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Questão de Português — Conjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais — FCC 2024

PortuguêsConjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais
Código
fc146638
Banca
FCC
Órgão
MPE AM
Ano
2024
Cargo
Ag Ap ( )

O caso deu-se aqui na Ilha, numa pescaria de arrastão. Da primeira redada velo um tal peixe que causou espanto: ninguém podia crer que naquele côncavo de mar morasse tanto peixe assim. Havia de ser alguma piracema que ia passando, para lá de três toneladas de pescado foram apanhadas de uma só vez. Na segunda redada nada veio, ou quase nada – fugira a piracema ou fora toda colhida pela rede. Entretanto, no meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho: uma tartaruga do mar. Tartaruga diferente daquelas fluviais que a gente conhece, tartaruga das profundezas salinas, meio peixe, porque em vez de pernas tem nadadeiras.

 

Primeiro ela se debateu e tentou de todas as maneiras furar a malha. Depois foi agarrada e atirada ignominiosamente na areia, de barriga para cima. Por fim puseram-na em posição normal; e ela, recuperando imediatamente a compostura, estirou o pescoço enrugado e correu em torno de si um olho temeroso. Não sei se os presentes compreenderam quanto havia de surpresa, terror e pasmo nos olhos da tartaruga. Muito pior que um bicho da terra pego numa rede: este pode estranhar a prisão, mas afinal continua dentro de um elemento conhecido, pisando chão, vendo árvores familiares, sentindo o cheiro da terra. A tartaruga não: para ela, nascida e vivida no mar, aquela era a mais estranha, a mais inacreditável e terrível das aventuras. Para aquela tartaruga era o mesmo que seria para um de nós vermo-nos transportados subitamente, sem dano físico, até o fundo do mar. Imagine que estranho, que portentoso e medonho não parece. As caras desconhecidas de ignorados animais – no caso, homens. E todos, todos, canibais ou pior que isso – pois bem sentia ela sobre o seu casco grosso, sobre a carapaça encaracada, o olhar doce e alento e cobiçoso dos comedores de came.

 

A sorte da coitada foi ninguém chegar a um acordo sobre a forma de abatê-la. E sorte maior o fato de ninguém, pessoalmente, querer se responsabilizar pela carnificina naquela quinta-feira santa. Mas levaram-na para o galinheiro – que ignomínia, uma veterana dos sete mares a ser atirada entre as galinhas, na noite que deveria ser a última da sua vida; ela que decerto esperava sepultar-se entre areias claras, nalgum maciço colorido de anêmonas do mar. Mas felizmente para a tartaruga, incerto é o coração do homem, incertos, os seus impulsos. Tanto vai para um lado como para o outro, tanto procura devorar hoje o seu irmão bicho, como amanhã o festeja e liberta. O fato é que um coração se apiedou da tragédia e houve mão que abriu a porta da capoeira e encaminhou a marcha rampante do bicho marinho em direção da praia, em direção do mar, sua pátria. Ela também não esperou arrependimento, não hesitou, não agradeceu. Cortou a areia deixando um rastro longo, penetrou na água como um barco a deslizar do estaleiro, mergulhou, emergiu, voltou a cabeça ainda assustada para aquele mundo sujo, escuro, inimigo, onde viviam os homens, onde esperava nunca mais voltar; e mergulhou de novo, abraçando toda a água que podia entre as nadadeiras abertas.

 

(Adaptado de: QUEIROZ, Rachel de. 100 crônicas escolhidas: um alpendre, uma rede, um açude. Rio de Janeiro: José Olympio, 2021)

Considere a crônica “Tartaruga de arrastão”, de Rachel de Queiroz.

   

Na segunda redada nada veio, ou quase nada – fugira a piracema ou fora toda colhida pela rede. Entretanto, no meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho: uma tartaruga do mar. Tartaruga diferente daquelas fluviais que a gente conhece, tartaruga das profundezas salinas, meio peixe, porque em vez de pernas tem nadadeiras. (1º parágrafo)

 

Nesse trecho, a cronista relata uma série de fatos ocorridos no passado. Um fato anterior à esse tempo passado está indicado pela seguinte forma verbal:

  1. Aconhece.
  2. Bfugira.
  3. Ctem.
  4. Dveio.
  5. Eapareceu.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — fugira.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Pretérito mais-que-perfeito: a anterioridade no texto de Rachel de Queiroz

Gabarito: letra B. A forma verbal fugira é a única que indica um fato anterior ao tempo passado em que se narra a pescaria: o pretérito mais-que-perfeito do indicativo. No trecho, "fugira a piracema" expressa que a piracema já tinha fugido antes de a segunda redada ser lançada — exatamente o que o enunciado pede. As demais formas (conhece, tem, veio, apareceu) estão no presente ou no pretérito perfeito, que não marcam anterioridade em relação ao passado narrado.

O comando: o que a banca pede

A questão é de gramática aplicada ao texto: não basta saber a definição de tempos verbais; é preciso reconhecer, no trecho, qual forma verbal expressa um fato anterior ao tempo passado da narração. O enunciado diz: "a cronista relata uma série de fatos ocorridos no passado. Um fato anterior a esse tempo passado está indicado pela seguinte forma verbal". Ou seja, a tarefa é identificar o pretérito mais-que-perfeito — o tempo que, por definição, indica um fato anterior a outro fato passado.

O texto: onde mora a resposta

No 1º parágrafo, a cronista narra a pescaria no passado: "Da primeira redada veio um tal peixe... Na segunda redada nada veio, ou quase nada – fugira a piracema ou fora toda colhida pela rede." A forma fugira é pretérito mais-que-perfeito do verbo fugir: indica que a piracema já havia fugido antes do momento em que a segunda redada foi lançada. É a relação de anterioridade que o enunciado exige. As outras formas verbais do trecho — "veio", "apareceu" (pretérito perfeito), "conhece", "tem" (presente) — não expressam essa anterioridade.

A técnica: como reconhecer o mais-que-perfeito

O pretérito mais-que-perfeito do indicativo é formado, nos verbos regulares, pela desinência -ra (cantara, vendera, partira) e indica um fato anterior a outro fato passado. No texto, "fugira" = "tinha fugido". A banca adora cobrar essa distinção: o pretérito perfeito (veio, apareceu) marca fatos simultâneos ao momento da narração; o mais-que-perfeito (fugira) marca fatos anteriores. Para resolver, pergunte: "esse fato aconteceu antes do que está sendo narrado?" Se sim, é mais-que-perfeito.

Análise das alternativas

  1. 1Presente (conhece, tem)
  2. 2Pretérito perfeito (veio, apareceu)
  3. 3Mais-que-perfeito (fugira)
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Alternativa A — ❌ Incorreta

conhece está no presente do indicativo ("tartaruga diferente daquelas fluviais que a gente conhece"). Não indica passado, muito menos anterioridade. A banca a inclui para testar se você confunde presente com passado.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

fugira é pretérito mais-que-perfeito do indicativo. No trecho, "fugira a piracema" significa que a piracema já tinha fugido antes de a segunda redada ser lançada — fato anterior ao passado narrado. É a única forma que atende ao comando.

Alternativa C — ❌ Incorreta

tem está no presente do indicativo ("em vez de pernas tem nadadeiras"). É uma característica da tartaruga, não um fato passado. Mesmo erro da letra A.

Alternativa D — ❌ Incorreta

veio está no pretérito perfeito do indicativo ("Da primeira redada veio um tal peixe"). Indica um fato concluído no passado, mas simultâneo ao momento da narração — não anterior a ele. A banca explora a confusão entre perfeito e mais-que-perfeito.

Alternativa E — ❌ Incorreta

apareceu também está no pretérito perfeito ("apareceu um bicho estranho"). Mesmo valor de "veio": fato passado concluído, mas não anterior a outro passado. Não atende ao comando.

NÃO CAIA NESSA!

A banca mistura formas do pretérito perfeito (veio, apareceu) com o mais-que-perfeito (fugira). A diferença é temporal: o perfeito é simultâneo ao narrado; o mais-que-perfeito é anterior. Grife o comando: "anterior a esse tempo passado" — só o mais-que-perfeito serve.

PEGA ESSA DICA!

Para reconhecer o mais-que-perfeito, tente substituir por "tinha + particípio": "fugira" = "tinha fugido". Se a substituição fizer sentido, é mais-que-perfeito.

Gabarito: letra B.

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