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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc146625
Banca
FCC
Órgão
MPE AM
Ano
2024
Cargo
Ag Ap ( )

Diz a lenda amazônica que os botos saem do rio, se transformam em moços formosos e conquistam as donzelas, engravidando-as. Vaidoso, na forma humana leva sempre um chapéu na cabeça, supostamente para cobrir o orifício reminiscente da existência aquática. Pode não ser verdade, mas serve como justificação para barrigas inexplicáveis pela ausência de marido. Bem ao modo da natureza social da Amazônia, onde bichos costumam virar gente, e vice-versa. O trânsito de jabutis, onças, peixes e botos entre o que nós, de fora, enxergamos como dois mundos é um verdadeiro carnaval.

 

Mitos e causos à parte, não é que a ciência revela o que os amazônidas já sabiam? Botos machos são mesmo galantes. Como seus primos humanos, muitas vezes partem para atrair fêmeas com um ramalhete – não de fores, mas de plantas aquáticas. Essa imitação barata do comportamento humano é pesquisada por Vera Maria Ferreira da Silva, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), e Tony Martin, do Serviço Antártico Britânico. Não deixa de ser irônico que a instituição de Martin promova estudos em plena região equatorial. Nem, tampouco, que o estudo de Silva se tome público no Brasil por intermédio de uma revista de divulgação britânica, a New Scientist.

 

Silva e Martin estudaram botos-tucuxis por três anos na região amazônica. Avistaram mais de 6.000 grupos em Mamirauá, Tefé (oeste do Estado do Amazonas). Em mais de 200 dessas observações havia um indivíduo carregando objetos com o bico, como um maço de ervas ou um pedaço de pau. Em geral o portador era um macho. Era, portanto, forte a sugestão de que se trata de um comportamento sexual. Para comprovar sua hipótese, Silva e Martin buscaram o socorro da genética. Os resultados preliminares indicam que os mais assíduos portadores de ramos e paus seriam também os reprodutores mais bem-sucedidos. Em português claro, o comportamento seria uma forma de exibicionismo – no bom sentido. Machos exibem objetos vistosos para se valorizar sexualmente aos olhos das fêmeas.

 

O curioso é encontrar o expediente só em alguns grupos isolados desses cetáceos. O padrão parece sugerir que o comportamento só faz parte do repertório de alguns bandos, disseminando-se neles, ou para outros, por imitação e aprendizado. Numa única e controversa palavra, cultura. Não faz muito tempo, essa era uma noção que só fazia sentido aplicar a humanos. “Cultura”, afinal, sempre foi entendida como o oposto de “natureza”. A fronteira, tão cara às ciências humanas, foi ficando menos nítida com as sucessivas documentações, por vários grupos de pesquisa, do uso de ferramentas por outros primatas. Pelo visto, o boto está prestes a subir na escala social.

 

(Adaptado de: LEITE, Marcelo. Ciência: use com cuidado. Campinas: Editora da Unicamp, 2014)

Considere o texto “A irresistível ascensão do boto", de Marcelo Leite.     O autor manifesta-se explicitamente em seu próprio texto no seguinte trecho:
  1. AOs resultados preliminares indicam que os mais assíduos portadores de ramos e paus seriam também os reprodutores mais bem-sucedidos. (3º parágrafo)
  2. BPara comprovar sua hipótese, Silva e Martin buscaram o socorro da genética. (3º parágrafo)
  3. CO trânsito de jabutis, onças, peixes e botos entre o que nós, de fora, enxergamos como dois mundos é um verdadeiro carnaval. (1º parágrafo)
  4. DDiz a lenda amazônica que os botos saem do rio, se transformam em moços formosos e conquistam as donzelas, engravidando-as. (1º parágrafo)
  5. EComo seus primos humanos, muitas vezes partem para atrair fêmeas com um ramalhete – não de flores, mas de plantas aquáticas. (2º parágrafo)
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — O trânsito de jabutis, onças, peixes e botos entre o que nós, de fora, enxergamos como dois mundos é um verdadeiro carnaval. (1º parágrafo)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A voz do autor: onde ele se manifesta explicitamente

Gabarito: letra C. O autor se manifesta explicitamente no trecho em que avalia o trânsito de animais entre os dois mundos como "um verdadeiro carnaval" — expressão claramente opinativa e subjetiva. As demais alternativas são predominantemente informativas ou descritivas, relatando a lenda, a pesquisa ou o comportamento dos botos sem juízo de valor do autor. A passagem que ancora a resposta está no 1º parágrafo:

"O trânsito de jabutis, onças, peixes e botos entre o que nós, de fora, enxergamos como dois mundos é um verdadeiro carnaval."

A expressão "verdadeiro carnaval" é uma metáfora avaliativa: o autor não apenas descreve o fenômeno, mas o qualifica de forma jocosa e positiva, revelando sua opinião pessoal sobre a fluidez entre natureza e cultura na Amazônia.

O comando: o que a banca pede

O enunciado pede o trecho em que o autor "manifesta-se explicitamente em seu próprio texto". Isso significa: identificar a passagem em que a voz do autor aparece de forma direta, com opinião, juízo de valor ou avaliação — e não apenas relato de fatos, lendas ou resultados de pesquisa. É uma questão de compreensão (o que está escrito), não de inferência: a resposta está literalmente no texto, mas exige reconhecer a subjetividade do enunciado.

O texto: tema e movimento argumentativo

O texto de Marcelo Leite discute a descoberta científica de que botos machos usam objetos para atrair fêmeas, aproximando comportamento animal de "cultura". O autor transita entre a lenda amazônica (1º parágrafo), a pesquisa científica (2º e 3º parágrafos) e uma reflexão sobre cultura e natureza (4º parágrafo). A tese do autor é que a fronteira entre natureza e cultura é menos nítida do que se pensava — e ele a defende com um tom leve e irônico.

O trecho da alternativa C é o único em que o autor emite juízo de valor sobre o fenômeno: chamar o trânsito de animais de "verdadeiro carnaval" é uma avaliação subjetiva, não uma informação objetiva. As demais alternativas são relatos — da lenda, da pesquisa, do comportamento — sem que o autor opine diretamente.

A técnica: como identificar opinião explícita

Opinião explícita é aquela em que o autor assume uma posição por meio de adjetivos avaliativos, metáforas, ironia ou modalizadores ("é lamentável", "certamente", "verdadeiro"). No trecho, "verdadeiro carnaval" é um adjetivo + substantivo que carrega carga valorativa: não é uma descrição neutra, mas uma interpretação pessoal do autor sobre a fluidez entre mundos.

Compare com as outras: "os resultados preliminares indicam" (A) é dado de pesquisa; "buscaram o socorro da genética" (B) é relato de método; "Diz a lenda" (D) é discurso reportado; "Como seus primos humanos" (E) é comparação descritiva. Nenhuma delas traz juízo de valor do autor — são informações ou descrições.

Análise das alternativas

Voz do autor (manifestação explícita)
  • 1Opinião / juízo de valor
    • Adjetivos avaliativos
    • Metáforas ("verdadeiro carnaval")
    • Ironia / modalizadores
  • 2Relato / descrição (não é opinião)
    • Dados de pesquisa
    • Método científico
    • Discurso reportado (lenda)
    • Comparação descritiva
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"Os resultados preliminares indicam que os mais assíduos portadores de ramos e paus seriam também os reprodutores mais bem-sucedidos."

Este trecho é informativo: relata os resultados da pesquisa de Silva e Martin. O autor apenas transmite o dado, sem opinar sobre ele. Não há adjetivo avaliativo nem juízo de valor. Erro: tangencia o tema — fala da pesquisa, não da manifestação do autor.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Para comprovar sua hipótese, Silva e Martin buscaram o socorro da genética."

Aqui o autor descreve o método dos pesquisadores. A expressão "socorro da genética" tem leve tom irônico, mas é descritiva do procedimento, não uma opinião sobre o fenômeno. O autor não avalia nada; apenas narra a ação. Erro: tangencia o tema — é relato de método, não manifestação de opinião.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"O trânsito de jabutis, onças, peixes e botos entre o que nós, de fora, enxergamos como dois mundos é um verdadeiro carnaval."

A expressão "verdadeiro carnaval" é metáfora avaliativa: o autor qualifica o fenômeno de forma jocosa e positiva, revelando sua opinião pessoal sobre a fluidez entre natureza e cultura. É o único trecho em que o autor se manifesta explicitamente, com juízo de valor.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Diz a lenda amazônica que os botos saem do rio, se transformam em moços formosos e conquistam as donzelas, engravidando-as."

Este trecho é discurso reportado: o autor cita a lenda, não opina sobre ela. A voz é da tradição popular, não do autor. Não há avaliação — apenas relato do que "diz a lenda". Erro: tangencia o tema — é citação, não manifestação do autor.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Como seus primos humanos, muitas vezes partem para atrair fêmeas com um ramalhete – não de flores, mas de plantas aquáticas."

Aqui o autor compara o comportamento dos botos ao dos humanos, mas de forma descritiva, sem juízo de valor. A expressão "imitação barata" (no parágrafo seguinte) é irônica, mas este trecho específico é neutro — apenas relata o comportamento. Erro: tangencia o tema — é descrição, não opinião.

Conclusão

A questão testa a habilidade de distinguir fato de opinião e de reconhecer a voz do autor. A única alternativa que traz manifestação explícita é a C, com a metáfora "verdadeiro carnaval". As demais são informativas ou descritivas. Gabarito: letra C.

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