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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc146634
Banca
FCC
Órgão
MPE AM
Ano
2024
Cargo
Ag Ap ( )

O caso deu-se aqui na Ilha, numa pescaria de arrastão. Da primeira redada velo um tal peixe que causou espanto: ninguém podia crer que naquele côncavo de mar morasse tanto peixe assim. Havia de ser alguma piracema que ia passando, para lá de três toneladas de pescado foram apanhadas de uma só vez. Na segunda redada nada veio, ou quase nada – fugira a piracema ou fora toda colhida pela rede. Entretanto, no meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho: uma tartaruga do mar. Tartaruga diferente daquelas fluviais que a gente conhece, tartaruga das profundezas salinas, meio peixe, porque em vez de pernas tem nadadeiras.

 

Primeiro ela se debateu e tentou de todas as maneiras furar a malha. Depois foi agarrada e atirada ignominiosamente na areia, de barriga para cima. Por fim puseram-na em posição normal; e ela, recuperando imediatamente a compostura, estirou o pescoço enrugado e correu em torno de si um olho temeroso. Não sei se os presentes compreenderam quanto havia de surpresa, terror e pasmo nos olhos da tartaruga. Muito pior que um bicho da terra pego numa rede: este pode estranhar a prisão, mas afinal continua dentro de um elemento conhecido, pisando chão, vendo árvores familiares, sentindo o cheiro da terra. A tartaruga não: para ela, nascida e vivida no mar, aquela era a mais estranha, a mais inacreditável e terrível das aventuras. Para aquela tartaruga era o mesmo que seria para um de nós vermo-nos transportados subitamente, sem dano físico, até o fundo do mar. Imagine que estranho, que portentoso e medonho não parece. As caras desconhecidas de ignorados animais – no caso, homens. E todos, todos, canibais ou pior que isso – pois bem sentia ela sobre o seu casco grosso, sobre a carapaça encaracada, o olhar doce e alento e cobiçoso dos comedores de came.

 

A sorte da coitada foi ninguém chegar a um acordo sobre a forma de abatê-la. E sorte maior o fato de ninguém, pessoalmente, querer se responsabilizar pela carnificina naquela quinta-feira santa. Mas levaram-na para o galinheiro – que ignomínia, uma veterana dos sete mares a ser atirada entre as galinhas, na noite que deveria ser a última da sua vida; ela que decerto esperava sepultar-se entre areias claras, nalgum maciço colorido de anêmonas do mar. Mas felizmente para a tartaruga, incerto é o coração do homem, incertos, os seus impulsos. Tanto vai para um lado como para o outro, tanto procura devorar hoje o seu irmão bicho, como amanhã o festeja e liberta. O fato é que um coração se apiedou da tragédia e houve mão que abriu a porta da capoeira e encaminhou a marcha rampante do bicho marinho em direção da praia, em direção do mar, sua pátria. Ela também não esperou arrependimento, não hesitou, não agradeceu. Cortou a areia deixando um rastro longo, penetrou na água como um barco a deslizar do estaleiro, mergulhou, emergiu, voltou a cabeça ainda assustada para aquele mundo sujo, escuro, inimigo, onde viviam os homens, onde esperava nunca mais voltar; e mergulhou de novo, abraçando toda a água que podia entre as nadadeiras abertas.

 

(Adaptado de: QUEIROZ, Rachel de. 100 crônicas escolhidas: um alpendre, uma rede, um açude. Rio de Janeiro: José Olympio, 2021)

Considere a crônica “Tartaruga de arrastão”, de Rachel de Queiroz.     Rachel de Queiroz dirige-se diretamente a seu leitor no seguinte trecho da crônica:
  1. AA sorte da coitada foi ninguém chegar a um acordo sobre a forma de abatê-la. (3º parágrafo)
  2. BEla também não esperou arrependimento, não hesitou, não agradeceu. (3º parágrafo)
  3. CImagine que estranho, que portentoso e medonho não parece. (2º parágrafo)
  4. DPrimeiro ela se debateu e tentou de todas as maneiras furar a malha. (2º parágrafo)
  5. ENão sei se os presentes compreenderam quanto havia de surpresa, terror e pasmo nos olhos da tartaruga. (2º parágrafo)
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Imagine que estranho, que portentoso e medonho não parece. (2º parágrafo)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Interpelação direta ao leitor na crônica de Rachel de Queiroz

Gabarito: letra C. O trecho "Imagine que estranho, que portentoso e medonho não parece" é o único em que a autora se dirige diretamente ao leitor, usando o verbo imaginar no imperativo para convidá-lo a participar da cena. As demais alternativas narram ou descrevem os fatos sem interpelar quem lê.

A questão pede que se identifique o momento em que a narradora rompe o fluxo narrativo e fala com o leitor, não apenas sobre os acontecimentos. Isso é uma marca de função conativa/apelativa da linguagem, em que o foco está no receptor da mensagem. Na crônica, Rachel de Queiroz constrói um diálogo implícito com quem a lê, convidando-o a imaginar a situação da tartaruga.

No 2º parágrafo, após descrever o espanto da tartaruga ao ser retirada do mar, a autora escreve:

"Para aquela tartaruga era o mesmo que seria para um de nós vermo-nos transportados subitamente, sem dano físico, até o fundo do mar. Imagine que estranho, que portentoso e medonho não parece."

O verbo "Imagine" está no imperativo afirmativo, segunda pessoa do discurso (tu/você), e é o elemento que materializa o chamamento ao leitor. A autora não está apenas contando um fato; ela está solicitando uma ação mental de quem lê: que imagine a cena. Esse é o traço distintivo da interpelação direta.

As outras alternativas, embora façam parte da mesma crônica, mantêm o leitor como mero espectador. Nelas, a narradora descreve ações da tartaruga ou dos pescadores, ou expressa suas próprias dúvidas, mas não se volta ao leitor com um pedido ou convite. A diferença é sutil, mas decisiva: na letra C, o leitor é convocado a participar; nas demais, ele apenas observa.

Interpelação direta ao leitor
  • 1Marca linguística
    • Verbo no imperativo (Imagine, Veja, Note)
    • Pronome de 2ª pessoa (você, te, lhe)
  • 2Função da linguagem
    • Conativa/apelativa (foco no receptor)
  • 3Efeito
    • Convida o leitor a participar
    • Rompe o fluxo narrativo
  • 4Confusão comum
    • 1ª pessoa ("Não sei") ≠ interpelação
    • Indicativo (constatação) ≠ imperativo (chamamento)
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"A sorte da coitada foi ninguém chegar a um acordo sobre a forma de abatê-la."

Aqui a narradora comenta o desfecho do episódio, expressando uma avaliação sobre a sorte da tartaruga. Não há verbo no imperativo nem qualquer marca de interpelação ao leitor. A frase é uma constatação narrativa, não um chamamento. Erro: tangencia o tema — fala da crônica, mas não do recurso pedido.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Ela também não esperou arrependimento, não hesitou, não agradeceu."

A frase descreve a reação da tartaruga ao ser libertada. O sujeito é "ela" (a tartaruga), e a narradora apenas relata suas ações. Não há qualquer elemento que envolva o leitor diretamente. Erro: tangencia o tema — é narração pura, sem interpelação.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Imagine que estranho, que portentoso e medonho não parece."

O verbo "Imagine" está no imperativo, modo verbal usado para dar ordens, fazer pedidos ou convites. Aqui, a autora convida o leitor a imaginar a situação descrita, estabelecendo um contato direto com ele. É a única alternativa em que o leitor é explicitamente convocado a participar da cena. A resposta mora no texto: a forma verbal "Imagine" é a pista linguística que comprova a interpelação.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Primeiro ela se debateu e tentou de todas as maneiras furar a malha."

A frase narra as ações iniciais da tartaruga ao ser capturada. O sujeito é "ela", e a narradora descreve os fatos em sequência. Não há verbo no imperativo nem qualquer marca de diálogo com o leitor. Erro: tangencia o tema — é descrição narrativa, sem interpelação.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Não sei se os presentes compreenderam quanto havia de surpresa, terror e pasmo nos olhos da tartaruga."

Aqui a narradora expressa uma dúvida pessoal sobre a reação dos presentes. Embora use a primeira pessoa ("Não sei"), ela não se dirige ao leitor; apenas compartilha sua incerteza. O foco está na própria narradora, não no receptor. Erro: tangencia o tema — é uma reflexão interna, não uma interpelação.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre narrar em primeira pessoa ("Não sei...") e interpelar o leitor ("Imagine..."). A primeira pessoa expressa a opinião da autora; o imperativo convoca o leitor a agir. A diferença está no modo verbal: indicativo (constatação) × imperativo (chamamento).

PEGA ESSA DICA!

Para identificar interpelação direta, procure verbos no imperativo (Imagine, Veja, Pense, Note) ou pronomes de segunda pessoa (você, te, lhe). Eles são as marcas linguísticas do diálogo autor-leitor.

Gabarito: letra C. A única alternativa em que Rachel de Queiroz se dirige diretamente ao leitor é aquela em que o verbo "Imagine" (imperativo) convida quem lê a participar da cena. Nas demais, o leitor permanece como observador passivo dos fatos narrados.

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