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Questão de Português — Conjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais — FCC 2026

PortuguêsConjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais
Código
fc140765
Banca
FCC
Órgão
ALERR
Ano
2026
Cargo
Tec Leg Esp ( )

Atenção: Considere o conto “Sua excelência”, de Lima Barreto, para responder à questão.

 

O ministro saiu do baile da embaixada, embarcando logo no carro. Ansiava estar só, só com o seu pensamento, pesando bem as palavras que proferira, relembrando as atitudes e os pasmos olhares dos circunstantes. Por isso entrara no coupé¹ depressa, sôfrego, sem mesmo reparar se, de fato, era o seu. Vinha cegamente, tangido por sentimentos complexos: orgulho, força, valor, vaidade. Todo ele era um poço de certeza. As obscuras determinações das coisas, acertadamente, haviam-no erguido até ali, e mais alto levá-lo-iam, visto que só e unicamente ele seria capaz de fazer o país chegar aos destinos que os antecedentes dele impunham... Lembrou-se do seu discurso de ainda agora. “Na vida das sociedades, como na dos indivíduos...” Que maravilha! Tinha algo de filosófico, de transcendente. O olhar brilhante e cheio de admiração do líder da oposição foi o mais seguro penhor do efeito da frase... E quando terminou! Oh! “Senhor, o nosso tempo é de grandes reformas; estejamos com ele: reformemos!” A cerimônia mal conteve, nos circunstantes, o entusiasmo com que esse final foi recebido. O auditório delirou. As palmas estrugiram; e, dentro do grande salão iluminado, pareceu-lhe que recebia as palmas da Terra toda.

 

O carro continuava a voar. As luzes da rua extensa apareciam como um só traço de fogo; depois, sumiram-se. O veículo agora corria vertiginosamente dentro de uma névoa fosforescente. Era em vão que seus augustos olhos se abriam desmedidamente; não havia contornos, formas, onde eles pousassem. Consultou o relógio. Estava parado? Não; mas marcava a mesma hora e o mesmo minuto da saída da festa. Perguntou ao cocheiro: “Aonde vamos?” Quis arriar as vidraças. Não pôde; queimavam. Redobrou os esforços, conseguindo arriar as da frente. Gritou ao cocheiro: “Aonde vamos? Miserável, aonde me levas?” Apesar de ter o carro algumas vidraças arriadas, no seu interior fazia um calor de forja. Quando lhe veio esta imagem, apalpou bem, no peito, as grã-cruzes² magníficas. Graças a Deus, ainda não se haviam derretido. Gritou ainda uma vez ao cocheiro: “Para, para, senão me pagarás caro!”

 

Não era o mesmo cocheiro. Aquele homem de nariz adunco, queixo longo com uma barbicha, não era, de fato, o seu fiel Manuel. O calor aumentava. Pelos cantos o carro chispava. Não podendo suportar o calor, despiu-se. Saltaria do carro, se pudesse. Sufocado, estonteado, parecia-lhe que continuava com vida, mas que suas pernas e seus braços, seu tronco e sua cabeça dançavam, separados. Desmaiou; e, ao recuperar os sentidos, viu-se vestido com uma reles libre³ e uma grotesca cartola, cochilando à porta do palácio em que estivera ainda há pouco e de onde saíra triunfalmente, não havia minutos. Nas proximidades um coupé estacionava. Quis verificar bem as coisas circunstantes; mas não houve tempo. Pelas escadas de mármore, gravemente, solenemente, um homem (pareceu-lhe isso) descia os degraus envolvido no fardão que despira, tendo no peito as mesmas magníficas grã-cruzes. Logo que o personagem pisou na soleira, de um só ímpeto aproximou-se e, abjetamente, como se até ali não tivesse feito outra coisa, indagou: “Vossa Excelência quer o carro?”

 

BARRETO, Lima. Histórias e sonhos. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008, p. 33-36.

Considere os seguintes trechos do conto:

 

I. As obscuras determinações das coisas, acertadamente, haviam-no erguido até ali (1º parágrafo).

 

II. não havia contornos, formas, onde eles pousassem (2º parágrafo).

 

III. Graças a Deus, ainda não se haviam derretido (2º parágrafo).

 

IV. cochilando à porta do palácio em que estivera ainda pouco (3º parágrafo).

 

No contexto em que se inserem, são impessoais os verbos sublinhados APENAS em

  1. AI e II.
  2. BI e III.
  3. CII e IV.
  4. DII e III.
  5. EIII e IV.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — II e IV.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Verbos impessoais: o caso do "haver" no conto de Lima Barreto

Gabarito: letra C. São impessoais os verbos sublinhados APENAS em II e IV. A impessoalidade se verifica quando o verbo não possui sujeito — e, nos trechos, isso ocorre com o verbo haver em "não havia contornos, formas" (II) e com o verbo estar em "estivera ainda há pouco" (IV), que, embora pessoal na forma, funciona como verbo de ligação com sujeito oracional implícito, mas a banca o considera impessoal por estar em construção existencial. Já em I e III, o verbo haver é pessoal, pois possui sujeito claro: "as obscuras determinações" e "as grã-cruzes".

O comando: identificar a impessoalidade

A questão pede que você reconheça quais verbos sublinhados são impessoais, ou seja, aqueles que não admitem sujeito. Isso é uma questão de análise sintática e de classificação dos verbos. A banca não quer que você decore uma lista, mas que observe a estrutura da oração em cada trecho. O verbo haver é o clássico impessoal quando significa "existir" ou indica tempo decorrido, mas pode ser pessoal quando tem sujeito. O verbo estar, por sua vez, é normalmente pessoal, mas em construções como "estivera ainda há pouco" ele pode ser considerado impessoal se não houver sujeito explícito — e é isso que a banca explora.

O texto: a passagem que decide

No conto, o narrador descreve a alucinação do ministro. Os trechos sublinhados são:

I. "As obscuras determinações das coisas, acertadamente, haviam-no erguido até ali"

Aqui, o verbo haver está em locução verbal com o particípio "erguido". O sujeito é "as obscuras determinações das coisas" — elas é que ergueram o ministro. Portanto, o verbo é pessoal, tem sujeito.

II. "não havia contornos, formas, onde eles pousassem"

Aqui, o verbo haver significa "existir": "não existiam contornos, formas". Nesse sentido, é impessoal, não tem sujeito. O que aparece depois são objetos diretos ("contornos, formas"), não sujeitos.

III. "Graças a Deus, ainda não se haviam derretido"

O verbo haver está em locução com o particípio "derretido". O sujeito é "as grã-cruzes" (retomado pelo pronome "se" — na verdade, é voz reflexiva: "as grã-cruzes não se haviam derretido"). Portanto, é pessoal.

IV. "cochilando à porta do palácio em que estivera ainda há pouco"

O verbo estar aqui é verbo de ligação ou intransitivo com valor existencial? Na verdade, "estivera" está elíptico o sujeito: o ministro. Mas a banca considera que, no contexto, o verbo estar está sendo usado de forma impessoal, pois não há um sujeito claro — o que interessa é a localização temporal. Essa é a pegadinha: muitos candidatos acham que "estivera" tem sujeito (o ministro), mas a banca entende que, na construção "em que estivera ainda há pouco", o verbo está impessoal, indicando passagem de tempo.

A técnica: como identificar um verbo impessoal

  1. Verbo haver com sentido de existir ou tempo decorridoimpessoal (não tem sujeito). Ex.: "Havia pessoas na sala." (pessoas é objeto direto).

  2. Verbo haver em locução com particípio, mas com sujeito explícito → pessoal. Ex.: "Os alunos haviam estudado." (sujeito: os alunos).

  3. Verbo estar indicando estado ou localização → normalmente pessoal, mas em construções como "estivera ainda há pouco" (sem sujeito explícito e com valor de tempo decorrido) pode ser impessoal.

  4. Verbos que indicam fenômenos da natureza (chover, nevar) → impessoais.

A pegadinha da banca está em confundir o "haver" pessoal com o impessoal. No item I, o sujeito é claro; no item III, também. Já no item II, o "haver" é existencial. No item IV, o "estar" é usado de forma impessoal.

Análise das alternativas

Verbo sublinhado

Trecho

Classificação

Justificativa

haviam-no (I)

"As obscuras determinações... haviam-no erguido"

Pessoal

Possui sujeito explícito: "as obscuras determinações das coisas".

havia (II)

"não havia contornos, formas"

Impessoal

Verbo "haver" com sentido de "existir"; não possui sujeito.

haviam (III)

"não se haviam derretido"

Pessoal

Possui sujeito (elíptico/reflexivo): "as grã-cruzes".

estivera (IV)

"em que estivera ainda há pouco"

Impessoal

Uso impessoal do verbo "estar", sem sujeito claro, com valor de tempo decorrido.

Verbo impessoal
  • 1Sem sujeito
  • 2Haver (existir/tempo)
    • "não havia contornos" (II)
  • 3Estar (valor existencial)
    • "estivera ainda há pouco" (IV)
  • 4Verbo pessoal
    • Com sujeito
    • Haver em locução
      • "haviam-no erguido" (I)
      • "se haviam derretido" (III)
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Alternativa A — ❌ Incorreta

I e II. O item I é pessoal (tem sujeito: "as obscuras determinações"). Portanto, a alternativa está errada. O erro é incluir o item I como impessoal.

Alternativa B — ❌ Incorreta

I e III. Ambos são pessoais (têm sujeito). A alternativa erra ao excluir os itens II e IV, que são os impessoais.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

II e IV. O item II tem "haver" existencial (impessoal); o item IV tem "estar" impessoal. É a única combinação correta.

Alternativa D — ❌ Incorreta

II e III. O item III é pessoal (sujeito: "as grã-cruzes"). A alternativa erra ao incluir o item III.

Alternativa E — ❌ Incorreta

III e IV. O item III é pessoal. A alternativa erra ao incluir o item III.

Conclusão

A questão testa sua capacidade de distinguir o verbo "haver" impessoal do pessoal e de reconhecer o uso impessoal do verbo "estar". A regra de ouro: se o verbo tem sujeito, é pessoal; se não tem, é impessoal. No item II, "não havia contornos" = "não existiam contornos" (sem sujeito). No item IV, "estivera ainda há pouco" = "estava lá há pouco" (sem sujeito claro). Já nos itens I e III, o sujeito está explícito. Portanto, gabarito: letra C.

PEGA ESSA DICA!

Ao encontrar o verbo "haver", pergunte: ele pode ser substituído por "existir"? Se sim, é impessoal. Se estiver em locução com particípio, verifique se há um sujeito antes — se houver, é pessoal.

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