já apareceu
3Exemplo
"Na vida das sociedades, como na dos indivíduos"
"na" = na vida
4Não confundir
Metáfora (comparação implícita)
Comparação (com "como")
Elipse/Zeugma
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Elipse/Zeugma: O que é (Omissão de termo já expresso, Recuperável pelo contexto); Como reconhecer (Estrutura paralela, Termo omitido já apareceu); Exemplo ("Na vida das sociedades, como na dos indivíduos", "na" = na vida); Não confundir (Metáfora (comparação implícita), Comparação (com "como"))

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Na vida das sociedades, como na dos indivíduos..."

O substantivo "vida" é expresso no primeiro termo e omitido no segundo: "na dos indivíduos" = "na vida dos indivíduos". O artigo "a" (em + a = na) funciona como pronome demonstrativo que retoma o substantivo elíptico. É o clássico zeugma.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Todo ele era um poço de certeza."

Aqui há metáfora: "poço de certeza" é uma comparação implícita (o ministro é tão cheio de certeza quanto um poço é cheio de água). Não há omissão de substantivo; todos os termos estão expressos. A banca tenta confundir com a ideia de "subentendido", mas a metáfora não é elipse.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"As luzes da rua extensa apareciam como um só traço de fogo."

comparação explícita (o conectivo "como" marca a comparação entre as luzes e um traço de fogo). Não há omissão de substantivo; a estrutura está completa. A presença do "como" é a pista de que não se trata de elipse.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"A cerimônia mal conteve, nos circunstantes, o entusiasmo."

Frase completa, sem omissão de substantivo. O verbo "conteve" tem sujeito ("a cerimônia") e objeto direto ("o entusiasmo") expressos. Não há elipse nem zeugma.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Pelos cantos o carro chispava."

Frase completa: sujeito ("o carro") e verbo ("chispava") expressos. O verbo "chispava" é usado em sentido figurado (metáfora: o carro soltava faíscas como se estivesse pegando fogo), mas não há omissão de substantivo.

Conclusão

A única alternativa em que um substantivo é omitido por coesão é a letra A, com o zeugma de "vida". As demais apresentam outras figuras (metáfora, comparação) ou frases completas. Para acertar questões assim, pergunte sempre: há um termo que já apareceu e foi suprimido? Se sim, é elipse/zeugma; se não, é outra figura.

PEGA ESSA DICA!

Desconfie de alternativas com "como" (comparação) ou com sentido figurado (metáfora) — a elipse é um fenômeno sintático, não semântico. Procure a estrutura paralela e o termo que ficou subentendido.

Gabarito: letra A

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