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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc146619
Banca
FCC
Órgão
TRT 11
Ano
2024
Cargo
AJ TRT11

Leia o texto “Insolubilia”, de Eduardo Giannett,

 

É difícil encontrar o que se busca quando não se sabe ao certo o que se procura. No que poderia consistir uma solução para o enigma da existência que fizesse sentido em termos humanos? Sabemos o que procuramos quando indagamos do sentido de uma palavra, de uma narrativa ou mesmo de uma vida individual: a semântica do termo; o enredo da trama e a “moral da história”; os valores norteadores e o propósito daquela vida no contexto particular em que ela transcorre. E quando se trata, contudo, da totalidade da vida ou do ser? O nó da questão não é apenas a dificuldade de formular uma conjectura minimamente plausível, mas reside na impossibilidade mesmo de sequer conceber o que possa vir a ser uma resposta adequada: pois, não importa qual seja a conjectura oferecida, ela implicará nova e justificada demanda explicativa, ou seja, um renovado -e possivelmente agravado - senso de mistério.

 

Suponha, por exemplo, que gerações futuras cheguem a descobrir de algum modo o que nos aconteceu e o que tudo, afinal, significa: somos um experimento cientifico abandonado pelos deuses nos confins do “multiverso”; ou o sonho que alguém de outro mundo está sonhando; ou uma pantomima farsesca para a gratificação de um espírito maligno; ou a via crucis probatória da salvação ou danação eterna das almas na eternidade - suponha, em suma, o que for o caso. A revelação do Grande Segredo, é de supor, teria um extraordinário efeito e nos forçaria a repensar em profundidade boa parte do que imaginávamos saber sobre nós mesmos. Ao mesmo tempo, porém, a descoberta de que “pertencemos a algo maior” ou, então, de que “o verdadeiro Deus é o Acaso”, descortinaria uma dimensão adicional da nossa ignorância e tornar-se-ia ela própria o Grande Mistério a ser decifrado. O hierógiifo da existência ganharia uma nova feição e o nosso “Ah! então era isso” serviria apenas como preâmbulo de um potencializado “Mas, então, por que tudo isso?!”. A ignorância infinita desconcerta o saber finito. Seja com o “a” minúsculo das metafisicas seculares ou o “A” maiúsculo das religiões, sempre haverá um além.

O autor dirige-se explicitamente a seu leitor no seguinte trecho:
  1. AÉ difícil encontrar o que se busca quando não se sabe ao certo o que se procura.
  2. BO nó da questão não é apenas a dificuldade de formular uma conjectura minimamente plausível.
  3. CSuponha, por exemplo, que gerações futuras cheguem a descobrir de algum modo o que nos aconteceu.
  4. DSeja com o “a” minúsculo das metafísicas seculares ou o “A” maiúsculo das religiões, sempre haverá um além.
  5. Enão importa qual seja a conjectura oferecida, ela implicará nova e justificada demanda explicativa.
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GabaritoC — Suponha, por exemplo, que gerações futuras cheguem a descobrir de algum modo o que nos aconteceu.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O apelo direto ao leitor: a função conativa no texto de Giannetti

Gabarito: letra C. A única passagem em que o autor se dirige explicitamente ao leitor é "Suponha, por exemplo, que gerações futuras cheguem a descobrir de algum modo o que nos aconteceu", pois o verbo "suponha" está no imperativo, modo verbal que, por definição, convoca o interlocutor a realizar uma ação — aqui, a de imaginar uma hipótese. As demais alternativas são afirmações impessoais ou reflexões do autor, sem qualquer marca de interpelação direta.

O comando da questão é preciso: pede o trecho em que o autor "se dirige explicitamente a seu leitor". Isso não é uma questão de inferência, mas de reconhecimento de um recurso linguístico — a função conativa (apelativa) da linguagem, centrada no receptor. Para resolvê-la, não basta entender o sentido do texto; é preciso identificar a marca gramatical que materializa esse apelo: o modo imperativo (ou um vocativo, que aqui não ocorre).

No texto de Eduardo Giannetti, o autor desenvolve uma reflexão filosófica sobre a impossibilidade de se conceber uma resposta definitiva para o enigma da existência. No segundo parágrafo, ele testa a hipótese de que "gerações futuras" descubram o "Grande Segredo" e, para envolver o leitor nesse exercício mental, usa o imperativo "Suponha". Esse verbo é a chave: ele convoca o leitor a participar do raciocínio, a imaginar uma situação hipotética. É um recurso típico do texto dissertativo-argumentativo para aproximar o interlocutor e torná-lo cúmplice do argumento.

A técnica para resolver é simples e infalível: procure o verbo no imperativo ou um pronome de tratamento (você, leitor). O imperativo é a única forma verbal que, por si só, instaura um interlocutor direto. Nas demais alternativas, os verbos estão no presente do indicativo ("É difícil", "O nó da questão não é", "sempre haverá") ou em estruturas impessoais ("não importa qual seja"), que não estabelecem esse diálogo direto. A banca explora exatamente essa distinção: o candidato que lê apenas o sentido, sem atentar para a forma verbal, pode se perder.

NÃO CAIA NESSA!

A banca não pergunta o que o texto diz, mas como o autor se dirige ao leitor. A armadilha é confundir uma afirmação que menciona o leitor (como "o que nos aconteceu", que usa a 1ª pessoa do plural) com uma que interpela o leitor (o imperativo "Suponha"). A 1ª pessoa do plural inclui o autor e o leitor, mas não é um apelo direto — é uma inclusão retórica.

Função conativa (apelo ao leitor)
  • 1Marca linguística
    • Modo imperativo
    • Vocativo
  • 2Exemplo (gabarito)
    • "Suponha" (imperativo)
    • Convida o leitor a imaginar
  • 3Armadilhas
    • 1ª pessoa do plural ("nos")
      • Inclui, mas não interpela
    • "Seja... ou..." (concessão)
      • Não é apelo
    • Fórmulas impessoais
      • "não importa"
      • "é difícil"
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"É difícil encontrar o que se busca quando não se sabe ao certo o que se procura."

A frase é uma constatação genérica e impessoal. O verbo "É" está no presente do indicativo, sem qualquer marca de interpelação. Não há imperativo, vocativo ou pronome de tratamento. O autor não se dirige a ninguém; apenas enuncia uma dificuldade universal. Erro: ausência de marca de apelo direto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"O nó da questão não é apenas a dificuldade de formular uma conjectura minimamente plausível."

Aqui o autor analisa o problema, mas não convoca o leitor. O verbo "é" está no indicativo, e a estrutura é puramente expositiva. Não há nenhum elemento que estabeleça um diálogo direto com o interlocutor. Erro: ausência de marca de apelo direto.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Suponha, por exemplo, que gerações futuras cheguem a descobrir de algum modo o que nos aconteceu."

O verbo "Suponha" está no modo imperativo, que é a forma verbal usada para dar ordens, fazer pedidos ou convidar o interlocutor a agir. Aqui, o autor convida o leitor a imaginar uma hipótese. Essa é a marca explícita do direcionamento ao leitor. Note que "nos aconteceu" (1ª pessoa do plural) inclui o leitor, mas é o imperativo que materializa o apelo direto. Correta: o imperativo "Suponha" é a prova textual.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Seja com o 'a' minúsculo das metafísicas seculares ou o 'A' maiúsculo das religiões, sempre haverá um além."

Apesar de "Seja" ser formalmente uma forma do subjuntivo (que pode ter valor de imperativo em contextos de concessão), aqui ele não tem função de apelo ao leitor. A estrutura "Seja... ou..." é uma concessão (equivale a "quer... quer..."), e o verbo "haverá" está no futuro do indicativo, numa constatação. Não há convocação direta. Erro: confundir a forma "Seja" (concessiva) com o imperativo de apelo.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"não importa qual seja a conjectura oferecida, ela implicará nova e justificada demanda explicativa."

A expressão "não importa" é uma fórmula impessoal (equivale a "é indiferente"), e o verbo "implicará" está no futuro do indicativo. Não há nenhum elemento que se dirija diretamente ao leitor. É uma afirmação lógica, não um apelo. Erro: ausência de marca de apelo direto.

Conclusão: a questão testa o reconhecimento da função conativa da linguagem. A regra de ouro: o apelo direto ao leitor exige uma marca linguística explícita — o modo imperativo (ou um vocativo). Quando o comando pedir "o autor se dirige ao leitor", procure o verbo no imperativo; não se deixe enganar por frases que apenas mencionam o leitor ou usam a 1ª pessoa do plural.

Gabarito: letra C

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