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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc146628
Banca
FCC
Órgão
MPE AM
Ano
2024
Cargo
Ag Ap ( )

Diz a lenda amazônica que os botos saem do rio, se transformam em moços formosos e conquistam as donzelas, engravidando-as. Vaidoso, na forma humana leva sempre um chapéu na cabeça, supostamente para cobrir o orifício reminiscente da existência aquática. Pode não ser verdade, mas serve como justificação para barrigas inexplicáveis pela ausência de marido. Bem ao modo da natureza social da Amazônia, onde bichos costumam virar gente, e vice-versa. O trânsito de jabutis, onças, peixes e botos entre o que nós, de fora, enxergamos como dois mundos é um verdadeiro carnaval.

 

Mitos e causos à parte, não é que a ciência revela o que os amazônidas já sabiam? Botos machos são mesmo galantes. Como seus primos humanos, muitas vezes partem para atrair fêmeas com um ramalhete – não de fores, mas de plantas aquáticas. Essa imitação barata do comportamento humano é pesquisada por Vera Maria Ferreira da Silva, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), e Tony Martin, do Serviço Antártico Britânico. Não deixa de ser irônico que a instituição de Martin promova estudos em plena região equatorial. Nem, tampouco, que o estudo de Silva se tome público no Brasil por intermédio de uma revista de divulgação britânica, a New Scientist.

 

Silva e Martin estudaram botos-tucuxis por três anos na região amazônica. Avistaram mais de 6.000 grupos em Mamirauá, Tefé (oeste do Estado do Amazonas). Em mais de 200 dessas observações havia um indivíduo carregando objetos com o bico, como um maço de ervas ou um pedaço de pau. Em geral o portador era um macho. Era, portanto, forte a sugestão de que se trata de um comportamento sexual. Para comprovar sua hipótese, Silva e Martin buscaram o socorro da genética. Os resultados preliminares indicam que os mais assíduos portadores de ramos e paus seriam também os reprodutores mais bem-sucedidos. Em português claro, o comportamento seria uma forma de exibicionismo – no bom sentido. Machos exibem objetos vistosos para se valorizar sexualmente aos olhos das fêmeas.

 

O curioso é encontrar o expediente só em alguns grupos isolados desses cetáceos. O padrão parece sugerir que o comportamento só faz parte do repertório de alguns bandos, disseminando-se neles, ou para outros, por imitação e aprendizado. Numa única e controversa palavra, cultura. Não faz muito tempo, essa era uma noção que só fazia sentido aplicar a humanos. “Cultura”, afinal, sempre foi entendida como o oposto de “natureza”. A fronteira, tão cara às ciências humanas, foi ficando menos nítida com as sucessivas documentações, por vários grupos de pesquisa, do uso de ferramentas por outros primatas. Pelo visto, o boto está prestes a subir na escala social.

 

(Adaptado de: LEITE, Marcelo. Ciência: use com cuidado. Campinas: Editora da Unicamp, 2014)

Considere o texto “A irresistível ascensão do boto", de Marcelo Leite.     No final do 2º paragrafo, o autor refere-se explicitamente a duas ironias. Umas dessas ironias reside no fato de
  1. Ao Serviço Antártico Britânico realizar estudos na região amazônica.
  2. Bo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia ter solicitado ajuda ao governo britânico.
  3. Cestudo sobre a região amazônica não ter sido levado a sério no Brasil.
  4. Do estudo sobre a região amazônica ter sido publicado pelo Serviço Antártico Britânico.
  5. Ea revista New Scientist ser, na verdade, uma publicação brasileira.
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GabaritoA — o Serviço Antártico Britânico realizar estudos na região amazônica.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A ironia no 2º parágrafo: o Serviço Antártico Britânico na Amazônia

Gabarito: letra A. A ironia apontada pelo autor reside no fato de o Serviço Antártico Britânico — instituição cujo nome remete à Antártida, região polar — promover estudos na região equatorial amazônica. O texto afirma explicitamente: "Não deixa de ser irônico que a instituição de Martin promova estudos em plena região equatorial." A alternativa A é a única que reproduz fielmente essa contradição entre o nome da instituição (Antártico) e o local de estudo (Amazônia, região equatorial).

O comando pede uma compreensão/recorrência: "o autor refere-se explicitamente a duas ironias. Uma dessas ironias reside no fato de...". Isso significa que a resposta está literalmente no texto, bastando localizar a passagem e identificar qual das alternativas a parafraseia corretamente. Não há inferência a fazer: o autor nomeia a ironia e a explica. A tarefa é de localização e paráfrase, não de dedução.

No 2º parágrafo, o autor apresenta as duas ironias em sequência. A primeira é sobre a instituição de Martin; a segunda, sobre a divulgação do estudo. Vejamos o trecho decisivo:

"Não deixa de ser irônico que a instituição de Martin promova estudos em plena região equatorial. Nem, tampouco, que o estudo de Silva se tome público no Brasil por intermédio de uma revista de divulgação britânica, a New Scientist."

A primeira ironia está na contradição entre o nome da instituição — "Serviço Antártico Britânico" — e o local onde ela atua: a Amazônia, "plena região equatorial". A segunda ironia está no fato de um estudo brasileiro (do INPA) tornar-se público no Brasil por meio de uma revista britânica. A alternativa A captura exatamente a primeira ironia.

A técnica para resolver: grife as palavras que o autor usa para sinalizar a ironia ("irônico", "tampouco") e identifique o contraste que ele estabelece. Na primeira ironia, o contraste é entre "Antártico" (polar) e "equatorial" (tropical). Na segunda, entre "Brasil" e "britânica". A alternativa correta precisa reproduzir esse contraste sem acrescentar nada.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a troca de referente. As alternativas B, C e D mencionam elementos reais do texto (INPA, Brasil, Serviço Antártico), mas invertem ou acrescentam relações que não existem. A letra E é uma extrapolação absurda — o texto diz que a revista é britânica, não brasileira. A única que mantém a relação exata do texto é a A.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que a ironia reside no fato de "o Serviço Antártico Britânico realizar estudos na região amazônica". Isso é uma paráfrase fiel do trecho: "Não deixa de ser irônico que a instituição de Martin promova estudos em plena região equatorial." O nome "Serviço Antártico" evoca a Antártida (região polar), e o texto diz que a instituição promove estudos na "região equatorial" (Amazônia). A contradição entre o nome e o local é exatamente a ironia apontada. A alternativa não acrescenta nem suprime nada.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Afirma que "o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia ter solicitado ajuda ao governo britânico". O texto diz que Silva e Martin buscaram "o socorro da genética" (3º parágrafo), não que o INPA solicitou ajuda ao governo britânico. A alternativa extrapola: inventa uma relação institucional que não está no texto. O erro é do tipo fora_do_escopo — acrescenta informação ausente.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Afirma que "estudo sobre a região amazônica não ter sido levado a sério no Brasil". O texto não diz isso em nenhum momento. A ironia mencionada é sobre a divulgação do estudo por uma revista britânica, não sobre a seriedade com que o estudo foi tratado no Brasil. A alternativa contradiz o texto ao introduzir um juízo de valor ("não levado a sério") que o autor não externou. É uma opinião embutida.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Afirma que "o estudo sobre a região amazônica ter sido publicado pelo Serviço Antártico Britânico". O texto diz que o estudo foi divulgado "por intermédio de uma revista de divulgação britânica, a New Scientist" — não pelo Serviço Antártico. A alternativa troca o referente: atribui a publicação à instituição de Martin, quando o texto atribui à revista. O erro é troca_conceito — confunde a instituição com a revista.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Afirma que "a revista New Scientist ser, na verdade, uma publicação brasileira". O texto diz explicitamente que a New Scientist é "uma revista de divulgação britânica". A alternativa contradiz o texto de forma direta, invertendo a nacionalidade da revista. É o erro mais grosseiro, pois basta reler o trecho para refutá-la.

Conclusão: a questão testa a localização de informação explícita e a identificação de ironia como contraste entre expectativa e realidade. A alternativa A é a única que reproduz a relação exata estabelecida pelo autor: a instituição cujo nome remete ao polo (Antártico) atua no equador (Amazônia). As demais ou extrapolam, ou trocam referentes, ou contradizem o texto. Gabarito: letra A.

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