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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc146626
Banca
FCC
Órgão
MPE AM
Ano
2024
Cargo
Ag Ap ( )

Diz a lenda amazônica que os botos saem do rio, se transformam em moços formosos e conquistam as donzelas, engravidando-as. Vaidoso, na forma humana leva sempre um chapéu na cabeça, supostamente para cobrir o orifício reminiscente da existência aquática. Pode não ser verdade, mas serve como justificação para barrigas inexplicáveis pela ausência de marido. Bem ao modo da natureza social da Amazônia, onde bichos costumam virar gente, e vice-versa. O trânsito de jabutis, onças, peixes e botos entre o que nós, de fora, enxergamos como dois mundos é um verdadeiro carnaval.

 

Mitos e causos à parte, não é que a ciência revela o que os amazônidas já sabiam? Botos machos são mesmo galantes. Como seus primos humanos, muitas vezes partem para atrair fêmeas com um ramalhete – não de fores, mas de plantas aquáticas. Essa imitação barata do comportamento humano é pesquisada por Vera Maria Ferreira da Silva, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), e Tony Martin, do Serviço Antártico Britânico. Não deixa de ser irônico que a instituição de Martin promova estudos em plena região equatorial. Nem, tampouco, que o estudo de Silva se tome público no Brasil por intermédio de uma revista de divulgação britânica, a New Scientist.

 

Silva e Martin estudaram botos-tucuxis por três anos na região amazônica. Avistaram mais de 6.000 grupos em Mamirauá, Tefé (oeste do Estado do Amazonas). Em mais de 200 dessas observações havia um indivíduo carregando objetos com o bico, como um maço de ervas ou um pedaço de pau. Em geral o portador era um macho. Era, portanto, forte a sugestão de que se trata de um comportamento sexual. Para comprovar sua hipótese, Silva e Martin buscaram o socorro da genética. Os resultados preliminares indicam que os mais assíduos portadores de ramos e paus seriam também os reprodutores mais bem-sucedidos. Em português claro, o comportamento seria uma forma de exibicionismo – no bom sentido. Machos exibem objetos vistosos para se valorizar sexualmente aos olhos das fêmeas.

 

O curioso é encontrar o expediente só em alguns grupos isolados desses cetáceos. O padrão parece sugerir que o comportamento só faz parte do repertório de alguns bandos, disseminando-se neles, ou para outros, por imitação e aprendizado. Numa única e controversa palavra, cultura. Não faz muito tempo, essa era uma noção que só fazia sentido aplicar a humanos. “Cultura”, afinal, sempre foi entendida como o oposto de “natureza”. A fronteira, tão cara às ciências humanas, foi ficando menos nítida com as sucessivas documentações, por vários grupos de pesquisa, do uso de ferramentas por outros primatas. Pelo visto, o boto está prestes a subir na escala social.

 

(Adaptado de: LEITE, Marcelo. Ciência: use com cuidado. Campinas: Editora da Unicamp, 2014)

Considere o texto “A irresistível ascensão do boto", de Marcelo Leite.     De acordo com Marcelo Leite,
  1. Aalguns grupos de botos parecem estar incorporando a cultura humana.
  2. Bas fronteiras entre cultura e natureza não mais se aplicam aos botos.
  3. Ca distinção entre cultura e natureza mostra-se cada vez mais necessária.
  4. Da noção de cultura parece não se aplicar mais aos próprios humanos.
  5. Eindícios de cultura parecem estar presentes em alguns grupos de botos.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — indícios de cultura parecem estar presentes em alguns grupos de botos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A irresistível ascensão do boto: cultura em grupos de cetáceos

Gabarito: letra E. O texto de Marcelo Leite sustenta que indícios de cultura parecem estar presentes em alguns grupos de botos, como se lê no 4º parágrafo: "O padrão parece sugerir que o comportamento só faz parte do repertório de alguns bandos, disseminando-se neles, ou para outros, por imitação e aprendizado. Numa única e controversa palavra, cultura." A alternativa E é a única que parafraseia fielmente essa passagem, sem acrescentar, restringir ou inverter o que o autor afirma.

O comando: compreensão, não inferência

O enunciado pede "De acordo com Marcelo Leite", ou seja, uma questão de compreensão/recorrência: a resposta deve ser uma paráfrase de algo explicitamente dito no texto, sem deduções ou acréscimos. Isso muda tudo na resolução: não se trata de "o que se pode concluir", mas de "o que o autor afirmou". Cada alternativa deve ser testada contra o texto: o autor disse isso? Onde? Se a alternativa exigir que o leitor complete com informação de fora, ela está errada por definição.

O texto: a tese mora no 4º parágrafo

O texto parte da lenda amazônica do boto (1º parágrafo), passa pela pesquisa científica sobre o comportamento de exibição de objetos pelos botos-tucuxis (2º e 3º parágrafos) e chega ao ponto central no 4º parágrafo: a discussão sobre se esse comportamento pode ser chamado de cultura. O autor não afirma que os botos têm cultura humana, nem que a fronteira entre cultura e natureza acabou. Ele diz, com cautela, que o padrão observado "parece sugerir" cultura em alguns grupos.

"O padrão parece sugerir que o comportamento só faz parte do repertório de alguns bandos, disseminando-se neles, ou para outros, por imitação e aprendizado. Numa única e controversa palavra, cultura."

A palavra "parece" é decisiva: o autor não afirma categoricamente, apenas sugere. E "alguns bandos" restringe o alcance: não são todos os botos, nem a espécie inteira. A alternativa E captura exatamente essa cautela e essa restrição.

A técnica: desconfie de absolutos e de inversões

A armadilha central desta questão é a generalização indevida e a troca de sujeito. O texto fala de botos que apresentam indícios de cultura; as distratoras deslocam essa ideia para "cultura humana", "fronteiras entre cultura e natureza", ou "humanos". Ao testar cada alternativa, pergunte: o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora? Palavras como "não mais", "cada vez mais", "próprios humanos" são alertas: quase sempre restringem ou invertem o alcance real do texto.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não diz que botos incorporam a cultura humana. O 4º parágrafo discute se o comportamento dos botos pode ser chamado de cultura, mas no sentido de transmissão por imitação e aprendizado — não de adoção de costumes humanos. A alternativa inverte o sujeito: não são os botos que se humanizam, é a noção de cultura que se amplia para incluir animais.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O autor diz que a fronteira entre cultura e natureza "foi ficando menos nítida" (4º parágrafo), não que "não mais se aplica". A alternativa usa um absoluto — "não mais" — que o texto não sustenta. A fronteira ficou menos nítida, mas continua existindo; o autor não a declara extinta.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O texto afirma o oposto: a distinção entre cultura e natureza "foi ficando menos nítida" (4º parágrafo). A alternativa diz que essa distinção "mostra-se cada vez mais necessária", o que é exatamente o contrário do que o autor escreveu. A banca trocou "menos nítida" por "mais necessária" — uma inversão de sentido.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação e troca de sujeito. O texto não diz que a noção de cultura não se aplica mais aos humanos. O 4º parágrafo diz que "essa era uma noção que só fazia sentido aplicar a humanos" e que agora também se aplica a outros animais. A alternativa inverte a direção: não é que os humanos perderam a cultura, é que os animais ganharam indícios dela.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Paráfrase fiel do 4º parágrafo. O texto diz que o comportamento de exibir objetos "só faz parte do repertório de alguns bandos" e que isso pode ser chamado de "cultura". A alternativa E diz: "indícios de cultura parecem estar presentes em alguns grupos de botos". A correspondência é exata:

Texto

Alternativa E

"parece sugerir"

"parecem estar presentes"

"alguns bandos"

"alguns grupos de botos"

"cultura"

"indícios de cultura"

A alternativa preserva a cautela do autor ("parecem") e a restrição ("alguns grupos"), sem extrapolar ou inverter nada.

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora deslocar o sujeito. O texto fala de botos com indícios de cultura; as distratoras falam de cultura humana, fronteiras extintas ou humanos sem cultura. Teste sempre: quem é o sujeito da afirmação no texto?

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, grife as palavras de cautela ("parece", "sugere", "alguns") e os absolutos ("não mais", "cada vez mais", "todos"). A alternativa correta respeita o alcance exato do texto; a errada quase sempre o amplia ou inverte.

Gabarito: letra E. A resposta é a única que o texto sustenta integralmente: o autor sugere, com cautela, que alguns grupos de botos apresentam indícios de cultura — nem mais, nem menos do que isso.

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