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Questão de Português — Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc) — FCC 2024

PortuguêsPontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)
Código
fc146686
Banca
FCC
Órgão
MPE AM
Ano
2024
Cargo
Ag Tec ( )

Muros e lágrimas: refugiados, deslocados, migrantes

 

1. Dos "trabalhadores imigrantes”, últimos operários de fábricas agora fechadas ou deslocalizadas, aos “imigrantes ilegais”, modernos fornalheiros de um capitalismo que ambiciona ser financeiro e esconde sua criadagem; das prostitutas africanas aprisionadas na clandestinidade de uma escravidão moderna às longas filas de refugiados apanhados em ratoeiras nas fronteiras da Europa: é sob as formas contemporâneas da migração que as sociedades ocidentais representam doravante o estrangeiro, aquele que é preciso temer e lamentar ao mesmo tempo, vigiar e proteger.

 

2. Desde os anos de 1980, e até à ano em que Donald Trump chegou ao poder, não existe mais campanha eleitoral na Europa ou nos Estados Unidos em que não se acene com o espectro de uma migração invasiva. O migrante está no centro dos temores e das fantasias suscitadas pela ameaça terrorista, transformando cada requerente de asilo em uma vitima expiatória do medo da sombra. Mas essa hipervisibilidade se combina paradoxalmente com um apagamento muito real dos migrantes no espaço público. Entrevistos em uma área de descanso de autoestrada ou no desvio de uma passagem de fronteira, relegados às cozinhas dos restaurantes ou às oficinas clandestinas, escondidos atrás dos tapumes dos canteiros de obras da modernidade, constrangidos por sua própria condição a viver na sombra, os migrantes constituem uma categoria de pessoas que poucos cidadãos comuns têm a ocasião de cruzarem em sua vida cotidiana. Fora das trocas comuns se constrói, portanto, uma figura midiática do migrante, uma figura de retórica política e de discurso que o coloca no centro de um vórtex emocional de medos, e mesmo de ódio, ou então de empatia e de compaixão.

 

3. Como um reflexo das emoções extremas que eles provocam, parece normal hoje considerar a migração como uma tragédia, um trauma para aquele que a efetua. Para nós tornou-se difícil ver na migração uma experiência social banal, como se ela devesse ser a um só tempo crucial e determinante até o fim de suas vidas para aqueles que passaram por suas provações – quase a mesma definição clínica do traumatismo.

 

4 Essa dimensão trágica faz da migração a vertente sombria de todas as formas pelas quais o mundo moderno se pôs em movimento. O migrante é de cera forma o exato oposto do turista e do executivo intercontinental, dois personagens que aparecem nas mesmas épocas e constituem as figuras “solares” dessa mobilidade em vias de banalização. Raramente percebida como uma oportunidade, uma aventura, ou mesmo simplesmente uma banal peripécia, a migração é interpretada como um acidente, um drama, e até um delito. E mais: é com a condição de ser uma tragédia que ela existe como objeto político, isto é, ao mesmo tempo como objeto de designação, de discurso e de governança. Em suma, existe uma relação estreita entre a construção da migração como tragédia, seu formato emocional e seu tratamento como objeto político.

 

5. A narrativa política serve-se de uma confusão entre o que desencadeia os movimentos migratórios e a realidade da experiência que começa pela viagem migratória. Das grandes tragédias que são as guerras ou os desastres a essas pequenas tragédias familiares que são os destinos despoticamente atribuídos pelos pais aos filhos, é evidente que a migração nasce muitas vezes de uma tragédia original, mas à qual ela oferece uma saída, uma oportunidade de resistência e de salvação. É essa dimensão que a narrativa política esconde, e que ao contrário é objeto das narrativas íntimas: na abundante literatura etnográfica ou jornalística dominada pelos relatos de vida realistas, a migração é conduzida pela esperança de escapar a uma situação que era, de múltiplas maneiras possíveis, uma negação de ser. E na grande maioria de casos, essa esperança se realiza.

 

6. Portanto, é entre esses dois regimes narrativos, o político de uma tragédia e de uma ameaça de um lado, o biográfico de uma salvação do outro, que se constrói a carga emocional da experiência migratória contemporânea.

 

(Adaptado de: PERALDI, Michel. In: CORBIN, A.; COURTINE, J.J.; VIGARELLO, G. (Orgs.) História das emoções 3: do final do século XIX até hoje. Tradução de Maira Ferreira. Petrópolis: Vozes, 2020. p. 364-66)

Texto

   

Emprega-se vírgula para separar o aposto no seguinte trecho:

  1. ADesde os anos de 1980, e até o ano em que Donald Trump chegou ao poder (2º parágrafo).
  2. BFora das trocas comuns se constrói, portanto, uma figura midiática do migrante (2º parágrafo).
  3. CComo um reflexo das emoções extremas que eles provocam, parece normal hoje considerar a migração como uma tragédia (3º parágrafo).
  4. DDos “trabalhadores imigrantes”, últimos operários de fábricas agora fechadas ou deslocalizadas, aos “imigrantes ilegais" (1º parágrafo).
  5. EEm suma, existe uma relação estreita entre a construção da migração como tragédia (4º parágrafo).
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Dos “trabalhadores imigrantes”, últimos operários de fábricas agora fechadas ou deslocalizadas, aos “imigrantes ilegais" (1º parágrafo).

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Uso da vírgula para separar o aposto

Gabarito: letra D. A alternativa D é a única em que a vírgula isola um aposto explicativo: "Dos “trabalhadores imigrantes”, últimos operários de fábricas agora fechadas ou deslocalizadas, aos “imigrantes ilegais”". O trecho "últimos operários de fábricas agora fechadas ou deslocalizadas" é um termo acessório que explica, desenvolve e especifica o sentido do termo anterior "trabalhadores imigrantes", sendo, portanto, um aposto. As demais alternativas usam a vírgula para outras funções, como separar adjunto adverbial deslocado, isolar conjunção ou marcar elipse.

O comando da questão é direto: identificar em qual trecho a vírgula é empregada para separar o aposto. Isso exige conhecimento de sintaxe (função dos termos da oração) e de pontuação (uso da vírgula). Não se trata de interpretação de texto, mas de análise gramatical aplicada ao texto-base. A banca não quer que você entenda o sentido do texto, mas que reconheça a função sintática de um termo isolado por vírgulas.

O aposto é um termo de natureza explicativa que se junta a um substantivo ou pronome para esclarecer, desenvolver, resumir ou especificar a ideia expressa por ele. Ele é um termo acessório da oração, ou seja, pode ser retirado sem prejuízo da estrutura sintática. Quando o aposto é explicativo, ele vem entre vírgulas (ou travessões, ou parênteses). Veja o exemplo clássico: "Ares, o deus da guerra, inspirava os troianos". O termo "o deus da guerra" é um aposto que explica quem é Ares.

No trecho da alternativa D, temos a estrutura: "Dos “trabalhadores imigrantes”, últimos operários de fábricas agora fechadas ou deslocalizadas, aos “imigrantes ilegais”". O termo "últimos operários de fábricas agora fechadas ou deslocalizadas" está entre vírgulas e se refere diretamente a "trabalhadores imigrantes", explicando quem são eles. É exatamente a função do aposto: acrescentar uma informação que caracteriza o termo anterior. Se retirarmos esse trecho, a frase continua gramaticalmente correta: "Dos “trabalhadores imigrantes” aos “imigrantes ilegais”". Isso confirma que se trata de um termo acessório, o aposto.

A técnica para resolver essa questão é simples: identifique o termo que está entre vírgulas e verifique se ele explica ou especifica o termo anterior. Se sim, é aposto. Nas outras alternativas, a vírgula tem outras funções, como veremos a seguir.

1Aposto explicativo
Explica/especifica termo anterior
Entre vírgulas, travessões ou parênteses
Retirada não prejudica a estrutura
2Adjunto adverbial deslocado
Indica circunstância (tempo, lugar, modo)
Separado quando anteposto
3Conjunção deslocada
"portanto", "porém", "contudo"
Isolada entre vírgulas
4Expressão explicativa
"Em suma", "ou seja"
Organiza o discurso
Funções da vírgula
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Funções da vírgula: Aposto explicativo (Explica/especifica termo anterior, Entre vírgulas, travessões ou parênteses, Retirada não prejudica a estrutura); Adjunto adverbial deslocado (Indica circunstância (tempo, lugar, modo), Separado quando anteposto); Conjunção deslocada ("portanto", "porém", "contudo", Isolada entre vírgulas); Expressão explicativa ("Em suma", "ou seja", Organiza o discurso)

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Desde os anos de 1980, e até o ano em que Donald Trump chegou ao poder"

Aqui, a vírgula separa um adjunto adverbial de tempo deslocado ("Desde os anos de 1980") do restante da oração. O adjunto adverbial é um termo que indica circunstância (tempo, lugar, modo etc.) e, quando deslocado para o início da frase, é separado por vírgula. Não há aposto, pois o trecho "e até o ano em que Donald Trump chegou ao poder" não explica o termo anterior; ele apenas complementa a ideia de tempo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Fora das trocas comuns se constrói, portanto, uma figura midiática do migrante"

A vírgula aqui isola a conjunção coordenativa "portanto", que está deslocada de sua posição natural (início da oração). Quando uma conjunção como "portanto", "porém", "contudo" é deslocada, ela deve vir entre vírgulas. Não há aposto, pois "portanto" não explica nenhum termo; ela estabelece uma relação de conclusão entre as orações.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Como um reflexo das emoções extremas que eles provocam, parece normal hoje considerar a migração como uma tragédia"

A vírgula separa uma oração subordinada adverbial ("Como um reflexo das emoções extremas que eles provocam") que está anteposta à oração principal. Quando a oração adverbial vem antes da principal, a vírgula é obrigatória. Não há aposto, pois o trecho inicial não explica um termo; ele indica uma circunstância (causa, modo).

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Dos “trabalhadores imigrantes”, últimos operários de fábricas agora fechadas ou deslocalizadas, aos “imigrantes ilegais”"

Como já explicado, o trecho "últimos operários de fábricas agora fechadas ou deslocalizadas" é um aposto explicativo do termo "trabalhadores imigrantes". Ele está entre vírgulas porque é um termo acessório que acrescenta uma informação, explicando quem são os "trabalhadores imigrantes". A retirada desse trecho não compromete a estrutura da frase, confirmando a função de aposto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Em suma, existe uma relação estreita entre a construção da migração como tragédia"

A vírgula separa a expressão explicativa "Em suma", que funciona como um marcador discursivo, resumindo ou concluindo uma ideia. Não há aposto, pois "Em suma" não explica um termo da oração; ela é uma expressão que organiza o discurso.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre as diferentes funções da vírgula. A alternativa D é a única em que o termo isolado é um aposto, mas as outras alternativas usam a vírgula para funções igualmente válidas, como separar adjunto adverbial, isolar conjunção ou marcar expressão explicativa. A chave é identificar a função sintática do termo isolado, não apenas a presença da vírgula.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar um aposto, pergunte: "O termo entre vírgulas explica ou especifica o termo anterior?" Se sim, é aposto. Se o termo indicar circunstância (tempo, lugar, modo), for uma conjunção ou uma expressão de ligação, a vírgula tem outra função.

Gabarito: letra D — a única em que a vírgula isola um aposto explicativo, termo que desenvolve o sentido do substantivo anterior.

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