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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc146682
Banca
FCC
Órgão
MPE AM
Ano
2024
Cargo
Ag Tec ( )

Muros e lágrimas: refugiados, deslocados, migrantes

 

1. Dos "trabalhadores imigrantes”, últimos operários de fábricas agora fechadas ou deslocalizadas, aos “imigrantes ilegais”, modernos fornalheiros de um capitalismo que ambiciona ser financeiro e esconde sua criadagem; das prostitutas africanas aprisionadas na clandestinidade de uma escravidão moderna às longas filas de refugiados apanhados em ratoeiras nas fronteiras da Europa: é sob as formas contemporâneas da migração que as sociedades ocidentais representam doravante o estrangeiro, aquele que é preciso temer e lamentar ao mesmo tempo, vigiar e proteger.

 

2. Desde os anos de 1980, e até à ano em que Donald Trump chegou ao poder, não existe mais campanha eleitoral na Europa ou nos Estados Unidos em que não se acene com o espectro de uma migração invasiva. O migrante está no centro dos temores e das fantasias suscitadas pela ameaça terrorista, transformando cada requerente de asilo em uma vitima expiatória do medo da sombra. Mas essa hipervisibilidade se combina paradoxalmente com um apagamento muito real dos migrantes no espaço público. Entrevistos em uma área de descanso de autoestrada ou no desvio de uma passagem de fronteira, relegados às cozinhas dos restaurantes ou às oficinas clandestinas, escondidos atrás dos tapumes dos canteiros de obras da modernidade, constrangidos por sua própria condição a viver na sombra, os migrantes constituem uma categoria de pessoas que poucos cidadãos comuns têm a ocasião de cruzarem em sua vida cotidiana. Fora das trocas comuns se constrói, portanto, uma figura midiática do migrante, uma figura de retórica política e de discurso que o coloca no centro de um vórtex emocional de medos, e mesmo de ódio, ou então de empatia e de compaixão.

 

3. Como um reflexo das emoções extremas que eles provocam, parece normal hoje considerar a migração como uma tragédia, um trauma para aquele que a efetua. Para nós tornou-se difícil ver na migração uma experiência social banal, como se ela devesse ser a um só tempo crucial e determinante até o fim de suas vidas para aqueles que passaram por suas provações – quase a mesma definição clínica do traumatismo.

 

4 Essa dimensão trágica faz da migração a vertente sombria de todas as formas pelas quais o mundo moderno se pôs em movimento. O migrante é de cera forma o exato oposto do turista e do executivo intercontinental, dois personagens que aparecem nas mesmas épocas e constituem as figuras “solares” dessa mobilidade em vias de banalização. Raramente percebida como uma oportunidade, uma aventura, ou mesmo simplesmente uma banal peripécia, a migração é interpretada como um acidente, um drama, e até um delito. E mais: é com a condição de ser uma tragédia que ela existe como objeto político, isto é, ao mesmo tempo como objeto de designação, de discurso e de governança. Em suma, existe uma relação estreita entre a construção da migração como tragédia, seu formato emocional e seu tratamento como objeto político.

 

5. A narrativa política serve-se de uma confusão entre o que desencadeia os movimentos migratórios e a realidade da experiência que começa pela viagem migratória. Das grandes tragédias que são as guerras ou os desastres a essas pequenas tragédias familiares que são os destinos despoticamente atribuídos pelos pais aos filhos, é evidente que a migração nasce muitas vezes de uma tragédia original, mas à qual ela oferece uma saída, uma oportunidade de resistência e de salvação. É essa dimensão que a narrativa política esconde, e que ao contrário é objeto das narrativas íntimas: na abundante literatura etnográfica ou jornalística dominada pelos relatos de vida realistas, a migração é conduzida pela esperança de escapar a uma situação que era, de múltiplas maneiras possíveis, uma negação de ser. E na grande maioria de casos, essa esperança se realiza.

 

6. Portanto, é entre esses dois regimes narrativos, o político de uma tragédia e de uma ameaça de um lado, o biográfico de uma salvação do outro, que se constrói a carga emocional da experiência migratória contemporânea.

 

(Adaptado de: PERALDI, Michel. In: CORBIN, A.; COURTINE, J.J.; VIGARELLO, G. (Orgs.) História das emoções 3: do final do século XIX até hoje. Tradução de Maira Ferreira. Petrópolis: Vozes, 2020. p. 364-66)

Texto

   

Considere as seguintes afirmações:

 

I. As campanhas eleitorais dos Estados Unidos e Europa mantêm nos seus programas de governo o fantasma da migração como uma questão a ser resolvida, pois o migrante é visto como uma ameaça constante.

 

II. Os migrantes estão no centro das atenções políticas dos candidatos aos governos que, por sua vez, promovem importantes transformações na vida dessas pessoas.

 

III. Os migrantes constituem uma categoria de pessoas invisíveis, vivendo à sombra, sem que participem do universo cotidiano dos cidadãos.

 

Está correto o que se afirma em

  1. AIII, apenas.
  2. BI, II e III.
  3. CI e III, apenas.
  4. DI e II, apenas.
  5. EII e III, apenas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — I e III, apenas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Migração: entre a ameaça política e a invisibilidade social

Gabarito: letra C. A questão pede para identificar quais afirmações estão de acordo com o texto. A afirmativa I é correta, pois o texto afirma que "não existe mais campanha eleitoral na Europa ou nos Estados Unidos em que não se acene com o espectro de uma migração invasiva", e a afirmativa III é correta, pois o texto afirma que os migrantes são "escondidos atrás dos tapumes dos canteiros de obras da modernidade, constrangidos por sua própria condição a viver na sombra". A afirmativa II é incorreta, pois o texto não afirma que os candidatos promovem "importantes transformações na vida dessas pessoas"; pelo contrário, o texto destaca a invisibilidade e o apagamento dos migrantes.

O comando da questão é de compreensão ("Considere as seguintes afirmações"), ou seja, exige que se verifique se cada afirmação está explícita ou é uma inferência direta do texto. Não se trata de interpretar subjetivamente, mas de confrontar cada item com o que está escrito. A técnica é: para cada afirmação, pergunte "onde o texto diz isso?" e, se não houver passagem que a sustente, a afirmação está errada.

O texto, de Michel Peraldi, tem como tese central a ideia de que a migração é construída socialmente como uma tragédia e uma ameaça (narrativa política), ao mesmo tempo em que os migrantes são invisibilizados no espaço público. Essa dupla face — hipervisibilidade midiática e apagamento real — é o eixo que organiza os parágrafos 2 e 3, onde estão as pistas para julgar os itens.

A armadilha central da questão está na afirmativa II, que extrapola o texto ao acrescentar uma informação que não existe: a de que os candidatos "promovem importantes transformações na vida dessas pessoas". O texto fala em "figura de retórica política e de discurso", ou seja, os migrantes são usados como objeto de discurso, não como destinatários de políticas transformadoras. A banca mistura a ideia de "estar no centro das atenções" (verdadeira) com a de "promover transformações" (inventada).

Migrantes no texto
  • 1Hipervisibilidade midiática
    • Espectro de migração invasiva
    • Associados à ameaça terrorista
  • 2Apagamento real
    • Vivem na sombra
    • Poucos cidadãos cruzam no cotidiano
  • 3Uso político
    • Figura de retórica de discurso
    • Não há transformação real na vida deles
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Afirmativa I — ✅ Correta

A afirmativa diz que "as campanhas eleitorais dos Estados Unidos e Europa mantêm nos seus programas de governo o fantasma da migração como uma questão a ser resolvida, pois o migrante é visto como uma ameaça constante".

O texto sustenta isso no 2º parágrafo:

"Desde os anos de 1980, e até à ano em que Donald Trump chegou ao poder, não existe mais campanha eleitoral na Europa ou nos Estados Unidos em que não se acene com o espectro de uma migração invasiva. O migrante está no centro dos temores e das fantasias suscitadas pela ameaça terrorista."

A passagem confirma que a migração é um tema recorrente nas campanhas ("não existe mais campanha eleitoral... em que não se acene") e que o migrante é associado a uma ameaça ("espectro de uma migração invasiva", "ameaça terrorista"). A expressão "questão a ser resolvida" é uma paráfrase razoável de "espectro" e "ameaça", pois algo ameaçador precisa ser enfrentado. A afirmativa está correta.

Afirmativa II — ❌ Incorreta

A afirmativa diz que "os migrantes estão no centro das atenções políticas dos candidatos aos governos que, por sua vez, promovem importantes transformações na vida dessas pessoas".

A primeira parte é verdadeira: o texto diz que "O migrante está no centro dos temores e das fantasias". Porém, a segunda parte — "promovem importantes transformações na vida dessas pessoas" — não tem nenhuma base no texto. O texto afirma exatamente o oposto: os migrantes são "apagados" e "escondidos", vivendo "na sombra". Não há menção a políticas que transformem suas vidas. A banca extrapolou ao acrescentar uma consequência que o autor não afirma. A afirmativa está incorreta.

Afirmativa III — ✅ Correta

A afirmativa diz que "os migrantes constituem uma categoria de pessoas invisíveis, vivendo à sombra, sem que participem do universo cotidiano dos cidadãos".

O texto sustenta isso no 2º parágrafo:

"Mas essa hipervisibilidade se combina paradoxalmente com um apagamento muito real dos migrantes no espaço público. Entrevistos em uma área de descanso de autoestrada ou no desvio de uma passagem de fronteira, relegados às cozinhas dos restaurantes ou às oficinas clandestinas, escondidos atrás dos tapumes dos canteiros de obras da modernidade, constrangidos por sua própria condição a viver na sombra, os migrantes constituem uma categoria de pessoas que poucos cidadãos comuns têm a ocasião de cruzarem em sua vida cotidiana."

A passagem é uma paráfrase quase literal da afirmativa: "apagamento muito real" = "invisíveis"; "viver na sombra" = "vivendo à sombra"; "poucos cidadãos comuns têm a ocasião de cruzarem em sua vida cotidiana" = "sem que participem do universo cotidiano dos cidadãos". A afirmativa está correta.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação na afirmativa II: ela pega uma ideia verdadeira do texto (migrante no centro das atenções) e acrescenta uma consequência que o texto não afirma (promoção de transformações na vida dos migrantes). O texto, na verdade, diz o contrário — os migrantes são invisibilizados.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar afirmações, desconfie de qualquer item que acrescente uma consequência, causa ou finalidade que não esteja no texto. Pergunte sempre: "o texto diz isso ou eu estou completando com o que parece lógico?".

Conclusão: como as afirmativas I e III estão corretas e a II está incorreta, a resposta é a letra C (I e III, apenas).

Gabarito: letra C

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