Questão de Português — Figuras de Linguagem — FCC 2026
Português›Figuras de Linguagem
Código
fc140768
Banca
FCC
Órgão
ALERR
Ano
2026
Cargo
Tec Leg Esp ( )
Atenção: Considere o poema “O desfecho”, de Machado de Assis, para responder à questão.
Prometeu1 sacudiu os braços manietados2
E súplice pediu a eterna compaixão.
Ao ver o desfilar dos séculos que vão
Pausadamente, como um dobre de finados.
Mais dez, mais cem, mais mil e mais um bilhão,
Uns cingidos de luz, outros ensanguentados...
Súbito, sacudindo as asas de tufão,
Fita-lhe a águia os olhos espantados.
Pela primeira vez a víscera do herói,
Que a imensa ave do céu perpetuamente rói,
Deixou de renascer às raivas que a consomem.
Uma invisível mão as cadeias dilui;
Frio, inerte, ao abismo um corpo morto rui;
Acabara o suplício e acabara o homem.
(Adaptado de: MACHADO de Assis. Poesias completas. São Paulo: Todavia, 2024)
1Prometeu, um dos titãs da mitologia grega, teria roubado o fogo do Olimpo para dá-lo aos homens. Por esse motivo Zeus o castigou, acorrentando-o a um rochedo do Cáucaso para que um abutre bicasse permanentemente seu fígado. 2manietado: amarrado. Na medida em que retoma e perverte o conhecido mito de Prometeu, pode-se dizer que Machado de Assis, na construção de seu poema, recorre fundamentalmente ao seguinte recurso expressivo:
Apersonificação.
Bambiguidade.
Cparadoxo.
Dintertextualidade.
Emetalinguagem.
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GabaritoD — intertextualidade.
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Intertextualidade: o diálogo com o mito de Prometeu
Gabarito: letra D. O poema de Machado de Assis retoma e perverte o mito grego de Prometeu — o enunciado já o diz —, e esse diálogo explícito com um texto anterior é a definição de intertextualidade. A pista decisiva está na nota introdutória: "Prometeu, um dos titãs da mitologia grega, teria roubado o fogo do Olimpo..." — o leitor precisa conhecer o mito para entender a subversão que o poema opera. As demais figuras (personificação, paradoxo) até aparecem no texto, mas são recursos secundários; o recurso fundamental é a retomada do mito.
O comando: o que a banca pede
A questão pergunta qual é o recurso expressivo fundamental na construção do poema, considerando que ele "retoma e perverte o conhecido mito de Prometeu". Isso não é uma pergunta de compreensão literal, mas de interpretação — você precisa reconhecer o mecanismo de construção do texto, não apenas localizar uma informação. A palavra-chave é "retoma e perverte": ela aponta diretamente para a relação entre o poema e um texto anterior (o mito), que é a essência da intertextualidade.
O texto: tema e movimento argumentativo
O poema narra o momento em que o suplício de Prometeu termina: a águia, pela primeira vez, deixa de roer a víscera do herói, as cadeias se diluem e o corpo cai no abismo. No mito original, o castigo é eterno — a águia rói o fígado que renasce perpetuamente. Machado inverte esse desfecho: o sofrimento acaba, mas com a morte do herói. Essa inversão só faz sentido se o leitor conhecer o mito; sem esse conhecimento, o poema perde grande parte de seu significado. É exatamente isso que caracteriza a intertextualidade: a dependência de um texto anterior para a construção de sentido.
A técnica: o que é intertextualidade e como identificá-la
Intertextualidade é o diálogo entre textos: um texto retoma, cita, parodia ou subverte outro texto, seja de forma explícita ou implícita. No poema, a retomada é explícita — o nome "Prometeu" aparece no primeiro verso, e a nota do enunciado reforça o mito. A perversão (a subversão) é a marca da intertextualidade crítica: o autor não apenas repete o mito, mas o transforma, dando-lhe um novo desfecho. Veja como o texto evidencia isso:
"Prometeu sacudiu os braços manietados / E súplice pediu a eterna compaixão."
E, no final:
"Acabara o suplício e acabara o homem."
O mito diz que o suplício é eterno; o poema diz que ele acabou. Essa contradição com o texto original é a prova da intertextualidade: o poema só existe em relação ao mito.
Intertextualidade
1Diálogo entre textos
Retomada explícita (nome "Prometeu")
Perversão/subversão do mito
2Dependência do texto anterior
Sem o mito, o poema perde sentido
3Marcas no texto
Suplício eterno → acaba
Libertação e morte se confundem
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Personificação (ou prosopopeia) é atribuir características humanas a seres inanimados ou irracionais. No poema, há personificação — a águia "fita-lhe os olhos espantados", as cadeias "diluem" —, mas isso é um recurso secundário, não o fundamental. A questão pede o recurso que estrutura o poema, e esse é a intertextualidade. A personificação é apenas um detalhe expressivo dentro da narrativa.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Ambiguidade é a duplicidade de sentidos de uma palavra ou expressão. O poema não explora ambiguidade de forma relevante; o sentido é claro, embora dependa do conhecimento do mito. A ambiguidade não é o recurso que "retoma e perverte" o mito — é um efeito pontual, não estrutural.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Paradoxo é a junção de ideias contraditórias que, aparentemente, se excluem. Há um paradoxo no poema: o suplício eterno acaba, mas com a morte do herói — a libertação e a destruição se confundem. No entanto, o paradoxo é uma consequência da subversão do mito, não o recurso fundamental. A banca quer o mecanismo que gera o paradoxo, que é a intertextualidade.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Intertextualidade é a relação entre textos, e o poema é construído sobre a retomada e a perversão do mito de Prometeu. O enunciado já afirma isso: "Na medida em que retoma e perverte o conhecido mito de Prometeu". O poema depende do mito para ter sentido — sem ele, não se entende por que a águia deixa de roer a víscera, nem por que a morte é o fim do suplício. Essa dependência é a marca da intertextualidade.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Metalinguagem é a linguagem que fala de si mesma, como um poema que discute o fazer poético. O poema de Machado não fala sobre poesia ou sobre a própria linguagem; ele narra uma cena mitológica. Não há metalinguagem no texto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca coloca figuras que realmente aparecem no poema (personificação, paradoxo) para tentar você, mas a pergunta é sobre o recurso fundamental, aquele que estrutura o texto. A palavra "retoma e perverte" no enunciado é a chave: ela aponta para a intertextualidade, não para as figuras de estilo.
PEGA ESSA DICA!
Quando a questão falar em "retoma", "dialoga", "parodia" ou "subverte" um texto anterior, a resposta quase sempre é intertextualidade. Grife essas palavras no enunciado antes de ler as alternativas.