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Questão de Raciocínio Lógico — Raciocínio Crítico — FCC 2026

Raciocínio LógicoRaciocínio Crítico
Código
fc141875
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ SP
Ano
2026
Cargo
AFRE ( )

Como é possível, pergunta La Boétie, que a maioria obedeça a um só, não apenas lhe obedeça, mas o sirva, não apenas o sirva mas queira servi-lo?

 

A natureza e o alcance de tal questão excluem de saída que se possa reduzi-la a essa ou àquela situação histórica concreta. A possibilidade de formular uma interrogação tão destrutiva remete, simples mas heroicamente, a uma lógica dos contrários: se sou capaz de me espantar que a servidão voluntária seja a invariante comum a todas as sociedades, a minha mas também aquelas sobre as quais me informam os livros, é evidentemente porque imagino o contrário de tal sociedade, é porque imagino a possibilidade lógica de uma sociedade que ignore a servidão voluntária. Heroísmo e liberdade de La Boétie: basta essa ligeira e fácil passagem da história à lógica, basta essa abertura no que é o mais naturalmente evidente, basta essa brecha na convicção geral de que não se poderia pensar a sociedade sem sua divisão entre dominantes e dominados. Ao espantar-se com isso, ao recusar a evidência natural, o jovem La Boétie transcende toda a história conhecida para dizer: outra coisa é possível.

 

(Adaptado de: CLASTRES, Pierre. Arqueologia da Violência. São Paulo: CosacNaify, 2004, p. 147-148)

Considere o texto a seguir para responder à questão.     Em consonância com a argumentação do texto, questionar a naturalidade de algo significa
  1. Afazer com que passe a ser considerado como fruto da cultura e, assim, estudado em sua intencionalidade.
  2. Bpôr em xeque sua historicidade, procurando compreender seus aspectos inerentes e não sujeitos a mudanças.
  3. Cprocurar entender um fenômeno em suas características estruturais, a fim de estabelecer uma constante.
  4. Dsubmeter a natureza ao crivo da lógica, de maneira a respaldar a ausência de finalidade em suas características inerentes.
  5. Eintuir até que ponto a natureza pode ser modificada pela cultura em benefício da sociedade.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — fazer com que passe a ser considerado como fruto da cultura e, assim, estudado em sua intencionalidade.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Raciocínio Crítico: a lógica dos contrários em La Boétie

Gabarito: letra A. Segundo a argumentação do texto, questionar a naturalidade de algo significa fazer com que passe a ser considerado como fruto da cultura e, assim, estudado em sua intencionalidade. O texto de Clastres mostra que La Boétie, ao se espantar com a servidão voluntária, recusa a "evidência natural" e abre uma brecha na "convicção geral", transcendendo a história para afirmar que "outra coisa é possível" — ou seja, o que parecia natural (a divisão entre dominantes e dominados) passa a ser visto como uma construção cultural, passível de análise e mudança.

O texto de Pierre Clastres apresenta uma reflexão sobre a natureza da servidão voluntária, a partir da pergunta de La Boétie: como é possível que a maioria obedeça a um só, não apenas lhe obedeça, mas o sirva, não apenas o sirva, mas queira servi-lo? Essa pergunta, segundo Clastres, tem um alcance que transcende situações históricas concretas. Ela remete a uma "lógica dos contrários": se sou capaz de me espantar que a servidão voluntária seja a invariante comum a todas as sociedades, é porque imagino o contrário de tal sociedade, é porque imagino a possibilidade lógica de uma sociedade que ignore a servidão voluntária.

O ponto central é a distinção entre o que é natural e o que é cultural. Quando algo é considerado "natural", é visto como imutável, inerente, sem intencionalidade — simplesmente é. Quando algo é questionado em sua naturalidade, deixa de ser visto como dado e passa a ser visto como construção. No texto, La Boétie "recusa a evidência natural" e "transcende toda a história conhecida para dizer: outra coisa é possível". Essa recusa da evidência natural é exatamente o gesto de retirar algo do campo da natureza e colocá-lo no campo da cultura. Uma vez no campo da cultura, esse algo pode ser estudado em sua intencionalidade — ou seja, pode-se perguntar por que foi feito assim, quem o fez, com que finalidade.

A alternativa A captura precisamente esse movimento: questionar a naturalidade de algo significa fazer com que passe a ser considerado como fruto da cultura e, assim, estudado em sua intencionalidade. As demais alternativas ou invertem o movimento (como a B, que fala em "aspectos inerentes e não sujeitos a mudanças"), ou permanecem no campo da estrutura e da constante (como a C), ou introduzem elementos que não estão no texto (como a D e a E).

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta confundir o candidato ao apresentar alternativas que parecem plausíveis, mas que invertem ou distorcem o movimento central do texto. A pegadinha aqui é confundir "questionar a naturalidade" com "pôr em xeque a historicidade" (alternativa B) — mas o texto não fala em historicidade, fala em recusar a evidência natural. Outra pegadinha é a alternativa D, que fala em "submeter a natureza ao crivo da lógica" — mas o texto fala em passar da história à lógica, não em submeter a natureza à lógica. O candidato que não lê com atenção pode cair nessas armadilhas. 💪

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Esta alternativa está correta porque captura exatamente o movimento descrito no texto. Quando La Boétie questiona a naturalidade da servidão voluntária, ele recusa a "evidência natural" e abre uma "brecha na convicção geral". Ao fazer isso, ele retira a servidão voluntária do campo do natural e a coloca no campo do cultural — algo que é fruto de uma construção, não de uma essência. Uma vez no campo da cultura, esse fenômeno pode ser estudado em sua intencionalidade: por que os homens servem? Quem se beneficia dessa servidão? Que mecanismos a sustentam? O texto afirma que "basta essa abertura no que é o mais naturalmente evidente" para que "outra coisa seja possível" — ou seja, questionar a naturalidade é o primeiro passo para entender o fenômeno como construção cultural e, portanto, como algo que pode ser diferente.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Esta alternativa está incorreta porque inverte o movimento do texto. Questionar a naturalidade de algo não significa "pôr em xeque sua historicidade" — pelo contrário, significa retirá-lo do campo do natural e colocá-lo no campo do cultural. Além disso, a alternativa fala em "compreender seus aspectos inerentes e não sujeitos a mudanças", o que é exatamente o oposto do que o texto defende. O texto mostra que La Boétie, ao questionar a naturalidade da servidão voluntária, afirma que "outra coisa é possível" — ou seja, o que parecia inerente e imutável pode ser diferente. A alternativa B, portanto, contradiz o texto ao afirmar que os aspectos são "não sujeitos a mudanças".

Alternativa C — ❌ Incorreta

Esta alternativa está incorreta porque permanece no campo da estrutura e da constante, sem capturar o movimento de questionamento da naturalidade. O texto não fala em "características estruturais" nem em "estabelecer uma constante" — pelo contrário, o texto mostra que La Boétie questiona exatamente a invariante (a servidão voluntária como constante em todas as sociedades) para imaginar uma sociedade que a ignore. A alternativa C, portanto, não reflete o movimento do texto, que é de ruptura com a constante, não de estabelecimento dela.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Esta alternativa está incorreta porque distorce o movimento do texto. O texto fala em "passagem da história à lógica", não em "submeter a natureza ao crivo da lógica". Além disso, a alternativa fala em "respaldar a ausência de finalidade em suas características inerentes", o que não tem correspondência no texto. O texto não fala em ausência de finalidade — pelo contrário, ao questionar a naturalidade da servidão voluntária, La Boétie abre espaço para perguntar pela intencionalidade do fenômeno, ou seja, pela sua finalidade. A alternativa D, portanto, introduz elementos que não estão no texto e distorce o movimento central.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Esta alternativa está incorreta porque introduz uma relação entre natureza e cultura que não está no texto. O texto não fala em "intuir até que ponto a natureza pode ser modificada pela cultura em benefício da sociedade" — essa é uma formulação que não encontra correspondência na argumentação de Clastres. O texto fala em recusar a evidência natural e imaginar a possibilidade lógica de uma sociedade que ignore a servidão voluntária. A alternativa E, portanto, introduz um tema (a modificação da natureza pela cultura) que não é o foco do texto.

Gabarito: letra A

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