Leia o conto “A condição geral”, de Carlos Drummond de Andrade,
O barro entendia que estavam abusando de sua docilidade para fabricar cerâmicas vulgares. A água queixou-se de recolher todas as imundícies da Terra, ela que sempre foi sinônimo de limpeza. O boi nem precisou falar: era a imagem da revolta contra o sacrifício da espécie - de todas as espécies imoladas. “E a mim?” - gemeu a árvore -, “a mim, que desempenho função vital no sistema da Terra, tacam-me fogo ou retalham-me a serra e o machado”.
Os quatro concordaram que não está direito. Reclamaram do homem, que lhes declarou que não podia fazer nada. Vive onerado de impostos, afligido de doenças, e mal tem tempo de se coçar. “Em vez de me coçar, acrescentou, “assisto a seriados americanos de televisão, enquanto não se inventa outra coisa. E me entedio. Voltem para seus lugares e guardem o que lhes digo. Vocês pensam que ser homem é fácil?”
(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. Contos plausíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 2012)
No contexto em que se insere, expressa sentido de finalidade o termo sublinhado em:
AO boi nem precisou falar: era a imagem da revolta contra o sacrifício da espécie.
Bdesempenho função vital no sistema da Terra.
Cestavam abusando de sua docilidade para fabricar cerâmicas vulgares.
DVoltem para seus lugares e guardem o que lhes digo.
EVive onerado de impostos, afligido de doenças, e mal tem tempo de se coçar.
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GabaritoC — estavam abusando de sua docilidade para fabricar cerâmicas vulgares.
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Sentido da preposição "para": finalidade no contexto
Gabarito: letra C. A única alternativa em que o termo sublinhado expressa finalidade é a C: "estavam abusando de sua docilidade para fabricar cerâmicas vulgares". A preposição para aí equivale a "a fim de" — indica o objetivo da ação de abusar. Como se lê no 1º parágrafo do conto, o barro entendia que abusavam de sua docilidade com o propósito de fabricar cerâmicas vulgares. Nas demais, o termo sublinhado tem valor meramente relacional (exigido por regência) ou outro sentido nocional, nunca finalidade.
O comando
A questão pede que você identifique, no contexto, o termo que expressa sentido de finalidade. Isso é uma questão de semântica da preposição: não basta saber que "para" é preposição; é preciso ver que relação de sentido ela estabelece naquele trecho específico. A banca (FCC) adora cobrar isso: a mesma preposição pode ter valores diferentes (finalidade, direção, causa, etc.) dependendo do contexto. Aqui, o termo sublinhado em cada alternativa é a preposição "para" (ou a locução "para fabricar"), e você deve testar se ela indica finalidade (= a fim de) ou se é apenas um conector relacional (exigido por um verbo ou nome).
O texto
O conto "A condição geral" apresenta a revolta de elementos da natureza (barro, água, boi, árvore) contra o uso que o homem faz deles. No trecho da alternativa C, o barro reclama: "O barro entendia que estavam abusando de sua docilidade para fabricar cerâmicas vulgares". Aqui, "para fabricar" responde à pergunta: para quê? — qual é o objetivo de abusar da docilidade? Resposta: fabricar cerâmicas. É exatamente o valor de finalidade. Nas outras alternativas, o "para" (ou o termo sublinhado) não tem esse valor: em A, "contra" é preposição de oposição; em B, "no" é preposição de lugar (ou relacional); em D, "para" indica direção** ("Voltem para seus lugares"); em E, "de" é relacional (exigido por "tempo de").
A técnica que decide
A regra de ouro: antes de verbo no infinitivo, a preposição "para" indica finalidade (= a fim de) ou consequência (= a ponto de). No caso, "para fabricar" é claramente finalidade: o barro é usado com o fim de fabricar cerâmicas. Já quando "para" introduz um substantivo (como em "para seus lugares"), o valor é de direção (lugar para onde). E quando a preposição é exigida por regência (como "de" em "tempo de se coçar"), ela é relacional, sem valor nocional próprio. A pegadinha da banca está em oferecer alternativas em que "para" aparece com outros sentidos (direção, por exemplo) ou em que o termo sublinhado é outra preposição sem valor de finalidade. Teste sempre: posso substituir por "a fim de"? Se sim, é finalidade.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre preposição nocional (com sentido próprio, como finalidade) e preposição relacional (mero conector exigido por regência). A letra D, por exemplo, usa "para" com sentido de direção ("Voltem para seus lugares"), o que parece plausível, mas não é finalidade.
Preposição "para" — sentidos: Finalidade (= a fim de) (Antes de verbo no infinitivo, "para fabricar cerâmicas"); Direção (lugar para onde) ("Voltem para seus lugares"); Relacional (regência) ("tempo de se coçar"); Outros valores (Oposição ("contra"), Lugar ("no sistema"))
Alternativa A — ❌ Incorreta
"O boi nem precisou falar: era a imagem da revolta contra o sacrifício da espécie."
O termo sublinhado é a preposição "contra", que expressa oposição (revolta contra algo), não finalidade. Não há ideia de objetivo ou propósito. Erro: troca de sentido — a banca oferece uma preposição com valor claramente diverso.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"desempenho função vital no sistema da Terra."
O termo sublinhado é a preposição "no" (em + o), que indica lugar (no sistema da Terra) ou tem valor relacional. Não expressa finalidade. Erro: troca de sentido — preposição de lugar, não de propósito.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"estavam abusando de sua docilidade para fabricar cerâmicas vulgares."
A preposição "para" antes do verbo no infinitivo "fabricar" expressa finalidade: o abuso da docilidade tem como objetivo fabricar cerâmicas. Substitua por "a fim de": "abusando de sua docilidade a fim de fabricar cerâmicas vulgares" — o sentido se mantém. É a única alternativa em que o termo sublinhado tem valor de finalidade.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Voltem para seus lugares e guardem o que lhes digo."
Aqui, "para" indica direção (lugar para onde se volta), não finalidade. "Voltem para seus lugares" = "voltem em direção a seus lugares". Não há ideia de propósito. Erro: troca de sentido — direção em vez de finalidade.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Vive onerado de impostos, afligido de doenças, e mal tem tempo de se coçar."
O termo sublinhado é a preposição "de", que aqui é relacional (exigida pelo substantivo "tempo": tempo de se coçar). Não tem valor nocional de finalidade. Erro: preposição relacional — não expressa sentido próprio.
Conclusão
A questão testa a semântica da preposição no contexto. A correta é a única em que "para" equivale a "a fim de", indicando finalidade. Nas demais, ou a preposição tem outro valor (oposição, lugar, direção) ou é meramente relacional. Dica: ao encontrar "para" antes de verbo no infinitivo, pergunte: "com que finalidade?" — se a resposta estiver no texto, é finalidade.