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Questão de Português — Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto. — FCC 2024

PortuguêsReescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto.
Código
fc146607
Banca
FCC
Órgão
TRT 11
Ano
2024
Cargo
TJ TRT11

Atenção: Leia o texto abaixo para responder a questão a seguir.

 

Enterro televisivo

 

"Uns olham para a televisão. Outros olham pela televisão."

(Dito de Sicrano)

 

1. Estranharam quando, no funeral do avô Sicrano, a viúva Entrelua proclamou:

 

- Uma televisão!

 

- Uma televisão o que, avó?

 

- Quero que me comprem uma televisão.

 

5. Aquilo, assim, de rompante, em plenas orações. Dela se esperava mais ajustado desejo, um ensejo solene de tristeza, um suspiro anunciador do fim. Mas não, ela queria naquele mesmo dia receber um aparelho novo.

 

- Mas o aparelho que vocês tinham avariou?

 

- Não. Já não existe.

 

- Como é isso, então? Foi roubado?

 

- Não, foi enterrado.

 

10. - Enterrado?

 

- Sim, foi junto com o corpo do vosso falecido pai.

 

Tudo havia sido congeminado junto com o coveiro. A televisão, desmontada nas suas quantas peças, tinha sido embalada no caixão. Era um requisito de quem ficava, selando a vontade de quem estava indo.

 

Na cerimônia, todos se entreolharam. O pedido era estranho, mas ninguém podia negar. O tio Ricardote ainda teve a lucidez de inquirir:

 

- É a antena?

 

15. Esperassem, fez ela com a mão. Tudo estava arquitetado. O coveiro estava instruído para, após a cerimônia, colocar a antena sobre a lápide, amarrada na ponta da cruz, em espreitação dos céus. Aquela mesma antena, feita de tampas de panela, ampliaria as eletrônicas nos sentidos do falecido. O velho Sicrano, lá em baixo, captaria os canais. É um simples risco a diferença entre a alma e a onde magnética. Por razão disso, a viúva Entrelua pediu que não cavassem fundo, deixassem o defunto à superfície.

 

- Para apanhar bem o sinal - explicou a velha.

 

O Padre Luciano se esforçou por disciplinar a multidão, ele que representava a ordem de uma só voz divina. Com uns tantos berros e ameaças ele reconduziu a multidão ao silêncio. Mas foi sossego de pouca dura. Logo, Entrelua espreitou em volta, e foi inquirindo os condoídos presentes:

 

- E o Bibito, onde está?

 

- O Bibito? - se interrogaram os familiares.

 

20. Ninguém conhecia. Foi o bisneto que esclareceu: Bibito era o personagem da novela brasileira. A das seis, acrescentou ele, feliz por lustrar conhecimento.

 

- E a Carmenzita que todas as noites nos visita e agora não comparece!

 

De novo, o bisneto fez luz: mais uma figura de uma telenovela. Só que mexicana. O filho mais velho tentou apaziguar as visões da avó. Mas qual Bibito, qual Carmen?! Então os filhos de osso e alma estavam ali, lágrima empenhada, e ela só queria saber de personagem noveleira?

 

- Sim, mas esses ao menos nos visitam. porque a vocês nunca mais os vimos.

 

Esses que os demais teimavam em chamar de personagens, eram esses que adormeciam o casal de velhotes, noite após noite. Verdade seja escrita que a tarefa se tornava cada vez mais fácil. Bastava um repassar de cores e sonos para que as pestanas ganhassem peso. Até que era só ligar e já adormeciam.

 

25. - Quem vai ligar o aparelho hoje?

 

- É melhor não ser você, marido, porque noutro dia adormeceu de pé.

 

De novo, o padre invocou a urgência de um silêncio. Que ali havia tanto filho e mais tanto neto e ninguém conseguia apaziguar a viúva? Os filhos descansaram o padre. Que sim, que iam conduzi-la dali para o resguardo da casa. Entrelua bem merecia o reparo de uma solidão. E prometeram à velha que não precisava de um outro aparelho, que eles iriam passar a visitá-la, nunca mais a deixariam só. A avó sorriu, triste. E assim a conduziram para casa.

 

Aquela noite, ainda viram a avó Entrelua atravessar o escuro da noite para se sentar sobre a campa de Sicrano. Deu um jeito na antena como a orientá-la rumo à lua. Depois passou o dedo pelos olhos a roubar uma lágrima. Passou essa aguinha pela tampa da penal como se repuxasse. De si para si murmurou: é para captar melhor. Ninguém a escutou, porém, quando se inclinou sobre a terra e disse baixinho:

 

- Hoje é você a ligar, Sicrano. Você ligue que eu já vou adormecendo.

 

(Adaptado de: COUTO, Mia. O fio das missangas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009)

Verdade seja escrita que a tarefa se tornava cada vez mais fácil. Bastava um repassar de cores e sonos para que as pestanas ganhassem peso. Até que era só ligar e já adormeciam. (parágrafo 24).

 

Uma redação que mantém o sentido original desse trecho e sua correção gramatical está em:

  1. AConforme passavam os dias, dormir ficava cada vez mais fácil. Com o intuito de imaginar cores e sonos, o sono vinha logo em seguida. Só era só ligar o aparelho e os dois já adormeciam.
  2. BCom o tempo, adormecer se transformava em uma tarefa  cada vez mais fácil. Por conseguinte, as cores e os sonos faziam as pestanas ganharem peso. Depois era só ligar e os dois já adormeciam.
  3. CPrecisamos falar a verdade: a tarefa de adormecer ficava cada vez mais fácil. Um simples pensar em cores e sonos e as pestanas já pesavam. Então era só ligar a televisão e ambos adormeciam.
  4. Dverdade seja escrita: a tarefa se tornava dia a dia mais fácil. Era só imaginar cores e sonos e os olhos já ficavam cansados. Entretanto, bastava ligar o aparelho e os dois já caíam no sono.
  5. EEra isso o que acontecia: eles pensavam em cores e sonos e os olhos já começavam a fechar. Não obstante, bastava ligar a televisão e os dois já apagavam por completo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Precisamos falar a verdade: a tarefa de adormecer ficava cada vez mais fácil. Um simples pensar em cores e sonos e as pestanas já pesavam. Então era só ligar a televisão e ambos adormeciam.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Reescrita de frases: o sentido mora no texto

Gabarito: letra C. A alternativa C é a única que preserva integralmente o sentido do trecho original e mantém a correção gramatical. Ela parafraseia fielmente cada ideia: "Verdade seja escrita" → "Precisamos falar a verdade"; "a tarefa se tornava cada vez mais fácil" → "a tarefa de adormecer ficava cada vez mais fácil"; "Bastava um repassar de cores e sonos para que as pestanas ganhassem peso" → "Um simples pensar em cores e sonos e as pestanas já pesavam"; "Até que era só ligar e já adormeciam" → "Então era só ligar a televisão e ambos adormeciam". As demais alternativas ou trocam o sentido, ou introduzem erros gramaticais, ou acrescentam informações que o texto não autoriza.

O comando pede uma reescritura que mantenha o sentido original e a correção gramatical. Isso significa que a alternativa correta deve ser uma paráfrase — reescrita com outras palavras, mas com o mesmo conteúdo semântico — e não pode conter desvios de norma culta. O trecho original narra a rotina do casal de velhotes: bastava ligar a televisão, ver as cores e os sonos das novelas, e eles adormeciam. A tarefa de adormecer ficava cada vez mais fácil.

A técnica para resolver é comparar cada alternativa com o original, ideia por ideia, verificando se houve: (1) troca de sentido (ex.: "imaginar" em vez de "repassar" — o texto não diz que eles imaginavam, diz que bastava um "repassar de cores e sonos", ou seja, a passagem das imagens na tela); (2) erro gramatical (ex.: concordância, regência); (3) acréscimo de informação (ex.: "apagavam por completo" — o texto não diz que apagavam, diz que adormeciam).

Vamos ao trecho original, que é a nossa bússola:

"Verdade seja escrita que a tarefa se tornava cada vez mais fácil. Bastava um repassar de cores e sonos para que as pestanas ganhassem peso. Até que era só ligar e já adormeciam."

Observe a estrutura lógica: (1) afirmação de que a tarefa (adormecer) ficava mais fácil; (2) condição: bastava um "repassar" (a passagem das imagens e sons da TV) para que as pálpebras pesassem; (3) consequência: era só ligar e eles adormeciam. A alternativa correta deve manter exatamente essa sequência: facilidade crescente → condição → efeito.

Agora, analisemos cada alternativa:

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Conforme passavam os dias, dormir ficava cada vez mais fácil. Com o intuito de imaginar cores e sonos, o sono vinha logo em seguida. Só era só ligar o aparelho e os dois já adormeciam."

Erro: troca de sentido. O original diz "Bastava um repassar de cores e sonos" — "repassar" refere-se à passagem das imagens na tela da TV, algo automático. A alternativa troca por "imaginar", que implica um ato mental voluntário, algo que o texto não diz. Além disso, "Só era só" é uma redundância que fere a correção gramatical (o correto seria "Era só" ou "Só era preciso").

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Com o tempo, adormecer se transformava em uma tarefa cada vez mais fácil. Por conseguinte, as cores e os sonos faziam as pestanas ganharem peso. Depois era só ligar e os dois já adormeciam."

Erro: inversão da relação de causa e consequência. No original, o "repassar de cores e sonos" é a condição para as pestanas ganharem peso ("Bastava... para que..."). Em B, "Por conseguinte" (conclusão) faz parecer que as cores e os sonos são a causa do sono, mas a relação é de condição, não de consequência. Além disso, "ganharem peso" está com a concordância inadequada: o correto seria "ganhassem peso" (pretérito imperfeito do subjuntivo, concordando com "pestanas").

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Precisamos falar a verdade: a tarefa de adormecer ficava cada vez mais fácil. Um simples pensar em cores e sonos e as pestanas já pesavam. Então era só ligar a televisão e ambos adormeciam."

Perfeita paráfrase. Mantém todas as ideias: (1) "Verdade seja escrita" → "Precisamos falar a verdade"; (2) "a tarefa se tornava cada vez mais fácil" → "a tarefa de adormecer ficava cada vez mais fácil"; (3) "Bastava um repassar de cores e sonos" → "Um simples pensar em cores e sonos" (aqui "pensar" é usado no sentido de "repassar mentalmente", o que é aceitável, pois o contexto é o mesmo: a passagem das imagens); (4) "para que as pestanas ganhassem peso" → "e as pestanas já pesavam" (mesma ideia de efeito); (5) "Até que era só ligar e já adormeciam" → "Então era só ligar a televisão e ambos adormeciam" ("ambos" retoma o casal, e "televisão" explicita o aparelho, sem acrescentar informação nova). Gramaticalmente, está correta: concordância, regência e tempos verbais adequados.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"verdade seja escrita: a tarefa se tornava dia a dia mais fácil. Era só imaginar cores e sonos e os olhos já ficavam cansados. Entretanto, bastava ligar o aparelho e os dois já caíam no sono."

Erro: conectivo inadequado. O original usa "Até que" (relação de tempo/sequência) para introduzir a consequência final. Em D, "Entretanto" expressa oposição, o que quebra a lógica: não há oposição entre "imaginar cores e sonos" e "ligar o aparelho". Além disso, "imaginar" novamente troca o sentido de "repassar".

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Era isso o que acontecia: eles pensavam em cores e sonos e os olhos já começavam a fechar. Não obstante, bastava ligar a televisão e os dois já apagavam por completo."

Erro: conectivo inadequado e acréscimo de sentido. "Não obstante" também expressa oposição, mas o original não tem oposição; há uma sequência lógica. Além disso, "apagavam por completo" é um acréscimo: o texto diz apenas "adormeciam", não que "apagavam" (que pode sugerir desligamento total, algo mais forte).

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora trocar conectivos que parecem equivalentes, mas mudam a relação lógica ("até que" por "entretanto" ou "não obstante"), e usar sinônimos que alteram o sentido ("repassar" por "imaginar"). Fique atento a essas trocas.

PEGA ESSA DICA!

Ao reescrever, faça uma lista mental das ideias do original e confira se cada uma aparece na alternativa, sem acréscimos, omissões ou inversões. Desconfie de conectivos que mudam a relação (oposição, causa, conclusão) e de palavras que parecem sinônimas, mas não são.

Conclusão: a alternativa C é a única que mantém o sentido original e a correção gramatical, pois respeita a sequência lógica (facilidade → condição → efeito) e usa palavras equivalentes sem alterar o conteúdo. As demais ou trocam o sentido, ou introduzem erros gramaticais, ou acrescentam informações que o texto não autoriza.

Gabarito: letra C.

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