Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Questões Mescladas sobre Pronomes — FCC 2024

PortuguêsQuestões Mescladas sobre Pronomes
Código
fc146641
Banca
FCC
Órgão
MPE AM
Ano
2024
Cargo
Ag Ap ( )

O caso deu-se aqui na Ilha, numa pescaria de arrastão. Da primeira redada velo um tal peixe que causou espanto: ninguém podia crer que naquele côncavo de mar morasse tanto peixe assim. Havia de ser alguma piracema que ia passando, para lá de três toneladas de pescado foram apanhadas de uma só vez. Na segunda redada nada veio, ou quase nada – fugira a piracema ou fora toda colhida pela rede. Entretanto, no meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho: uma tartaruga do mar. Tartaruga diferente daquelas fluviais que a gente conhece, tartaruga das profundezas salinas, meio peixe, porque em vez de pernas tem nadadeiras.

 

Primeiro ela se debateu e tentou de todas as maneiras furar a malha. Depois foi agarrada e atirada ignominiosamente na areia, de barriga para cima. Por fim puseram-na em posição normal; e ela, recuperando imediatamente a compostura, estirou o pescoço enrugado e correu em torno de si um olho temeroso. Não sei se os presentes compreenderam quanto havia de surpresa, terror e pasmo nos olhos da tartaruga. Muito pior que um bicho da terra pego numa rede: este pode estranhar a prisão, mas afinal continua dentro de um elemento conhecido, pisando chão, vendo árvores familiares, sentindo o cheiro da terra. A tartaruga não: para ela, nascida e vivida no mar, aquela era a mais estranha, a mais inacreditável e terrível das aventuras. Para aquela tartaruga era o mesmo que seria para um de nós vermo-nos transportados subitamente, sem dano físico, até o fundo do mar. Imagine que estranho, que portentoso e medonho não parece. As caras desconhecidas de ignorados animais – no caso, homens. E todos, todos, canibais ou pior que isso – pois bem sentia ela sobre o seu casco grosso, sobre a carapaça encaracada, o olhar doce e alento e cobiçoso dos comedores de came.

 

A sorte da coitada foi ninguém chegar a um acordo sobre a forma de abatê-la. E sorte maior o fato de ninguém, pessoalmente, querer se responsabilizar pela carnificina naquela quinta-feira santa. Mas levaram-na para o galinheiro – que ignomínia, uma veterana dos sete mares a ser atirada entre as galinhas, na noite que deveria ser a última da sua vida; ela que decerto esperava sepultar-se entre areias claras, nalgum maciço colorido de anêmonas do mar. Mas felizmente para a tartaruga, incerto é o coração do homem, incertos, os seus impulsos. Tanto vai para um lado como para o outro, tanto procura devorar hoje o seu irmão bicho, como amanhã o festeja e liberta. O fato é que um coração se apiedou da tragédia e houve mão que abriu a porta da capoeira e encaminhou a marcha rampante do bicho marinho em direção da praia, em direção do mar, sua pátria. Ela também não esperou arrependimento, não hesitou, não agradeceu. Cortou a areia deixando um rastro longo, penetrou na água como um barco a deslizar do estaleiro, mergulhou, emergiu, voltou a cabeça ainda assustada para aquele mundo sujo, escuro, inimigo, onde viviam os homens, onde esperava nunca mais voltar; e mergulhou de novo, abraçando toda a água que podia entre as nadadeiras abertas.

 

(Adaptado de: QUEIROZ, Rachel de. 100 crônicas escolhidas: um alpendre, uma rede, um açude. Rio de Janeiro: José Olympio, 2021)

Considere a crônica “Tartaruga de arrastão”, de Rachel de Queiroz.     Retoma um termo mencionado anteriormente no texto a palavra sublinhada em:
  1. Apenetrou na água como um barco a deslizar do estaleiro (3º parágrafo).
  2. Bvoltou a cabeça ainda assustada para aquele mundo sujo, escuro, inimigo, onde viviam os homens (3º parágrafo).
  3. CMas felizmente para a tartaruga, incerto é o coração do homem (3º parágrafo).
  4. Dtanto procura devorar hoje o seu irmão bicho, como amanhã o festeja e liberta (3º parágrafo).
  5. Ehouve mão que abriu a porta da capoeira e encaminhou a marcha rampante do bicho marinho (3º parágrafo).
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — tanto procura devorar hoje o seu irmão bicho, como amanhã o festeja e liberta (3º parágrafo).

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Coesão referencial: o pronome "o" que retoma a tartaruga

Gabarito: letra D. A palavra sublinhada em "como amanhã o festeja e liberta" é um pronome pessoal oblíquo que retoma, por coesão referencial anafórica, o termo "o seu irmão bicho" — expressão que designa a própria tartaruga. É a única alternativa em que o termo sublinhado é um pronome que substitui um elemento já mencionado no texto, cumprindo exatamente o que o enunciado pede: "retoma um termo mencionado anteriormente".

O comando: o que a banca pede

A questão não cobra interpretação de sentido nem gramática decorada: pede que você identifique, entre as palavras sublinhadas, aquela que exerce coesão referencial anafórica — ou seja, que retoma um termo já dito no texto, evitando sua repetição. A palavra-chave do enunciado é "retoma": ela exige que o termo sublinhado seja um pronome (ou palavra que substitui outra), não um conectivo, advérbio ou substantivo. Antes de ler as alternativas, sublinhe mentalmente o que cada palavra destacada é: pronome? conjunção? advérbio? Isso já elimina metade das opções.

O texto: onde mora a resposta

No 3º parágrafo, a cronista narra a reviravolta: depois de ser levada ao galinheiro, a tartaruga é libertada por alguém que se apieda dela. O trecho decisivo é:

"tanto procura devorar hoje o seu irmão bicho, como amanhã o festeja e liberta"

Aqui, "o" é pronome pessoal oblíquo (forma de "ele") e funciona como objeto direto de "festeja" e "liberta". Ele substitui "o seu irmão bicho" — expressão que, no contexto, designa a tartaruga (o "irmão bicho" do homem, ambos criaturas). É a retomada clássica de coesão referencial: um pronome que evita repetir o substantivo.

A técnica que decide

Para resolver, teste cada palavra sublinhada perguntando: ela substitui um termo anterior? Se for pronome que retoma algo, é a resposta; se for conectivo, advérbio ou substantivo, não é. Veja o contraste:

Alternativa

Palavra sublinhada

Classe/função

Retoma termo anterior?

A

"como"

Conjunção comparativa

Não — compara, não substitui

B

"onde"

Pronome relativo

Não — retoma "mundo", mas é relativo, não pronome pessoal

C

"Mas"

Conjunção adversativa

Não — conecta orações

D

"o"

Pronome pessoal oblíquo

Sim — retoma "o seu irmão bicho"

E

"que"

Pronome relativo

Não — retoma "mão", mas é relativo

A pegadinha da banca está em oferecer outras palavras que também "se referem" a algo (como "onde" e "que", que são pronomes relativos), mas o enunciado pede especificamente a que retoma um termo mencionado anteriormente — e o pronome pessoal "o" é o único que faz isso de forma inequívoca, substituindo um substantivo já dito.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"penetrou na água como um barco a deslizar do estaleiro"

"Como" aqui é conjunção comparativa: introduz uma comparação entre a tartaruga e um barco. Não substitui nem retoma termo algum — apenas estabelece uma relação de semelhança. Erro: troca de conceito — confunde conectivo comparativo com pronome anafórico.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"voltou a cabeça ainda assustada para aquele mundo sujo, escuro, inimigo, onde viviam os homens"

"Onde" é pronome relativo (equivale a "no qual") e retoma "mundo". Embora seja uma retomada, o enunciado pede a palavra que "retoma um termo mencionado anteriormente" — e "onde" retoma, sim, mas a banca considera que a retomada clássica pedida é a do pronome pessoal "o", que substitui um substantivo (a tartaruga). Além disso, "onde" tem valor locativo, não substitui o ser. Erro: troca de conceito — relativo com valor de lugar não é a retomada pronominal pedida.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Mas felizmente para a tartaruga, incerto é o coração do homem"

"Mas" é conjunção adversativa: liga orações com ideia de oposição. Não retoma termo algum — apenas conecta. Erro: troca de conceito — conectivo não é pronome.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"tanto procura devorar hoje o seu irmão bicho, como amanhã o festeja e liberta"

"O" é pronome pessoal oblíquo (forma átona de "ele") e retoma "o seu irmão bicho", que designa a tartaruga. É a coesão referencial anafórica por excelência: substitui um substantivo já mencionado, evitando repetição. Correta — é a única em que a palavra sublinhada é um pronome que retoma termo anterior.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"houve mão que abriu a porta da capoeira e encaminhou a marcha rampante do bicho marinho"

"Que" é pronome relativo (equivale a "a qual") e retoma "mão". Assim como "onde", é uma retomada, mas o enunciado pede a palavra que "retoma um termo mencionado anteriormente" — e a banca considera que a retomada clássica pedida é a do pronome pessoal "o", que substitui um substantivo (a tartaruga). Erro: troca de conceito — relativo não é a retomada pronominal pedida.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece pronomes relativos ("onde", "que") que também retomam termos, mas o enunciado pede a retomada por pronome pessoal — "o" — que substitui o ser (a tartaruga), não um lugar ou uma coisa.

PEGA ESSA DICA!

Ao ver "retoma um termo mencionado anteriormente", procure o pronome pessoal oblíquo (o, a, os, as, lhe, lhes) — é o mecanismo mais direto de coesão referencial. Relativos (que, onde, o qual) também retomam, mas a banca quase sempre quer o oblíquo.

Gabarito: letra D — a única em que a palavra sublinhada é um pronome que retoma, por anáfora, o termo "o seu irmão bicho" (a tartaruga).

Link permanente: /questoes/fc146641