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Questão de Português — Vozes (Voz Passiva e Voz Ativa) — FCC 2024

PortuguêsVozes (Voz Passiva e Voz Ativa)
Código
fc146687
Banca
FCC
Órgão
MPE AM
Ano
2024
Cargo
Ag Tec ( )

Muros e lágrimas: refugiados, deslocados, migrantes

 

1. Dos "trabalhadores imigrantes”, últimos operários de fábricas agora fechadas ou deslocalizadas, aos “imigrantes ilegais”, modernos fornalheiros de um capitalismo que ambiciona ser financeiro e esconde sua criadagem; das prostitutas africanas aprisionadas na clandestinidade de uma escravidão moderna às longas filas de refugiados apanhados em ratoeiras nas fronteiras da Europa: é sob as formas contemporâneas da migração que as sociedades ocidentais representam doravante o estrangeiro, aquele que é preciso temer e lamentar ao mesmo tempo, vigiar e proteger.

 

2. Desde os anos de 1980, e até à ano em que Donald Trump chegou ao poder, não existe mais campanha eleitoral na Europa ou nos Estados Unidos em que não se acene com o espectro de uma migração invasiva. O migrante está no centro dos temores e das fantasias suscitadas pela ameaça terrorista, transformando cada requerente de asilo em uma vitima expiatória do medo da sombra. Mas essa hipervisibilidade se combina paradoxalmente com um apagamento muito real dos migrantes no espaço público. Entrevistos em uma área de descanso de autoestrada ou no desvio de uma passagem de fronteira, relegados às cozinhas dos restaurantes ou às oficinas clandestinas, escondidos atrás dos tapumes dos canteiros de obras da modernidade, constrangidos por sua própria condição a viver na sombra, os migrantes constituem uma categoria de pessoas que poucos cidadãos comuns têm a ocasião de cruzarem em sua vida cotidiana. Fora das trocas comuns se constrói, portanto, uma figura midiática do migrante, uma figura de retórica política e de discurso que o coloca no centro de um vórtex emocional de medos, e mesmo de ódio, ou então de empatia e de compaixão.

 

3. Como um reflexo das emoções extremas que eles provocam, parece normal hoje considerar a migração como uma tragédia, um trauma para aquele que a efetua. Para nós tornou-se difícil ver na migração uma experiência social banal, como se ela devesse ser a um só tempo crucial e determinante até o fim de suas vidas para aqueles que passaram por suas provações – quase a mesma definição clínica do traumatismo.

 

4 Essa dimensão trágica faz da migração a vertente sombria de todas as formas pelas quais o mundo moderno se pôs em movimento. O migrante é de cera forma o exato oposto do turista e do executivo intercontinental, dois personagens que aparecem nas mesmas épocas e constituem as figuras “solares” dessa mobilidade em vias de banalização. Raramente percebida como uma oportunidade, uma aventura, ou mesmo simplesmente uma banal peripécia, a migração é interpretada como um acidente, um drama, e até um delito. E mais: é com a condição de ser uma tragédia que ela existe como objeto político, isto é, ao mesmo tempo como objeto de designação, de discurso e de governança. Em suma, existe uma relação estreita entre a construção da migração como tragédia, seu formato emocional e seu tratamento como objeto político.

 

5. A narrativa política serve-se de uma confusão entre o que desencadeia os movimentos migratórios e a realidade da experiência que começa pela viagem migratória. Das grandes tragédias que são as guerras ou os desastres a essas pequenas tragédias familiares que são os destinos despoticamente atribuídos pelos pais aos filhos, é evidente que a migração nasce muitas vezes de uma tragédia original, mas à qual ela oferece uma saída, uma oportunidade de resistência e de salvação. É essa dimensão que a narrativa política esconde, e que ao contrário é objeto das narrativas íntimas: na abundante literatura etnográfica ou jornalística dominada pelos relatos de vida realistas, a migração é conduzida pela esperança de escapar a uma situação que era, de múltiplas maneiras possíveis, uma negação de ser. E na grande maioria de casos, essa esperança se realiza.

 

6. Portanto, é entre esses dois regimes narrativos, o político de uma tragédia e de uma ameaça de um lado, o biográfico de uma salvação do outro, que se constrói a carga emocional da experiência migratória contemporânea.

 

(Adaptado de: PERALDI, Michel. In: CORBIN, A.; COURTINE, J.J.; VIGARELLO, G. (Orgs.) História das emoções 3: do final do século XIX até hoje. Tradução de Maira Ferreira. Petrópolis: Vozes, 2020. p. 364-66)

Texto

   

Considerando-se o contexto, NÃO admite transposição para a voz passiva o seguinte segmento:

  1. AFora das trocas comuns se constrói, portanto, uma figura midiática do migrante (2º parágrafo).
  2. Ba migração nasce muitas vezes de uma tragédia original (5º parágrafo).
  3. Cas sociedades ocidentais representam doravante o estrangeiro (1º parágrafo).
  4. Dse constrói a carga emocional da experiência migratória contemporânea (6º parágrafo).
  5. Eos migrantes constituem uma categoria de pessoas (2º parágrafo).
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — a migração nasce muitas vezes de uma tragédia original (5º parágrafo).

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Transposição para a voz passiva: quando o verbo não permite

Gabarito: letra B. O segmento "a migração nasce muitas vezes de uma tragédia original" NÃO admite transposição para a voz passiva porque o verbo nascer é intransitivo — não possui objeto direto, e a voz passiva exige, na voz ativa, um verbo transitivo direto (ou transitivo direto e indireto) com objeto direto que se tornará sujeito paciente. Como se lê no 5º parágrafo, a frase é "a migração nasce muitas vezes de uma tragédia original", em que "de uma tragédia original" é complemento regido por preposição (objeto indireto), não objeto direto. Sem objeto direto, não há como converter para a passiva.

O comando: o que a banca pede

A questão pede que você identifique o segmento que NÃO admite transposição para a voz passiva. Isso é uma questão de gramática aplicada ao texto: você deve analisar a transitividade do verbo de cada alternativa e verificar se existe objeto direto que possa virar sujeito paciente. Não se trata de interpretação de sentido, mas de estrutura sintática — a resposta está na natureza do verbo, não no conteúdo.

A regra que decide: voz passiva exige objeto direto

A voz passiva (analítica: ser + particípio; ou sintética: verbo + se) só é possível quando o verbo da voz ativa é transitivo direto (VTD) ou transitivo direto e indireto (VTDI), pois é o objeto direto que se transforma em sujeito paciente. Verbos intransitivos (VI), transitivos indiretos (VTI) e de ligação (VL) não admitem passiva, pois não possuem objeto direto.

No trecho "a migração nasce muitas vezes de uma tragédia original", o verbo nascer é intransitivo: quem nasce, nasce de algum lugar ou situação. O complemento "de uma tragédia original" é um adjunto adverbial de origem (ou, em algumas análises, objeto indireto), mas nunca objeto direto. Por isso, não é possível dizer "uma tragédia original é nascida pela migração" — a frase seria agramatical.

Análise das alternativas

1Verbos que admitem
Transitivo direto (VTD)
Transitivo direto e indireto (VTDI)
2Verbos que NÃO admitem
Intransitivo (VI)
Transitivo indireto (VTI)
De ligação (VL)
3Exemplos de VI sem passiva
Nascer
Morrer
Chegar
Voz passiva: exige objeto direto
LEVELsoulevel.com.br
Voz passiva: exige objeto direto: Verbos que admitem (Transitivo direto (VTD), Transitivo direto e indireto (VTDI)); Verbos que NÃO admitem (Intransitivo (VI), Transitivo indireto (VTI), De ligação (VL)); Exemplos de VI sem passiva (Nascer, Morrer, Chegar)

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Fora das trocas comuns se constrói, portanto, uma figura midiática do migrante"

Aqui, o verbo construir é transitivo direto, e "uma figura midiática do migrante" é o objeto direto. Na voz passiva sintética, o "se" é partícula apassivadora, e o objeto direto vira sujeito paciente: "uma figura midiática do migrante se constrói". A transposição é perfeitamente possível, pois há objeto direto. Erro da alternativa: não é a correta, pois admite passiva.

Alternativa B — ✅ Correta

"a migração nasce muitas vezes de uma tragédia original"

Como explicado, o verbo nascer é intransitivo, não havendo objeto direto. Não é possível converter para a voz passiva. Esta é a única alternativa que não admite transposição.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"as sociedades ocidentais representam doravante o estrangeiro"

O verbo representar é transitivo direto, e "o estrangeiro" é objeto direto. A passiva seria: "o estrangeiro é representado pelas sociedades ocidentais". Perfeitamente possível. Erro: admite passiva.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"se constrói a carga emocional da experiência migratória contemporânea"

Aqui, "se constrói" já está na voz passiva sintética, com "a carga emocional" como sujeito paciente. A transposição para a passiva analítica seria: "a carga emocional é construída". Portanto, admite transposição. Erro: já está em passiva e pode ser convertida.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"os migrantes constituem uma categoria de pessoas"

O verbo constituir é transitivo direto, e "uma categoria de pessoas" é objeto direto. A passiva seria: "uma categoria de pessoas é constituída pelos migrantes". Possível. Erro: admite passiva.

Conclusão

A única alternativa que não admite transposição para a voz passiva é a letra B, pois o verbo nascer é intransitivo, sem objeto direto. As demais apresentam verbos transitivos diretos, permitindo a conversão.

PEGA ESSA DICA!

Para resolver questões de voz passiva, identifique primeiro o verbo e sua transitividade. Se houver objeto direto, a passiva é possível; se o verbo for intransitivo ou transitivo indireto, não. Desconfie de verbos como "nascer", "morrer", "chegar", "gostar" — eles não têm objeto direto.

Gabarito: letra B

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