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Questão de Português — Concordância (Verbal e Nominal) — FCC 2024

PortuguêsConcordância (Verbal e Nominal)
Código
fc146644
Banca
FCC
Órgão
MPE AM
Ano
2024
Cargo
Ag Ap ( )

O caso deu-se aqui na Ilha, numa pescaria de arrastão. Da primeira redada velo um tal peixe que causou espanto: ninguém podia crer que naquele côncavo de mar morasse tanto peixe assim. Havia de ser alguma piracema que ia passando, para lá de três toneladas de pescado foram apanhadas de uma só vez. Na segunda redada nada veio, ou quase nada – fugira a piracema ou fora toda colhida pela rede. Entretanto, no meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho: uma tartaruga do mar. Tartaruga diferente daquelas fluviais que a gente conhece, tartaruga das profundezas salinas, meio peixe, porque em vez de pernas tem nadadeiras.

 

Primeiro ela se debateu e tentou de todas as maneiras furar a malha. Depois foi agarrada e atirada ignominiosamente na areia, de barriga para cima. Por fim puseram-na em posição normal; e ela, recuperando imediatamente a compostura, estirou o pescoço enrugado e correu em torno de si um olho temeroso. Não sei se os presentes compreenderam quanto havia de surpresa, terror e pasmo nos olhos da tartaruga. Muito pior que um bicho da terra pego numa rede: este pode estranhar a prisão, mas afinal continua dentro de um elemento conhecido, pisando chão, vendo árvores familiares, sentindo o cheiro da terra. A tartaruga não: para ela, nascida e vivida no mar, aquela era a mais estranha, a mais inacreditável e terrível das aventuras. Para aquela tartaruga era o mesmo que seria para um de nós vermo-nos transportados subitamente, sem dano físico, até o fundo do mar. Imagine que estranho, que portentoso e medonho não parece. As caras desconhecidas de ignorados animais – no caso, homens. E todos, todos, canibais ou pior que isso – pois bem sentia ela sobre o seu casco grosso, sobre a carapaça encaracada, o olhar doce e alento e cobiçoso dos comedores de came.

 

A sorte da coitada foi ninguém chegar a um acordo sobre a forma de abatê-la. E sorte maior o fato de ninguém, pessoalmente, querer se responsabilizar pela carnificina naquela quinta-feira santa. Mas levaram-na para o galinheiro – que ignomínia, uma veterana dos sete mares a ser atirada entre as galinhas, na noite que deveria ser a última da sua vida; ela que decerto esperava sepultar-se entre areias claras, nalgum maciço colorido de anêmonas do mar. Mas felizmente para a tartaruga, incerto é o coração do homem, incertos, os seus impulsos. Tanto vai para um lado como para o outro, tanto procura devorar hoje o seu irmão bicho, como amanhã o festeja e liberta. O fato é que um coração se apiedou da tragédia e houve mão que abriu a porta da capoeira e encaminhou a marcha rampante do bicho marinho em direção da praia, em direção do mar, sua pátria. Ela também não esperou arrependimento, não hesitou, não agradeceu. Cortou a areia deixando um rastro longo, penetrou na água como um barco a deslizar do estaleiro, mergulhou, emergiu, voltou a cabeça ainda assustada para aquele mundo sujo, escuro, inimigo, onde viviam os homens, onde esperava nunca mais voltar; e mergulhou de novo, abraçando toda a água que podia entre as nadadeiras abertas.

 

(Adaptado de: QUEIROZ, Rachel de. 100 crônicas escolhidas: um alpendre, uma rede, um açude. Rio de Janeiro: José Olympio, 2021)

Considere a crônica “Tartaruga de arrastão”, de Rachel de Queiroz.     O verbo em negrito deve sua flexão à expressão sublinhada em:
  1. Ahouve mão que abriu à porta dá capoeira
  2. BCortou a areia deixando um rastro longo
  3. CNão sei se os presentes compreenderam
  4. Dno meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho
  5. Evoltou a cabeça ainda assustada
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — no meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Concordância verbal: o verbo concorda com o sujeito, mesmo quando ele vem depois

Gabarito: letra D. A questão pede para identificar em qual alternativa o verbo em negrito (que não está destacado no enunciado, mas subentende-se que seja o verbo da oração) tem sua flexão determinada pela expressão sublinhada. Na alternativa D, o verbo apareceu concorda com o sujeito um bicho estranho, que está posposto ao verbo. A expressão sublinhada "no meio daquele quase nada" é um adjunto adverbial de lugar, e não o sujeito. A concordância se dá entre o verbo e o núcleo do sujeito, que é "bicho". Como se lê no texto: "no meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho".

O comando da questão é de análise sintática e concordância: é preciso identificar, em cada alternativa, qual é o sujeito do verbo e qual termo determina sua flexão. A banca não pede interpretação de sentido, mas o reconhecimento da relação de concordância entre verbo e sujeito, mesmo quando o sujeito está posposto (depois do verbo).

No texto, a passagem que contém a alternativa D é:

"no meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho"

Aqui, a ordem é: adjunto adverbial ("no meio daquele quase nada") + verbo ("apareceu") + sujeito ("um bicho estranho"). O verbo "aparecer" é intransitivo, e o sujeito é "um bicho estranho". O núcleo do sujeito é "bicho", que está no singular, por isso o verbo fica na 3ª pessoa do singular: apareceu. A expressão "no meio daquele quase nada" é apenas um adjunto adverbial de lugar, não interfere na concordância.

A técnica para resolver é: sublinhe o verbo e pergunte "quem?" ou "o quê?" antes do verbo. Na alternativa D, "o que apareceu?" → "um bicho estranho". Esse é o sujeito. A expressão "no meio daquele quase nada" responde a "onde?", sendo adjunto adverbial.

A pegadinha da banca é colocar o sujeito depois do verbo e intercalar um adjunto adverbial, fazendo o candidato achar que o sujeito é "quase nada" ou que a concordância é com o termo mais próximo. Mas a concordância verbal é sempre com o núcleo do sujeito, independentemente da posição.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"houve mão que abriu à porta dá capoeira"

O verbo "houve" é impessoal (sentido de existir) e não concorda com nenhum sujeito; fica sempre na 3ª pessoa do singular. A expressão "mão que abriu" não é sujeito de "houve". Além disso, há erro de crase e de grafia ("dá" por "da"). A alternativa não apresenta a relação pedida.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Cortou a areia deixando um rastro longo"

O verbo "cortou" tem sujeito oculto (ela, a tartaruga), que não está expresso na oração. A expressão "a areia" é objeto direto, não sujeito. Portanto, a flexão de "cortou" não é determinada por nenhuma expressão sublinhada na alternativa.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Não sei se os presentes compreenderam"

O verbo "sei" tem sujeito oculto (eu, a narradora). O verbo "compreenderam" concorda com "os presentes", que é o sujeito da oração subordinada. Mas a expressão sublinhada na alternativa é "se os presentes compreenderam", que é uma oração subordinada substantiva objetiva direta, e não o termo que determina a flexão de "sei". A flexão de "sei" é determinada pelo sujeito oculto "eu".

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"no meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho"

Como explicado, o verbo "apareceu" concorda com o sujeito "um bicho estranho", que está posposto. A expressão "no meio daquele quase nada" é adjunto adverbial. A flexão do verbo é determinada pelo núcleo do sujeito "bicho".

Alternativa E — ❌ Incorreta

"voltou a cabeça ainda assustada"

O verbo "voltou" tem sujeito oculto (ela, a tartaruga). "A cabeça" é objeto direto. A flexão de "voltou" não é determinada por nenhuma expressão sublinhada na alternativa.

Conclusão: A única alternativa em que o verbo tem sua flexão determinada por uma expressão que é o sujeito (mesmo posposto) é a letra D. Nas demais, ou o verbo é impessoal, ou o sujeito é oculto, ou o termo sublinhado exerce outra função sintática.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de concordância, sempre identifique o sujeito perguntando "quem?" ou "o quê?" antes do verbo. Cuidado com sujeitos pospostos e com adjuntos adverbiais que aparecem antes do verbo.

Gabarito: letra D

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