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Questão de Português — Conjunção — FCC 2024

PortuguêsConjunção
Código
fc146629
Banca
FCC
Órgão
MPE AM
Ano
2024
Cargo
Ag Ap ( )

Diz a lenda amazônica que os botos saem do rio, se transformam em moços formosos e conquistam as donzelas, engravidando-as. Vaidoso, na forma humana leva sempre um chapéu na cabeça, supostamente para cobrir o orifício reminiscente da existência aquática. Pode não ser verdade, mas serve como justificação para barrigas inexplicáveis pela ausência de marido. Bem ao modo da natureza social da Amazônia, onde bichos costumam virar gente, e vice-versa. O trânsito de jabutis, onças, peixes e botos entre o que nós, de fora, enxergamos como dois mundos é um verdadeiro carnaval.

 

Mitos e causos à parte, não é que a ciência revela o que os amazônidas já sabiam? Botos machos são mesmo galantes. Como seus primos humanos, muitas vezes partem para atrair fêmeas com um ramalhete – não de fores, mas de plantas aquáticas. Essa imitação barata do comportamento humano é pesquisada por Vera Maria Ferreira da Silva, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), e Tony Martin, do Serviço Antártico Britânico. Não deixa de ser irônico que a instituição de Martin promova estudos em plena região equatorial. Nem, tampouco, que o estudo de Silva se tome público no Brasil por intermédio de uma revista de divulgação britânica, a New Scientist.

 

Silva e Martin estudaram botos-tucuxis por três anos na região amazônica. Avistaram mais de 6.000 grupos em Mamirauá, Tefé (oeste do Estado do Amazonas). Em mais de 200 dessas observações havia um indivíduo carregando objetos com o bico, como um maço de ervas ou um pedaço de pau. Em geral o portador era um macho. Era, portanto, forte a sugestão de que se trata de um comportamento sexual. Para comprovar sua hipótese, Silva e Martin buscaram o socorro da genética. Os resultados preliminares indicam que os mais assíduos portadores de ramos e paus seriam também os reprodutores mais bem-sucedidos. Em português claro, o comportamento seria uma forma de exibicionismo – no bom sentido. Machos exibem objetos vistosos para se valorizar sexualmente aos olhos das fêmeas.

 

O curioso é encontrar o expediente só em alguns grupos isolados desses cetáceos. O padrão parece sugerir que o comportamento só faz parte do repertório de alguns bandos, disseminando-se neles, ou para outros, por imitação e aprendizado. Numa única e controversa palavra, cultura. Não faz muito tempo, essa era uma noção que só fazia sentido aplicar a humanos. “Cultura”, afinal, sempre foi entendida como o oposto de “natureza”. A fronteira, tão cara às ciências humanas, foi ficando menos nítida com as sucessivas documentações, por vários grupos de pesquisa, do uso de ferramentas por outros primatas. Pelo visto, o boto está prestes a subir na escala social.

 

(Adaptado de: LEITE, Marcelo. Ciência: use com cuidado. Campinas: Editora da Unicamp, 2014)

Considere o texto “A irresistível ascensão do boto", de Marcelo Leite.

   

Era, portanto, forte a sugestão de que se trata de um comportamento sexual. (3º parágrafo)

 

Considerando o contexto, o termo sublinhado acima pode ser substituído, sem prejuízo para o sentido do texto, por:

  1. Aapesar disso
  2. Bno entanto
  3. Calém disso
  4. Dpor conseguinte
  5. Enão obstante
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — por conseguinte

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O valor conclusivo de "portanto" no texto de Marcelo Leite

Gabarito: letra D. O termo "portanto" expressa conclusão — e a única alternativa que preserva esse valor é "por conseguinte". A passagem que ancora a resposta é: "Em mais de 200 dessas observações havia um indivíduo carregando objetos com o bico... Em geral o portador era um macho. Era, portanto, forte a sugestão de que se trata de um comportamento sexual." O conectivo introduz a consequência lógica dos dados observados (machos carregando objetos), não uma oposição, adição ou ressalva.

O comando: substituição sem prejuízo de sentido

A questão pede que você substitua o conectivo "portanto" por outro equivalente no contexto — ou seja, que mantenha a relação de sentido que ele estabelece entre as ideias. Isso não é uma questão de "sinônimo perfeito" fora do texto; é uma questão de valor semântico do conectivo dentro do parágrafo. O comando "sem prejuízo para o sentido" significa: a nova palavra deve continuar expressando a mesma relação lógica que o original expressava.

O texto: a lógica do parágrafo

No 3º parágrafo, o autor descreve a pesquisa: os cientistas observaram mais de 6.000 grupos de botos; em mais de 200 observações, um indivíduo carregava objetos; e "em geral o portador era um macho". A partir desses fatos observados, o autor tira uma conclusão: "Era, portanto, forte a sugestão de que se trata de um comportamento sexual." O "portanto" marca exatamente essa passagem: dos dados para a inferência. É uma relação de causa e consequência lógica — os fatos (causa) levam à sugestão (consequência/conclusão).

A técnica: classificar o conectivo pelo contexto

"Portanto" é uma conjunção coordenativa conclusiva — introduz uma oração que expressa conclusão ou consequência do que foi dito antes. As conjunções conclusivas típicas são: logo, pois (posposto ao verbo), por conseguinte, por isso, assim, então. A alternativa D, "por conseguinte", é exatamente uma locução conjuntiva conclusiva, sinônima de "portanto".

As demais alternativas são adversativas (oposição, quebra de expectativa): "apesar disso", "no entanto", "não obstante" — e "além disso" é aditiva (soma). Nenhuma delas expressa conclusão.

1Conclusivos
Portanto
Por conseguinte
Logo, pois, assim
2Adversativos
Apesar disso
No entanto
Não obstante
3Aditivos
Além disso
Também
Conectivos coordenativos
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Conectivos coordenativos: Conclusivos (Portanto, Por conseguinte, Logo, pois, assim); Adversativos (Apesar disso, No entanto, Não obstante); Aditivos (Além disso, Também)

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Apesar disso" é uma locução adversativa/concessiva — expressa oposição ou ressalva (equivale a "mesmo assim", "ainda assim"). No texto, não há oposição entre os dados e a conclusão; ao contrário, a conclusão é a consequência direta dos dados. Substituir "portanto" por "apesar disso" inverteria a relação lógica: daria a entender que a sugestão de comportamento sexual contraria o fato de os portadores serem machos — o que não faz sentido. Erro: troca de valor semântico (conclusivo → adversativo).

Alternativa B — ❌ Incorreta

"No entanto" é uma locução adversativa — expressa oposição, quebra de expectativa (equivale a "mas", "porém"). No trecho, não há quebra de expectativa: a sugestão de comportamento sexual é a conclusão esperada a partir dos dados. Usar "no entanto" criaria uma falsa oposição entre as observações e a interpretação. Erro: troca de valor semântico (conclusivo → adversativo).

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Além disso" é uma locução aditiva — expressa soma, acréscimo de informação (equivale a "e", "também"). No texto, a frase "Era forte a sugestão..." não acrescenta um dado novo; ela conclui a partir dos dados já apresentados. Substituir por "além disso" faria parecer que a sugestão é mais uma observação entre outras, e não a consequência lógica delas. Erro: troca de valor semântico (conclusivo → aditivo).

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Por conseguinte" é uma locução conclusiva — expressa conclusão, consequência (equivale a "portanto", "logo", "por isso"). É exatamente o valor que o conectivo original tem no texto: os dados observados (machos carregando objetos) levam à conclusão de que se trata de comportamento sexual. A substituição preserva integralmente a relação lógica do parágrafo. Correta: mantém o valor conclusivo.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Não obstante" é uma locução adversativa — expressa oposição, ressalva (equivale a "no entanto", "apesar disso"). Assim como as alternativas A e B, ela introduziria uma quebra de expectativa que não existe no texto. A conclusão é a consequência natural dos fatos, não uma exceção a eles. Erro: troca de valor semântico (conclusivo → adversativo).

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre conjunções conclusivas e adversativas. "Portanto" e "por conseguinte" são conclusivas; "apesar disso", "no entanto" e "não obstante" são adversativas. No contexto, a relação é de causa → consequência, não de oposição.

PEGA ESSA DICA!

Ao substituir um conectivo, pergunte: que relação lógica ele estabelece entre as orações? Se os fatos levam a uma conclusão, o conectivo é conclusivo; se há quebra de expectativa, é adversativo. Teste cada alternativa substituindo-a no trecho e veja se o sentido continua coerente.

Gabarito: letra D — "por conseguinte" é a única alternativa que preserva o valor conclusivo de "portanto" no contexto.

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