Questão de Raciocínio Lógico — Raciocínio Crítico — FCC 2026
Raciocínio Lógico›Raciocínio Crítico
Código
fc141874
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ SP
Ano
2026
Cargo
AFRE ( )
Como é possível, pergunta La Boétie, que a maioria obedeça a um só, não apenas lhe obedeça, mas o sirva, não apenas o sirva mas queira servi-lo?
A natureza e o alcance de tal questão excluem de saída que se possa reduzi-la a essa ou àquela situação histórica concreta. A possibilidade de formular uma interrogação tão destrutiva remete, simples mas heroicamente, a uma lógica dos contrários: se sou capaz de me espantar que a servidão voluntária seja a invariante comum a todas as sociedades, a minha mas também aquelas sobre as quais me informam os livros, é evidentemente porque imagino o contrário de tal sociedade, é porque imagino a possibilidade lógica de uma sociedade que ignore a servidão voluntária. Heroísmo e liberdade de La Boétie: basta essa ligeira e fácil passagem da história à lógica, basta essa abertura no que é o mais naturalmente evidente, basta essa brecha na convicção geral de que não se poderia pensar a sociedade sem sua divisão entre dominantes e dominados. Ao espantar-se com isso, ao recusar a evidência natural, o jovem La Boétie transcende toda a história conhecida para dizer: outra coisa é possível.
(Adaptado de: CLASTRES, Pierre. Arqueologia da Violência. São Paulo: CosacNaify, 2004, p. 147-148)
Considere o texto a seguir para responder à questão. Segundo Clastres, a passagem da história à lógica, na pergunta feita por La Boétie,
Afaz com que os dois termos da oposição se tornem naturais, seja a servidão voluntária, seja a ausência de servidão.
Bpassa a situar a história vivida no domínio da transcendência, o que torna possível a suposição de uma sociedade sem hierarquia.
Clança as bases conceituais de uma sociedade libertária, tendo a servidão voluntária como ponto de partida para um novo processo histórico.
Dinaugura uma oposição entre as sociedades como eram conhecidas até então, baseadas na servidão voluntária, e a possibilidade de sociedades igualitárias.
Eabre um precedente histórico para as sociedades que se ordenam sem necessidade de hierarquia.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoD — inaugura uma oposição entre as sociedades como eram conhecidas até então, baseadas na servidão voluntária, e a possibilidade de sociedades igualitárias.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Raciocínio Crítico: a lógica dos contrários em La Boétie
Gabarito: letra D. Segundo Clastres, a passagem da história à lógica, na pergunta de La Boétie, inaugura uma oposição entre as sociedades como eram conhecidas até então, baseadas na servidão voluntária, e a possibilidade de sociedades igualitárias. O texto sustenta que essa passagem permite "imaginar o contrário de tal sociedade", ou seja, "a possibilidade lógica de uma sociedade que ignore a servidão voluntária".
A questão exige compreender o que Clastres chama de "passagem da história à lógica" na pergunta de La Boétie. Não se trata de um movimento histórico concreto, mas de um movimento do pensamento: ao se espantar com o fato de que a servidão voluntária é uma invariante comum a todas as sociedades conhecidas, La Boétie abre uma brecha lógica, imaginando o seu contrário. Essa operação não é empírica, mas conceitual — ela transcende a história conhecida para afirmar que "outra coisa é possível".
O texto é explícito ao definir essa operação: "A possibilidade de formular uma interrogação tão destrutiva remete, simples mas heroicamente, a uma lógica dos contrários: se sou capaz de me espantar que a servidão voluntária seja a invariante comum a todas as sociedades, a minha mas também aquelas sobre as quais me informam os livros, é evidentemente porque imagino o contrário de tal sociedade, é porque imagino a possibilidade lógica de uma sociedade que ignore a servidão voluntária." A alternativa D espelha exatamente essa oposição: de um lado, as sociedades conhecidas (baseadas na servidão voluntária); de outro, a possibilidade lógica de sociedades igualitárias.
A "lógica dos contrários" é o coração da questão. Ela funciona como um raciocínio por oposição: se a servidão voluntária é a regra em todas as sociedades conhecidas, a simples capacidade de espantar-se com isso implica a possibilidade lógica do seu oposto — uma sociedade sem servidão. Essa é uma operação puramente conceitual, não histórica: La Boétie não aponta uma sociedade real que tenha existido, mas abre a possibilidade lógica de que ela exista. É por isso que Clastres fala em "transcender toda a história conhecida".
A pegadinha da banca está em confundir essa operação lógica com um movimento histórico ou com a fundação de um projeto político concreto. A alternativa D é a única que captura a oposição conceitual entre as sociedades conhecidas (servidão voluntária) e a possibilidade lógica de sociedades igualitárias, sem cair em anacronismos ou em leituras que extrapolam o texto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta fazer o candidato confundir a "passagem da história à lógica" com um movimento histórico real ou com a fundação de um projeto político concreto. As alternativas B, C e E exploram exatamente essa confusão: falam em "transcendência", "lançar bases conceituais" e "abrir precedente histórico", quando o texto fala de uma operação lógica, não de um fato histórico. Fique atento: a chave é a oposição entre o que é conhecido (servidão voluntária) e o que é logicamente possível (sociedade igualitária).
Passagem da história à lógica (La Boétie)
1Operação conceitual
Espanto: servidão voluntária é invariante
Lógica dos contrários
Sociedades conhecidas (servidão voluntária)
Possibilidade lógica de sociedade igualitária
2Não é
Movimento histórico real
Fundação de projeto político
LEVEL · soulevel.com.br
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a passagem da história à lógica faz com que os dois termos da oposição se tornem naturais. O texto diz exatamente o contrário: La Boétie "recusa a evidência natural" e se espanta com a servidão voluntária. A operação lógica não naturaliza os termos; ela os problematiza, mostrando que a servidão não é natural, mas sim uma construção histórica que poderia ser diferente.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Diz que a passagem "passa a situar a história vivida no domínio da transcendência". O texto usa "transcende" em relação à história conhecida, mas no sentido de ir além dela logicamente, não de situá-la num domínio transcendente. A alternativa inverte o sujeito: não é a história que se torna transcendente, é o pensamento de La Boétie que transcende a história para imaginar outra possibilidade.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que a passagem "lança as bases conceituais de uma sociedade libertária, tendo a servidão voluntária como ponto de partida para um novo processo histórico". O texto não fala em "lançar bases conceituais" nem em "novo processo histórico". A operação é lógica, não fundacional: La Boétie não propõe um projeto, apenas abre a possibilidade lógica de uma sociedade sem servidão. A alternativa C projeta no texto uma intenção política que ele não tem.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa D captura exatamente a oposição central do texto: de um lado, as sociedades como eram conhecidas até então, baseadas na servidão voluntária; de outro, a possibilidade de sociedades igualitárias. O texto afirma que La Boétie "imagina o contrário de tal sociedade", ou seja, "a possibilidade lógica de uma sociedade que ignore a servidão voluntária". A palavra "inaugura" é precisa: a passagem da história à lógica abre essa oposição conceitual, sem afirmar que ela existiu historicamente.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Diz que a passagem "abre um precedente histórico para as sociedades que se ordenam sem necessidade de hierarquia". O texto não fala em "precedente histórico" — pelo contrário, afirma que La Boétie "transcende toda a história conhecida". A operação é lógica, não histórica: não se trata de abrir um precedente no tempo, mas de abrir uma possibilidade no pensamento.
Gabarito: letra D — a única que captura a oposição conceitual entre as sociedades conhecidas (servidão voluntária) e a possibilidade lógica de sociedades igualitárias, sem cair em leituras históricas ou políticas que o texto não sustenta.