Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc146705
Banca
FCC
Órgão
TRF 3
Ano
2024
Cargo
AJ TRF3
Leis dos homens e leis da Natureza
Enquanto as leis dos homens buscam ordenar o comportamento dos indivíduos e da sociedade como um todo, de modo a tornar a vida comunal mais segura, as leis da Natureza são deduzidas de observações de toda uma variedade de fenômenos. Da mesma forma, enquanto as leis dos homens são baseadas em valores morais que variam de cultura para cultura e conforme o decorrer do tempo, as leis da Natureza buscam uma universidade, tentando descrever comportamentos concretos - e verificáveis - que ocorrem no espaço e no tempo.
Com isso, se para um grupo certos rituais são aceitáveis, enquanto para outro os mesmos rituais são considerados bárbaros, estrelas em todo o cosmos vêm fundindo hidrogênio em hélio seguindo as mesmas regras desde o seu aparecimento, por volta de 200 milhões de anos após o Big Bang. Se em alguns países a pena de morte é um ato imoral, enquanto em outros é instituída com um zelo quase que fanático, moléculas em trilhões de planetas e luas nesta e em outras galáxias combinam-se e recombinam-se em reações químicas que seguem as mesmas leis de conservação, de atração e repulsão entre os reagentes.
As variações nas leis dos homens mostram que pouco sabemos sobre nós mesmos, e tampouco conseguimos concordar sobre quais são os valores morais universais, ou mesmo se esses existem. Por outro lado, a precisão das leis da Natureza, sua universalidade, vem inspirando muitos pensadores a usá-las como base para todas as leis, incluindo as leis dos homens. Basta lembrar-se da busca de leis sociais, fundamentadas rigidamente na racionalidade que caracterizou o Iluminismo. Essa busca não começou aí, existindo já bem antes do século XVIII. Consideremos, por exemplo, Platão e suas Formas Ideais: há no pensamento desse filósofo da Antiguidade, um senso de veneração com o poder da matemática, e ainda mais com o poder da mente humana, por ter concebido o que pareciam ser verdades eternas a partir da observação do comportamento da Natureza.
(Adaptado de: GLEISER, Marcelo. A Ilha do conhecimento. Rio de Janeiro: Record, 2023. 7.ed., p. 288-289)
Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo. Quando, no 3º terceiro parágrafo, o autor se refere à busca de leis sociais, fundamentadas rigidamente na racionalidade, ele está querendo demonstrar
Aa universalidade das leis naturais em oposição à variação mesma das discutíveis leis morais.
Bo poder da mente humana quando calcado na contestação platônica da existência das formas ideais.
Co desapego que os homens ao tempo do iluminismo mantinham em relação aos valores morais.
Do inconformismo radical de Platão quanto ao prestígio exagerado de que gozava a matemática.
Ea racionalidade das leis morais presente na observação dos comportamentos da natureza.
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GabaritoA — a universalidade das leis naturais em oposição à variação mesma das discutíveis leis morais.
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A busca de leis sociais racionais: o contraste entre leis naturais e leis morais
Gabarito: letra A. Ao mencionar a busca de leis sociais fundamentadas na racionalidade, o autor quer demonstrar a universalidade das leis naturais em oposição à variação das leis morais. Essa leitura se ancora no 3º parágrafo, onde se lê que "a precisão das leis da Natureza, sua universalidade, vem inspirando muitos pensadores a usá-las como base para todas as leis, incluindo as leis dos homens". A menção ao Iluminismo e a Platão serve justamente para ilustrar essa inspiração — não para defender o racionalismo em si, nem para criticar Platão ou a matemática.
O comando pede compreensão ("está querendo demonstrar"), ou seja, exige localizar a intenção do autor ao citar a busca de leis sociais racionais. Não se trata de inferir algo além do texto, mas de reconhecer a função argumentativa da passagem dentro do conjunto. O texto todo constrói uma oposição entre dois tipos de lei: as dos homens (variáveis, baseadas em valores morais) e as da Natureza (universais, verificáveis). A referência ao Iluminismo e a Platão é um exemplo histórico dessa inspiração — o autor não está elogiando nem criticando esses movimentos, apenas mostrando como a universalidade das leis naturais seduziu pensadores.
A técnica decisiva aqui é identificar a relação de oposição que estrutura o texto. O 1º parágrafo já estabelece o contraste: "enquanto as leis dos homens são baseadas em valores morais que variam de cultura para cultura", "as leis da Natureza buscam uma universalidade". O 3º parágrafo retoma essa oposição ao dizer que a universalidade das leis naturais "vem inspirando muitos pensadores a usá-las como base para todas as leis". A busca de leis sociais racionais é, portanto, uma consequência dessa inspiração — e o que ela demonstra é exatamente o contraste entre a universalidade natural e a variação moral.
"a precisão das leis da Natureza, sua universalidade, vem inspirando muitos pensadores a usá-las como base para todas as leis, incluindo as leis dos homens"
Essa passagem é a chave: o autor afirma que a universalidade das leis naturais inspirou a busca de leis sociais racionais. A alternativa A parafraseia essa ideia ao falar em "universalidade das leis naturais em oposição à variação mesma das discutíveis leis morais" — exatamente o contraste que o texto estabelece. As demais alternativas ou invertem a relação, ou acrescentam opiniões que o autor não emite, ou trocam o foco da argumentação.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a extrapolação — alternativas que soam plausíveis (crítica a Platão, elogio ao Iluminismo) mas que o texto não sustenta. O autor não julga esses movimentos; apenas os usa como exemplos da inspiração que a universalidade natural exerce.
Leis naturais: Universalidade; Precisão; Inspiram leis sociais racionais; Leis morais (Variam de cultura para cultura, Baseadas em valores)
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa afirma que a busca de leis sociais racionais demonstra "a universalidade das leis naturais em oposição à variação mesma das discutíveis leis morais". Isso é exatamente o que o texto diz. No 3º parágrafo, o autor contrapõe "as variações nas leis dos homens" à "precisão das leis da Natureza, sua universalidade", e afirma que essa universalidade inspirou a busca de leis sociais racionais. A palavra "oposição" captura a estrutura argumentativa central do texto, presente desde o 1º parágrafo com o conectivo "enquanto".
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa fala em "poder da mente humana quando calcado na contestação platônica da existência das formas ideais". O texto menciona Platão e suas Formas Ideais, mas não diz que ele contestava a existência delas — pelo contrário, o autor fala em "veneração com o poder da matemática" e "verdades eternas". Além disso, o foco da passagem não é o poder da mente, mas a inspiração que a universalidade natural exerce. Erro: contradiz o texto (inverte a posição de Platão) e extrapola (acrescenta uma contestação que não existe).
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa fala em "desapego que os homens ao tempo do iluminismo mantinham em relação aos valores morais". O texto não diz que os iluministas eram desapegados dos valores morais. Ele apenas menciona "a busca de leis sociais, fundamentadas rigidamente na racionalidade que caracterizou o Iluminismo" — ou seja, o Iluminismo é citado como exemplo de busca racional, não como movimento de desapego moral. Erro: extrapola — acrescenta uma característica que o texto não atribui ao Iluminismo.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa fala em "inconformismo radical de Platão quanto ao prestígio exagerado de que gozava a matemática". O texto diz exatamente o oposto: Platão tinha "um senso de veneração com o poder da matemática". Não há inconformismo, nem crítica ao prestígio da matemática. Erro: contradiz o texto — inverte a atitude de Platão descrita pelo autor.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa fala em "racionalidade das leis morais presente na observação dos comportamentos da natureza". O texto não diz que as leis morais são racionais — pelo contrário, afirma que elas "são baseadas em valores morais que variam de cultura para cultura". A racionalidade é atribuída à busca de leis sociais, não às leis morais em si. Além disso, a observação da natureza é característica das leis naturais, não das morais. Erro: troca conceitos — confunde o que o texto atribui a cada tipo de lei.
Conclusão: a questão testa a capacidade de reconhecer a função argumentativa de uma passagem dentro do texto. A alternativa correta é a que captura a oposição central entre leis naturais (universais) e leis morais (variáveis). As demais ou invertem o que o texto diz, ou acrescentam opiniões que o autor não emite. Gabarito: letra A.