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Questão de Raciocínio Lógico — Raciocínio Crítico — FCC 2026

Raciocínio LógicoRaciocínio Crítico
Código
fc141876
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ SP
Ano
2026
Cargo
AFRE ( )

Como é possível, pergunta La Boétie, que a maioria obedeça a um só, não apenas lhe obedeça, mas o sirva, não apenas o sirva mas queira servi-lo?

 

A natureza e o alcance de tal questão excluem de saída que se possa reduzi-la a essa ou àquela situação histórica concreta. A possibilidade de formular uma interrogação tão destrutiva remete, simples mas heroicamente, a uma lógica dos contrários: se sou capaz de me espantar que a servidão voluntária seja a invariante comum a todas as sociedades, a minha mas também aquelas sobre as quais me informam os livros, é evidentemente porque imagino o contrário de tal sociedade, é porque imagino a possibilidade lógica de uma sociedade que ignore a servidão voluntária. Heroísmo e liberdade de La Boétie: basta essa ligeira e fácil passagem da história à lógica, basta essa abertura no que é o mais naturalmente evidente, basta essa brecha na convicção geral de que não se poderia pensar a sociedade sem sua divisão entre dominantes e dominados. Ao espantar-se com isso, ao recusar a evidência natural, o jovem La Boétie transcende toda a história conhecida para dizer: outra coisa é possível.

 

(Adaptado de: CLASTRES, Pierre. Arqueologia da Violência. São Paulo: CosacNaify, 2004, p. 147-148)

Considere o texto a seguir para responder à questão.

   

Considere o texto a seguir para responder à questão.

 

Se para os olhos de um leigo a floresta amazônica é uma floresta virgem e intocada, o que pesquisas têm demonstrado é que a Amazônia é um grande jardim, plantado por povos indígenas por meio da influência de diferentes aspectos socioculturais.

 

Na Amazônia, aquilo que não indígenas entendem como “natureza” (a floresta, os animais, os rios etc.), muitos povos indígenas entendem como ambientes culturais onde relações sociais, incluindo entre humanos e não humanos, ocorrem. Tais relações se refletem em transformações da paisagem que têm gerado biodiversidade na região há milhares de anos.

 

Embora a Amazônia seja habitada há cerca de 13 mil anos, quando pensamos em antigas civilizações, pensamos nos incas, astecas, maias ou egípcios, provavelmente por essas civilizações terem modificado suas paisagens por meio de grandes arquiteturas, como as pirâmides. Entretanto, modificações milenares nas paisagens amazônicas têm sido descobertas nas últimas décadas, colocando a região, e suas antigas populações humanas, no mesmo patamar dessas que aprendemos a cultuar como grandes civilizações.

 

(Adaptado de: FRANCO-MORAES, Juliano. “A Amazônia não é uma floresta virgem, mas um jardim plantado pelos povos indígenas”.

Disponível em: https://esginsights.com.br)

 

Acerca dos textos de Pierre Clastres e de Franco-Moraes, considere:

 

I. Se, em Clastres, o que motiva a hipótese contrária às provas materiais é o uso da lógica, em Franco-Moraes, são provas materiais que subsidiam a percepção de diferenças em concepções de mundo.

 

II. Em Clastres, a lógica de La Boétie se contrapõe ao seguinte raciocínio indutivo: há dominantes e dominados em todas as sociedades observadas, logo, a hierarquia é imanente à sociedade.

 

III. Em Franco-Moraes, o fato de os indígenas terem permanecido na floresta como extrativistas e coletores corrobora o argumento de que a consideram como um ambiente cultural.

 

Está correto o que se afirma em

  1. AIII, apenas.
  2. BII e III, apenas.
  3. CI, II e III.
  4. DI e II, apenas.
  5. EI, apenas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — I e II, apenas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Raciocínio Crítico: interpretação comparada de dois textos

Gabarito: letra D — corretos os itens I e II. A questão exige leitura comparada dos dois textos: em Clastres, a hipótese contrária à evidência histórica nasce de um salto lógico (imaginar o contrário do que sempre foi observado); em Franco-Moraes, são provas materiais (pesquisas, transformações da paisagem) que sustentam a tese de que a Amazônia é um ambiente cultural. O item III erra ao afirmar que os indígenas permaneceram como "extrativistas e coletores" — o texto diz exatamente o oposto: eles plantaram e transformaram a paisagem.

A questão testa a habilidade de comparar estruturas argumentativas de dois textos e identificar qual tipo de fundamento cada autor utiliza. No texto de Clastres, o ponto central é a pergunta de La Boétie: como é possível que a maioria obedeça e queira servir a um só? A resposta do autor é que essa pergunta só pode ser formulada porque o pensador imagina o contrário — "a possibilidade lógica de uma sociedade que ignore a servidão voluntária". Ou seja, Clastres parte de um raciocínio lógico (a lógica dos contrários), não de provas empíricas: "basta essa ligeira e fácil passagem da história à lógica". É um movimento de transcendência da história conhecida para afirmar que "outra coisa é possível".

Já Franco-Moraes parte de evidências materiais: pesquisas demonstraram que a Amazônia é um "grande jardim, plantado por povos indígenas". O texto menciona "modificações milenares nas paisagens amazônicas" descobertas nas últimas décadas, que colocam a região "no mesmo patamar" das grandes civilizações. A diferença de concepção de mundo (natureza × ambiente cultural) é subsidiada por essas provas — não por um exercício lógico abstrato.

O item II exige reconhecer a estrutura do raciocínio que La Boétie contesta. O texto de Clastres afirma que a servidão voluntária é a "invariante comum a todas as sociedades" — ou seja, a observação empírica de que sempre houve dominantes e dominados. O raciocínio indutivo seria: "todas as sociedades observadas têm hierarquia, logo a hierarquia é imanente à sociedade". La Boétie rompe com essa indução ao imaginar logicamente uma sociedade sem servidão. O item II descreve corretamente essa contraposição.

O item III, por sua vez, contém um erro factual em relação ao texto de Franco-Moraes. O texto não diz que os indígenas permaneceram como extrativistas e coletores; ao contrário, afirma que eles plantaram a floresta e a transformaram por milhares de anos. A ideia de "jardim plantado" implica agricultura e manejo, não mera extração. Além disso, o texto não estabelece essa relação de causalidade entre "permanecer como extrativistas" e "considerar a floresta como ambiente cultural".

Guarde a distinção central: Clastres = lógica (imaginação do contrário); Franco-Moraes = provas materiais (pesquisas, transformações da paisagem). É nessa fronteira que os itens se separam.

Fundamentos dos autores
  • 1Clastres
    • Lógica (imaginação do contrário)
    • Contesta a indução (hierarquia imanente)
  • 2Franco-Moraes
    • Provas materiais (pesquisas)
    • Transformação da paisagem
    • Indígenas plantaram (jardim)
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Item I — ✅ Correto

O item afirma que, em Clastres, o que motiva a hipótese contrária às provas materiais é o uso da lógica, enquanto em Franco-Moraes são provas materiais que subsidiam a percepção de diferenças em concepções de mundo. Isso está correto. No texto de Clastres, lê-se: "basta essa ligeira e fácil passagem da história à lógica" — o autor explicita que o movimento de La Boétie é lógico, não empírico. Já Franco-Moraes afirma que "pesquisas têm demonstrado" e que "modificações milenares nas paisagens amazônicas têm sido descobertas" — ou seja, são provas materiais que sustentam a tese. A contraposição entre os dois fundamentos (lógica × provas materiais) está fiel aos textos.

Item II — ✅ Correto

O item descreve corretamente a contraposição de La Boétie ao raciocínio indutivo. O texto de Clastres afirma que a servidão voluntária é a "invariante comum a todas as sociedades" — a observação de que sempre houve dominantes e dominados. O raciocínio indutivo seria: "há dominantes e dominados em todas as sociedades observadas, logo, a hierarquia é imanente à sociedade". La Boétie contesta exatamente essa indução ao imaginar "a possibilidade lógica de uma sociedade que ignore a servidão voluntária". O item II captura com precisão essa estrutura argumentativa: a lógica de La Boétie se contrapõe à generalização indutiva.

Item III — ❌ Incorreto

O item afirma que "o fato de os indígenas terem permanecido na floresta como extrativistas e coletores corrobora o argumento de que a consideram como um ambiente cultural". Há dois erros aqui. Primeiro, o texto de Franco-Moraes não diz que os indígenas permaneceram como extrativistas e coletores; ao contrário, afirma que a Amazônia é um "grande jardim, plantado por povos indígenas" — ou seja, eles plantaram e transformaram a paisagem, o que implica agricultura e manejo, não mera extração. Segundo, a relação de causalidade proposta (extrativismo → ambiente cultural) não existe no texto. A tese do autor é que as transformações da paisagem geraram biodiversidade, e é isso que corrobora a concepção de ambiente cultural — não a permanência como extrativistas.

Gabarito: letra D — corretos os itens I e II.

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