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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc144171
Banca
FCC
Órgão
CBM BA
Ano
2023
Cargo
Sold ( )

Leia o texto abaixo para responder a questão.

 

Medo da eternidade

 

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

 

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

 

– Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.

 

– Como não acaba? – Parei um instante na rua, perplexa.

 

– Não acaba nunca, e pronto.

 

Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor- -de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.

 

Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

 

– E agora que é que eu faço? – perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.

 

– Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

 

Perder a eternidade? Nunca.

 

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

 

– Acabou-se o docinho. E agora?

 

– Agora mastigue para sempre.

 

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.

 

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

 

Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

 

– Olha só o que me aconteceu! – disse eu em fingidos espanto e tristeza. – Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

 

– Já lhe disse – repetiu minha irmã – que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

 

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca por acaso.

 

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

 

(LISPECTOR, Clarice. Jornal do Brasil, 06 de jun. de 1970)

Leia as seguintes afirmações a respeito do texto.

 

I. Os chicles continuam doces mesmo após se transformarem em puxa-puxa.

 

II. Os chicles podem ser pregados na cama para que não sejam engolidos durante o sono.

 

III. O docinho dos chicles é melhor do que o das balas.

 

IV. Para algumas crianças, os chicles funcionam como uma bala eterna.

 

De acordo com o texto, estão corretas APENAS as afirmações:

  1. AI e III.
  2. BII e III.
  3. CII e IV.
  4. DII, III e IV.
  5. EI, II e III.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — II e IV.

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