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Questão de Português — Orações Reduzidas — FCC 2024

PortuguêsOrações Reduzidas
Código
fc146630
Banca
FCC
Órgão
MPE AM
Ano
2024
Cargo
Ag Ap ( )

Diz a lenda amazônica que os botos saem do rio, se transformam em moços formosos e conquistam as donzelas, engravidando-as. Vaidoso, na forma humana leva sempre um chapéu na cabeça, supostamente para cobrir o orifício reminiscente da existência aquática. Pode não ser verdade, mas serve como justificação para barrigas inexplicáveis pela ausência de marido. Bem ao modo da natureza social da Amazônia, onde bichos costumam virar gente, e vice-versa. O trânsito de jabutis, onças, peixes e botos entre o que nós, de fora, enxergamos como dois mundos é um verdadeiro carnaval.

 

Mitos e causos à parte, não é que a ciência revela o que os amazônidas já sabiam? Botos machos são mesmo galantes. Como seus primos humanos, muitas vezes partem para atrair fêmeas com um ramalhete – não de fores, mas de plantas aquáticas. Essa imitação barata do comportamento humano é pesquisada por Vera Maria Ferreira da Silva, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), e Tony Martin, do Serviço Antártico Britânico. Não deixa de ser irônico que a instituição de Martin promova estudos em plena região equatorial. Nem, tampouco, que o estudo de Silva se tome público no Brasil por intermédio de uma revista de divulgação britânica, a New Scientist.

 

Silva e Martin estudaram botos-tucuxis por três anos na região amazônica. Avistaram mais de 6.000 grupos em Mamirauá, Tefé (oeste do Estado do Amazonas). Em mais de 200 dessas observações havia um indivíduo carregando objetos com o bico, como um maço de ervas ou um pedaço de pau. Em geral o portador era um macho. Era, portanto, forte a sugestão de que se trata de um comportamento sexual. Para comprovar sua hipótese, Silva e Martin buscaram o socorro da genética. Os resultados preliminares indicam que os mais assíduos portadores de ramos e paus seriam também os reprodutores mais bem-sucedidos. Em português claro, o comportamento seria uma forma de exibicionismo – no bom sentido. Machos exibem objetos vistosos para se valorizar sexualmente aos olhos das fêmeas.

 

O curioso é encontrar o expediente só em alguns grupos isolados desses cetáceos. O padrão parece sugerir que o comportamento só faz parte do repertório de alguns bandos, disseminando-se neles, ou para outros, por imitação e aprendizado. Numa única e controversa palavra, cultura. Não faz muito tempo, essa era uma noção que só fazia sentido aplicar a humanos. “Cultura”, afinal, sempre foi entendida como o oposto de “natureza”. A fronteira, tão cara às ciências humanas, foi ficando menos nítida com as sucessivas documentações, por vários grupos de pesquisa, do uso de ferramentas por outros primatas. Pelo visto, o boto está prestes a subir na escala social.

 

(Adaptado de: LEITE, Marcelo. Ciência: use com cuidado. Campinas: Editora da Unicamp, 2014)

Considere o texto “A irresistível ascensão do boto", de Marcelo Leite.

   

Machos exibem objetos vistosos para se valorizar sexualmente aos olhos das fêmeas. (3º parágrafo)

 

Em relação à oração que a precede, a oração sublinhada expressa ideia de

  1. Aproporção.
  2. Bconsequência.
  3. Ccondição.
  4. Dfinalidade.
  5. Ecausa.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — finalidade.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Orações subordinadas adverbiais finais: o valor de "para" no trecho do boto

Gabarito: letra D. A oração sublinhada "para se valorizar sexualmente aos olhos das fêmeas" expressa finalidade, pois indica o objetivo da ação de "exibir objetos vistosos". A preposição "para" é o conectivo típico de finalidade, e a oração reduzida de infinitivo pode ser desenvolvida como "para que se valorizem" — marca clássica de oração subordinada adverbial final. Como se lê no 3º parágrafo: "Machos exibem objetos vistosos para se valorizar sexualmente aos olhos das fêmeas."

A questão é de gramática aplicada ao texto: não se pede interpretação do conteúdo, mas o reconhecimento do valor semântico de uma oração reduzida de infinitivo. O comando "expressa ideia de" exige que você identifique a circunstância que a oração sublinhada acrescenta à oração principal. Aqui, a oração principal é "Machos exibem objetos vistosos" e a sublinhada responde à pergunta "para quê?" — exibem objetos com que finalidade? — para se valorizar. Essa pergunta é o teste decisivo: se a oração responde a "para quê", é finalidade; se respondesse a "por quê", seria causa; se a "em que condições", condição.

No texto, o autor explica que o comportamento dos botos é "uma forma de exibicionismo – no bom sentido", e completa: "Machos exibem objetos vistosos para se valorizar sexualmente aos olhos das fêmeas." A relação é de propósito: a exibição é o meio, e a valorização sexual é o fim. Não há relação de causa (a exibição não é causada pela valorização), nem de consequência (a valorização não é efeito da exibição), nem de condição ou proporção. A preposição "para" é o conectivo que, por excelência, introduz orações subordinadas adverbiais finais, mesmo em sua forma reduzida de infinitivo.

A técnica para resolver: desenvolva a oração reduzida. Toda oração reduzida de infinitivo pode ser transformada em oração desenvolvida com conjunção. "Para se valorizar" vira "para que se valorizem" — e "para que" é a locução conjuntiva final por excelência. Se a oração desenvolvida usa "para que", a classificação é finalidade, sem margem para dúvida. Esse é o mesmo raciocínio que se aplica a "a fim de que", "com o intuito de", "com o objetivo de".

NÃO CAIA NESSA!

A banca aposta na confusão entre finalidade e causa/consequência. Muitos candidatos leem "para" e pensam em causa ("porque quer se valorizar"), mas a preposição "para" nunca introduz causa — introduz finalidade. A causa seria expressa por "porque", "já que", "visto que".

1Finalidade
Conectivo: para, a fim de que
Pergunta: "para quê?"
Ex.: "para se valorizar"
2Causa
Conectivo: porque, já que
Pergunta: "por quê?"
3Consequência
Conectivo: de modo que, tão... que
Pergunta: "o que resultou?"
4Condição
Conectivo: se, caso, desde que
Pergunta: "em que condições?"
5Proporção
Conectivo: à medida que
Pergunta: "em que proporção?"
Orações subordinadas adverbiais
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Orações subordinadas adverbiais: Finalidade (Conectivo: para, a fim de que, Pergunta: "para quê?", Ex.: "para se valorizar"); Causa (Conectivo: porque, já que, Pergunta: "por quê?"); Consequência (Conectivo: de modo que, tão... que, Pergunta: "o que resultou?"); Condição (Conectivo: se, caso, desde que, Pergunta: "em que condições?"); Proporção (Conectivo: à medida que, Pergunta: "em que proporção?")

Alternativa A — ❌ Incorreta

Proporção expressa uma relação de simultaneidade ou paralelismo entre dois fatos, como em "à medida que estudava, compreendia mais". No trecho, não há dois eventos que crescem ou variam juntos; há apenas um objetivo a ser alcançado. A oração sublinhada não responde a "em que proporção?", mas a "para quê?". Erro: troca de conceito — confunde finalidade com proporcionalidade.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Consequência seria expressa por "de modo que", "tão... que", "de forma que", indicando um efeito que decorre naturalmente da ação. No trecho, a valorização sexual não é consequência da exibição; é o propósito dela. A relação é de intenção, não de efeito. Erro: troca de conceito — confunde finalidade com consequência.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Condição seria expressa por "se", "caso", "desde que", indicando uma hipótese necessária para a realização do fato. No trecho, não há condição: a oração sublinhada não diz "se se valorizarem", mas "para se valorizarem". A valorização não é condição da exibição; é o objetivo dela. Erro: troca de conceito — confunde finalidade com condicionalidade.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A oração "para se valorizar sexualmente aos olhos das fêmeas" é uma subordinada adverbial final reduzida de infinitivo. A preposição "para" + infinitivo é a estrutura típica de finalidade, e a oração desenvolvida seria "para que se valorizem". O sentido é de propósito: os machos exibem objetos com a finalidade de se valorizar. A passagem do texto confirma: "Machos exibem objetos vistosos para se valorizar sexualmente aos olhos das fêmeas." Correta — é a única que nomeia a relação de finalidade.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Causa seria expressa por "porque", "já que", "visto que", indicando o motivo que origina a ação. No trecho, a valorização sexual não é a causa da exibição; é o objetivo dela. A exibição não acontece porque os machos se valorizam; acontece para que se valorizem. Erro: troca de conceito — confunde finalidade com causalidade, a pegadinha mais comum com a preposição "para".

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o valor de uma oração, faça a pergunta certa: "para quê?" → finalidade; "por quê?" → causa; "em que condições?" → condição; "em que proporção?" → proporção; "o que resultou?" → consequência. A pergunta que a oração responde define a classificação.

Gabarito: letra D.

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