Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc146672
Banca
FCC
Órgão
MPE AM
Ano
2024
Cargo
Ag Tec ( )

O viajante clandestino

 

– Não é arvião. Diz-se: avião.

 

O menino estranhou a emenda de sua mãe. Não mencionava ele uma criatura do ar? A criança tem a vantagem de estrear o mundo, iniciando outro matrimônio entre as coisas e os nomes. Outros a elas se assemelham, à vida sempre recém-chegando. São os homens em estado de poesia, essa infância autorizada pelo brilho da palavra.

 

– Mãe: avioneta é a neta do avião?

 

Vamos para a sala de espera, ordenou a mãe. Sala de esperas? Que o miúdo acreditava que todas as salas fossem iguais, na viscosa espera de nascer sempre menos. Ela lhe admoestou, prescrevendo juízo. Aquilo era um aeroporto, lugar de respeito. A senhora apontou os passageiros, seus ares graves, soturnos. O menino mediu-se com aquele luto, aceitando os deveres do seu tamanho. Depois, se desenrolou do colo materno, fez sua a sua mão e foi à vidraça. Espreitou os imponentes ruídos, alertou a mãe para um qualquer espanto. Mas a sua voz se afogou no tropel dos motores.

 

Eu assistia a criança. Procurava naquele aprendiz de criatura a ingenuidade que nos autoriza a sermos estranhos num mundo que nos estranha. Frágeis onde a mentira credencia os fortes.

 

Seria aquele menino a fratura por onde, naquela toda frieza, espreitava a humanidade? No aeroporto eu me salvava da angústia através de um exemplar da infância. Valha-nos nós.

 

O menino agora contemplava as traseiras do céu, seguindo as fumagens, lentas pegadas dos instantâneos aviões. Ele então se fingiu um aeroplano, braços estendidos em asas. Descolava do chão, o mundo sendo seu enorme brinquedo. E viajava por seus infinitos, roçando as malas e as pernas dos passageiros entediados. Até que a mãe debitou suas ordens. Ele que recolhesse a fantasia, aquele lugar era pertença exclusiva dos adultos.

 

– Arranja-te. Estamos quase a partir.

 

– Então vou despedir do passaporteiro.

 

A mãe corrigiu em dupla dose. Primeiro, não ia a nenhuma parte. Segundo, não se chamava assim ao senhor dos passaportes. Mas só no presente o menino se deixava calar. Porque, em seu sonho, mais adiante, ele se proclama:

 

– Quando for grande quero ser passaporteiro.

 

E ele já se antefruía, de farda, dentro do vidro. Ele é que autorizava a subida aos céus.

 

– Vou estudar para migraceiro.

 

– És doido, filho. Fica quieto.

 

O miúdo guardou seus jogos, constrito. Que criança, neste mundo, tem vocação para adulto?

 

Saímos da sala para o avião. Chuviscava. O menino seguia seus passos quando, na lisura do alcatrão, ele viu o sapo. Encharcado, o bicho saltiritava. Sua boca, maior que o corpo, traduzia o espanto das diferenças. Que fazia ali aquele representante dos primórdios, naquele lugar de futuros apressados?

 

O menino parou, observador, cuidando os perigos do batráquio. Na imensa incompreensão do asfalto, o bicho seria esmagado por cega e certeira roda.

 

– Mãe, eu posso levar o sapo?

 

A senhora estremeceu de horror. Olhou vergonhada, pedindo desculpas aos passantes. Então, começou a disputa. A senhora obrigava o braço do filho, os dois se teimavam. Venceu a secular maternidade. O menino, murcho como acento circunflexo, subiu as escadas, ocupou seu lugar, ajeitou o cinto. Do meu assento eu podia ver a tristeza desembrulhando líquidas missangas no seu rosto. Fiz-lhe sinal, ele me encarou de soslado. Então, em seu rosto se acendeu a mais grafa bandeira de felicidade. Porque do côncavo de minhas mãos espreitou o focinho do mais clandestino de todos os passageiros.

 

(Adaptado de: COUTO, Mia. Cronicando. Lisboa: Caminho, 1991)

Texto

   

Segundo o narrador, assim como as crianças, também teriam a capacidade de brincar com o sentido das palavras:

  1. Aos viajantes.
  2. Bos homens que viveram uma boa infância.
  3. Cos escritores.
  4. Das mães.
  5. Eos adultos.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — os escritores.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A capacidade de brincar com as palavras no texto de Mia Couto

Gabarito: letra C. O narrador afirma que, assim como as crianças, os escritores também teriam a capacidade de brincar com o sentido das palavras. A resposta está ancorada na passagem em que o narrador define as crianças como "homens em estado de poesia", e o texto é uma crônica — um gênero em que o autor, o escritor, exerce exatamente essa liberdade poética com a linguagem, como se vê nas invenções "passaporteiro" e "migraceiro".

O comando pede uma interpretação — "segundo o narrador, assim como as crianças, também teriam a capacidade..." —, ou seja, exige que se identifique a quem o narrador atribui essa característica, não apenas uma informação literal. A chave está no trecho em que o narrador reflete sobre a criança e a poesia:

"A criança tem a vantagem de estrear o mundo, iniciando outro matrimônio entre as coisas e os nomes. Outros a elas se assemelham, à vida sempre recém-chegando. São os homens em estado de poesia, essa infância autorizada pelo brilho da palavra."

O narrador diz que a criança "estreia o mundo" criando novas relações entre as coisas e os nomes — exatamente o que faz o menino ao inventar "avioneta é a neta do avião", "passaporteiro" e "migraceiro". E afirma que "outros a elas se assemelham", ou seja, há outros que também têm essa capacidade. Quem são esses "outros"? A resposta está na natureza do próprio texto: é uma crônica de Mia Couto, um escritor conhecido por recriar a língua. O narrador, ao contar a história, também brinca com as palavras — "saltiritava", "antefruía", "murcho como acento circunflexo" —, exercendo a mesma liberdade poética que atribui à criança. Assim, a capacidade de brincar com o sentido das palavras é própria das crianças e dos escritores, que, como elas, estão "em estado de poesia".

A técnica que decide esta questão é a inferência ancorada no texto: o narrador não escreve literalmente "os escritores brincam com as palavras", mas o texto inteiro é a prova dessa afirmação. O narrador é um escritor (Mia Couto, autor da crônica), e ele próprio inventa palavras e sentidos ao longo de todo o relato. A alternativa correta é a única que identifica esse grupo que, como as crianças, renova a linguagem.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a generalização indevida — o candidato pode achar que "todos os homens" ou "os adultos" têm essa capacidade, mas o texto restringe: são apenas aqueles que se assemelham às crianças, os que estão "em estado de poesia", ou seja, os escritores.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Os viajantes são mencionados no texto apenas como figurantes do aeroporto: "A senhora apontou os passageiros, seus ares graves, soturnos". Eles são descritos como "entediados" e "soturnos", sem qualquer relação com a capacidade de brincar com as linguagem. A alternativa extrapola ao atribuir a eles uma característica que o texto não menciona.

Alternativa B — ❌ Incorreta

O texto não diz que os homens que "viveram uma boa infância" têm essa capacidade. A passagem "Outros a elas se assemelham" não se refere a quem teve uma infância feliz, mas a quem mantém a capacidade de renovar a linguagem, como as crianças. A alternativa restringe indevidamente o sentido: não é a infância vivida que importa, mas o estado de poesia.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O narrador, ao longo da crônica, exerce exatamente a capacidade que atribui às crianças: inventa palavras ("passaporteiro", "migraceiro", "saltiritava", "antefruía") e cria sentidos novos. A passagem "São os homens em estado de poesia, essa infância autorizada pelo brilho da palavra" define quem se assemelha às crianças: aqueles que estão em estado de poesia, ou seja, os escritores, que brincam com as palavras como o menino brinca com o mundo. A alternativa é a única inteiramente sustentada pelo texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A mãe é retratada como a figura que corrige as invenções do menino: "Não é arvião. Diz-se: avião", "A mãe corrigiu em dupla dose". Ela representa o mundo adulto que reprime a fantasia, não a capacidade de brincar com as palavras. A alternativa contradiz o texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Os adultos são descritos como "soturnos", "entediados", "graves", e a mãe ordena ao menino que "recolhesse a fantasia, aquele lugar era pertença exclusiva dos adultos". O texto opõe os adultos (que perderam a capacidade de brincar) às crianças (que a mantêm). A alternativa contradiz frontalmente o texto.

Conclusão: a questão se resolve identificando a quem o narrador atribui a capacidade de brincar com as palavras. O texto diz que as crianças a têm e que "outros a elas se assemelham" — e o próprio narrador, escritor, é a prova viva dessa semelhança, pois inventa palavras ao longo de toda a crônica. As demais alternativas ou extrapolam (viajantes), restringem (boa infância) ou contradizem o texto (mães e adultos).

Gabarito: letra C.

Link permanente: /questoes/fc146672