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Questão de Português — Conjunção — FCC 2024

PortuguêsConjunção
Código
fc146679
Banca
FCC
Órgão
MPE AM
Ano
2024
Cargo
Ag Tec ( )

O viajante clandestino

 

– Não é arvião. Diz-se: avião.

 

O menino estranhou a emenda de sua mãe. Não mencionava ele uma criatura do ar? A criança tem a vantagem de estrear o mundo, iniciando outro matrimônio entre as coisas e os nomes. Outros a elas se assemelham, à vida sempre recém-chegando. São os homens em estado de poesia, essa infância autorizada pelo brilho da palavra.

 

– Mãe: avioneta é a neta do avião?

 

Vamos para a sala de espera, ordenou a mãe. Sala de esperas? Que o miúdo acreditava que todas as salas fossem iguais, na viscosa espera de nascer sempre menos. Ela lhe admoestou, prescrevendo juízo. Aquilo era um aeroporto, lugar de respeito. A senhora apontou os passageiros, seus ares graves, soturnos. O menino mediu-se com aquele luto, aceitando os deveres do seu tamanho. Depois, se desenrolou do colo materno, fez sua a sua mão e foi à vidraça. Espreitou os imponentes ruídos, alertou a mãe para um qualquer espanto. Mas a sua voz se afogou no tropel dos motores.

 

Eu assistia a criança. Procurava naquele aprendiz de criatura a ingenuidade que nos autoriza a sermos estranhos num mundo que nos estranha. Frágeis onde a mentira credencia os fortes.

 

Seria aquele menino a fratura por onde, naquela toda frieza, espreitava a humanidade? No aeroporto eu me salvava da angústia através de um exemplar da infância. Valha-nos nós.

 

O menino agora contemplava as traseiras do céu, seguindo as fumagens, lentas pegadas dos instantâneos aviões. Ele então se fingiu um aeroplano, braços estendidos em asas. Descolava do chão, o mundo sendo seu enorme brinquedo. E viajava por seus infinitos, roçando as malas e as pernas dos passageiros entediados. Até que a mãe debitou suas ordens. Ele que recolhesse a fantasia, aquele lugar era pertença exclusiva dos adultos.

 

– Arranja-te. Estamos quase a partir.

 

– Então vou despedir do passaporteiro.

 

A mãe corrigiu em dupla dose. Primeiro, não ia a nenhuma parte. Segundo, não se chamava assim ao senhor dos passaportes. Mas só no presente o menino se deixava calar. Porque, em seu sonho, mais adiante, ele se proclama:

 

– Quando for grande quero ser passaporteiro.

 

E ele já se antefruía, de farda, dentro do vidro. Ele é que autorizava a subida aos céus.

 

– Vou estudar para migraceiro.

 

– És doido, filho. Fica quieto.

 

O miúdo guardou seus jogos, constrito. Que criança, neste mundo, tem vocação para adulto?

 

Saímos da sala para o avião. Chuviscava. O menino seguia seus passos quando, na lisura do alcatrão, ele viu o sapo. Encharcado, o bicho saltiritava. Sua boca, maior que o corpo, traduzia o espanto das diferenças. Que fazia ali aquele representante dos primórdios, naquele lugar de futuros apressados?

 

O menino parou, observador, cuidando os perigos do batráquio. Na imensa incompreensão do asfalto, o bicho seria esmagado por cega e certeira roda.

 

– Mãe, eu posso levar o sapo?

 

A senhora estremeceu de horror. Olhou vergonhada, pedindo desculpas aos passantes. Então, começou a disputa. A senhora obrigava o braço do filho, os dois se teimavam. Venceu a secular maternidade. O menino, murcho como acento circunflexo, subiu as escadas, ocupou seu lugar, ajeitou o cinto. Do meu assento eu podia ver a tristeza desembrulhando líquidas missangas no seu rosto. Fiz-lhe sinal, ele me encarou de soslado. Então, em seu rosto se acendeu a mais grafa bandeira de felicidade. Porque do côncavo de minhas mãos espreitou o focinho do mais clandestino de todos os passageiros.

 

(Adaptado de: COUTO, Mia. Cronicando. Lisboa: Caminho, 1991)

Texto

   

Mas só no presente o menino se deixava calar. Porque, em seu sonho, mais adiante, ele se proclama (10º parágrafo).

 

Considerando o contexto, o termo sublinhado pode ser substituído, sem que haja prejuízo para o sentido do texto, por

  1. ADe modo que.
  2. BEmbora.
  3. CEntretanto.
  4. DLogo.
  5. EPorquanto.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Porquanto.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Conjunção explicativa: o valor de "porque" no trecho de Mia Couto

Gabarito: letra E. O termo sublinhado "Porque" introduz uma explicação/justificativa para o que foi dito antes — o menino só se deixava calar no presente, e a razão disso é que, em seu sonho, ele se proclama. A única alternativa que preserva esse sentido é "Porquanto", conjunção explicativa por excelência. Como se lê no 10º parágrafo: "Mas só no presente o menino se deixava calar. Porque, em seu sonho, mais adiante, ele se proclama".

O comando pede uma substituição sem prejuízo de sentido: a tarefa é identificar a relação lógica que o conectivo estabelece entre as orações e encontrar, entre as opções, aquela que mantém exatamente essa relação. Não se trata de decorar a classe da conjunção isoladamente, mas de ler o contexto — a banca quer saber se você percebe que "porque" aqui não é causal (causa real), mas explicativo (justificativa do que se afirmou).

No trecho, o narrador afirma que o menino "só no presente se deixava calar" e, em seguida, explica o porquê: "em seu sonho, mais adiante, ele se proclama". A segunda oração não é a causa da primeira no sentido de produzir o efeito; ela explica a razão da afirmação anterior. É o mesmo valor de "pois" anteposto ao verbo, típico das explicativas. A troca por "porquanto" mantém a justificativa intacta.

A armadilha central está em confundir explicação com causa, consequência ou oposição. As alternativas A, C e D trazem conjunções com outros valores: "de modo que" é consecutiva, "embora" é concessiva, "logo" é conclusiva. Já "entretanto" é adversativa. Apenas "porquanto" é explicativa, como "porque" no contexto.

PEGA ESSA DICA!

Ao substituir um conectivo, pergunte: qual relação lógica ele estabelece entre as orações? Teste cada opção no lugar do original e veja se o sentido permanece. Se a frase ficar estranha ou mudar de significado, descarte.

1Explicativas
porque (no contexto)
porquanto
pois (anteposto)
2Adversativas
entretanto
mas
3Conclusivas
logo
portanto
4Consecutivas
de modo que
tão... que
5Concessivas
embora
ainda que
Conjunções coordenativas
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Conjunções coordenativas: Explicativas (porque (no contexto), porquanto, pois (anteposto)); Adversativas (entretanto, mas); Conclusivas (logo, portanto); Consecutivas (de modo que, tão... que); Concessivas (embora, ainda que)

Alternativa A — ❌ Incorreta

"De modo que" é uma locução conjuntiva consecutiva (indica consequência/efeito). No trecho, a segunda oração não é consequência da primeira, mas explicação. Substituir "porque" por "de modo que" inverteria a relação: "só no presente se deixava calar, de modo que em seu sonho ele se proclama" — isso sugere que o proclamar é efeito do calar, o que não é o sentido original. Erro: troca de valor semântico (explicação → consequência).

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Embora" é conjunção concessiva (indica oposição/ressalva). No trecho, não há ideia de concessão; a segunda oração justifica a primeira, não a contraria. "Embora em seu sonho ele se proclame" introduziria uma quebra de expectativa, o que não existe no original. Erro: troca de valor semântico (explicação → concessão).

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Entretanto" é conjunção adversativa (indica oposição). O trecho não apresenta oposição entre "calar-se" e "proclamar-se"; ao contrário, o proclamar é a razão do calar. "Entretanto" quebraria a relação de justificativa. Erro: troca de valor semântico (explicação → oposição).

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Logo" é conjunção conclusiva (indica conclusão). No trecho, a segunda oração não conclui a primeira, mas a explica. "Logo em seu sonho ele se proclama" daria ideia de consequência lógica, o que não é o caso. Erro: troca de valor semântico (explicação → conclusão).

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Porquanto" é conjunção explicativa (indica justificativa/explicação), exatamente como "porque" no contexto. A substituição mantém o sentido: "Mas só no presente o menino se deixava calar. Porquanto, em seu sonho, mais adiante, ele se proclama". A relação de explicação permanece intacta. Correta: preserva o valor semântico original.

Conclusão: A questão testa a capacidade de reconhecer o valor semântico de um conectivo no contexto. "Porque" aqui é explicativo, e "porquanto" é a única opção com esse mesmo valor. As demais alternativas trazem conjunções com outros sentidos (consecutivo, concessivo, adversativo, conclusivo), que alterariam a relação lógica entre as orações.

Gabarito: letra E

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