Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc146709
Banca
FCC
Órgão
TRF 3
Ano
2024
Cargo
AJ TRF3
Valor social da memória
Não há evocação, não há memória sem uma inteligência do presente, um homem não sabe o que ele é se não for capaz de sair das determinações atuais. Aturada reflexão pode preceder e acompanhar a evocação. Uma lembrança é um diamante bruto que precisa ser lapidado pelo espírito: sem o trabalho da reflexão e da localização, seria uma imagem fugidia. O sentimento também precisa acompanhá-la, para que ela não seja uma repetição do estado antigo, mas uma reaparição.
Se existe uma memória voltada para a ação, com sua prática de hábitos assimilados, e uma outra memória que simplesmente revive o passado, parece ser esta a dos velhos, Já libertos das atividades profissionais e familiares. Mas o ancião não sonha quando rememora: desempenha uma função para a qual está maduro, a alta função de unir o começo ao fim, de divisar os limites de uma história inteira. Um mundo social que possuí uma riqueza e uma diversidade que não conhecemos pode chegar-nos pela memória dos velhos. Momentos desse mundo perdido podem ser compreendidos por quem não os viveu. A conversa evocativa de um velho é sempre uma experiência profunda: para quem sabe ouvi-la, cria um nexo entre o passado e o presente, é Instigante e inspiradora.
(Adaptado de: 8OS1, Edéa. Memória e sociedade - Lembranças de velhos. 20.ed. sao Paulo: Companhia das Letras. p. 84)
Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo. O valor da memória dos velhos está, sobretudo,
Ano árduo trabalho das fantasias que descrevem a totalidade de uma vida.
Bna capacidade que têm os velhos de registrar detalhes avulsos de uma história perdida.
Cna capacidade que têm de articular experiências Já vividas às questões abertas no presente.
Dna repercussão subjetiva que o passado adquire quando fielmente reconstituído.
Eno estímulo das poderosas imagens passadas que relativizam a importância do presente.
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GabaritoC — na capacidade que têm de articular experiências Já vividas às questões abertas no presente.
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O valor social da memória dos velhos
Gabarito: letra C. O valor da memória dos velhos está, sobretudo, na capacidade que têm de articular experiências já vividas às questões abertas no presente — exatamente o que o texto afirma ao dizer que o ancião desempenha "a alta função de unir o começo ao fim" e que sua conversa evocativa "cria um nexo entre o passado e o presente". A alternativa C é a única que parafraseia fielmente essa ideia central, sem acrescentar, restringir ou inverter nada do que o autor escreveu.
O comando pede uma compreensão do texto: a resposta deve ser uma paráfrase (reescritura fiel) de uma ideia que está explícita no segundo parágrafo. Não se trata de inferir algo nas entrelinhas, mas de localizar a passagem que define o valor da memória dos velhos e reconhecer sua reescritura equivalente. A banca, aqui, testa se o candidato identifica o núcleo argumentativo do texto: a memória do ancião não vale por si mesma (como arquivo do passado), mas pela função de ligação que exerce entre passado e presente.
O texto desenvolve essa tese em dois movimentos. Primeiro, distingue dois tipos de memória: uma "voltada para a ação" (hábitos) e outra que "simplesmente revive o passado" — e afirma que esta é a dos velhos. Mas, em seguida, faz uma ressalva decisiva: "o ancião não sonha quando rememora: desempenha uma função para a qual está maduro, a alta função de unir o começo ao fim, de divisar os limites de uma história inteira". É essa função de unir — e não o simples reviver — que constitui o valor da memória dos velhos. O parágrafo fecha com a confirmação: "A conversa evocativa de um velho é sempre uma experiência profunda: para quem sabe ouvi-la, cria um nexo entre o passado e o presente".
A técnica para resolver: sublinhe no texto as palavras que expressam relação (unir, nexo, ligação) e perceba que o autor valoriza a memória na medida em que ela conecta tempos, não como mera recordação. Toda alternativa que apresentar a memória como fim em si mesma (arquivo, fantasia, detalhe) ou que inverter a direção da relação (passado que relativiza o presente) estará errada. O critério decisivo: o texto autoriza esta afirmação? — e a única autorizada é a que fala em articular experiências passadas com questões presentes.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de compreensão, grife os substantivos abstratos que o autor usa para qualificar o tema (função, nexo, ligação) — eles costumam ser a chave da paráfrase correta.
Valor da memória dos velhos
1Não é
Fantasia (não sonha ao rememorar)
Arquivo de detalhes avulsos
Fim em si mesma
2É
Função de unir começo ao fim
Criar nexo entre passado e presente
Articular experiências vividas às questões atuais
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não fala em "árduo trabalho das fantasias". Pelo contrário, afirma que "o ancião não sonha quando rememora" — ou seja, a rememoração não é fantasia, mas função. A alternativa inventa uma ideia (fantasias que descrevem a totalidade) que o texto não sustenta; além disso, "totalidade de uma vida" é um exagero que o texto não afirma (ele fala em "divisar os limites de uma história inteira", o que é diferente de descrever a totalidade).
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: restrição. O texto valoriza a memória que une passado e presente, não a que registra "detalhes avulsos". A palavra "avulsos" contradiz a ideia de nexo e ligação: o autor diz que a conversa evocativa "cria um nexo", ou seja, articula, não isola. A alternativa restringe o valor da memória a um aspecto (registro de detalhes) que o texto não prioriza — e ainda o faz de forma avulsa, o que vai contra a tese central.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Paráfrase fiel. O texto afirma que o ancião desempenha "a alta função de unir o começo ao fim" e que sua conversa "cria um nexo entre o passado e o presente". A alternativa C reescreve exatamente isso: "articular experiências já vividas às questões abertas no presente". Cada termo corresponde a uma passagem: "experiências já vividas" = passado; "questões abertas no presente" = presente; "articular" = unir/criar nexo. Não há acréscimo, restrição ou inversão — é a única que traduz o núcleo argumentativo sem desviar.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: opinião embutida. O texto não fala em "repercussão subjetiva" nem em "reconstituição fiel". A ideia de "fielmente reconstituído" é uma opinião que o candidato pode achar razoável, mas o autor não a externa — ele fala em "reaparição" e em "unir", não em fidelidade. Além disso, "repercussão subjetiva" é um conceito psicológico que não está no texto. A alternativa tangencia o tema (fala de memória, mas de um ângulo que o texto não aborda).
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que as imagens passadas "relativizam a importância do presente" — mas o texto afirma o contrário: a memória cria um nexo com o presente, ou seja, valoriza a conexão, não a relativiza. O autor diz que a conversa evocativa "cria um nexo entre o passado e o presente", o que implica que o presente é importante para a memória (é o ponto de chegada). A alternativa inverte a relação: em vez de unir, ela separa e desvaloriza o presente.
Conclusão: a questão cobra a ideia central do segundo parágrafo: a memória dos velhos vale pela função de ligação entre passado e presente. A única alternativa que preserva essa relação é a C. As demais ou extrapolam (A), restringem (B), acrescentam opinião (D) ou contradizem o texto (E).