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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc146710
Banca
FCC
Órgão
TRF 3
Ano
2024
Cargo
AJ TRF3

Valor social da memória

 

Não há evocação, não há memória sem uma inteligência do presente, um homem não sabe o que ele é se não for capaz de sair das determinações atuais. Aturada reflexão pode preceder e acompanhar a evocação. Uma lembrança é um diamante bruto que precisa ser lapidado pelo espírito: sem o trabalho da reflexão e da localização, seria uma imagem fugidia. O sentimento também precisa acompanhá-la, para que ela não seja uma repetição do estado antigo, mas uma reaparição.

 

Se existe uma memória voltada para a ação, com sua prática de hábitos assimilados, e uma outra memória que simplesmente revive o passado, parece ser esta a dos velhos, Já libertos das atividades profissionais e familiares. Mas o ancião não sonha quando rememora: desempenha uma função para a qual está maduro, a alta função de unir o começo ao fim, de divisar os limites de uma história inteira. Um mundo social que possuí uma riqueza e uma diversidade que não conhecemos pode chegar-nos pela memória dos velhos. Momentos desse mundo perdido podem ser compreendidos por quem não os viveu. A conversa evocativa de um velho é sempre uma experiência profunda: para quem sabe ouvi-la, cria um nexo entre o passado e o presente, é Instigante e inspiradora.

 

(Adaptado de: 8OS1, Edéa. Memória e sociedade - Lembranças de velhos. 20.ed. sao Paulo: Companhia das Letras. p. 84)

Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo.     Considerando-se o contexto, deve-se entender que a expressão
  1. Adivisar os limites de uma história (2º parágrafo) aponta para a relevância social da memória dos velhos.
  2. Bpara quem sabe ouvi-la (2ºparágralo) personaliza um receptor de atenção descurada.
  3. CInteligência do presente (1º parágrafo) refere-se à racionalidade de quem se aliena do que Já passou.
  4. Ddiamante bruto (1º parágrafo) é utilizada para acentuar o desprestígio de que sofre a memória dos velhos.
  5. Eprática de hábitos assimilados (2º parágrafo) acentua a capacidade máxima de criação que tem a memória.
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GabaritoA — divisar os limites de uma história (2º parágrafo) aponta para a relevância social da memória dos velhos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O valor social da memória dos velhos: o sentido de "divisar os limites"

Gabarito: letra A. A expressão "divisar os limites de uma história" aponta para a relevância social da memória dos velhos porque, no texto, essa capacidade de "unir o começo ao fim" é apresentada como a "alta função" do ancião, que permite que "um mundo social que possui uma riqueza e uma diversidade que não conhecemos" chegue até nós. A alternativa correta é a única que capta essa função social e positiva atribuída à memória dos velhos, como se lê no 2º parágrafo.

A questão pede que se interprete o sentido de uma expressão no contexto — não é uma pergunta de compreensão literal, mas de inferência ancorada no texto. O comando "deve-se entender que a expressão" indica que precisamos ir além do significado dicionarizado e captar o que o autor quer dizer com aquela expressão naquele ponto específico. A banca testa se o candidato percebe o valor positivo e social que o texto atribui à memória dos velhos, em oposição a leituras negativas ou restritivas.

O texto defende uma tese central: a memória dos velhos tem um valor social — ela não é mera recordação, mas uma função que conecta passado e presente, permitindo que um mundo perdido seja compreendido. No 2º parágrafo, o autor afirma que o ancião "desempenha uma função para a qual está maduro, a alta função de unir o começo ao fim, de divisar os limites de uma história inteira". A expressão "divisar os limites" significa enxergar, perceber os contornos de uma história — ou seja, o ancião, ao rememorar, consegue visualizar o conjunto de uma trajetória, dando-lhe sentido e totalidade. Essa capacidade é descrita como "alta função", o que já sinaliza a valorização social.

A técnica para resolver: não leia a expressão isoladamente — volte ao contexto imediato e ao parágrafo inteiro. O autor diz que o ancião "não sonha quando rememora: desempenha uma função para a qual está maduro". A palavra "função" é decisiva: rememorar não é um passatempo, é um papel social — o de "unir o começo ao fim" e "divisar os limites de uma história inteira". Em seguida, o texto explica o porquê dessa relevância: "Um mundo social que possui uma riqueza e uma diversidade que não conhecemos pode chegar-nos pela memória dos velhos". Ou seja, a memória do ancião é um canal de acesso a um mundo perdido, algo de valor coletivo. A alternativa A é a única que traduz exatamente essa função social.

"desempenha uma função para a qual está maduro, a alta função de unir o começo ao fim, de divisar os limites de uma história inteira"

Aqui, "divisar os limites" = perceber os contornos, abarcar a totalidade de uma história. E o texto logo conecta isso à transmissão de um mundo social rico e diverso. Portanto, a expressão aponta para a relevância social da memória dos velhos — é isso que a alternativa A afirma.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A está correta porque "divisar os limites de uma história" é apresentado como parte da "alta função" do ancião, que "une o começo ao fim" e permite que "um mundo social que possui uma riqueza e uma diversidade que não conhecemos" chegue até nós. A expressão, portanto, aponta para a relevância social da memória dos velhos: é por meio dela que se acessa um mundo perdido. A alternativa é uma paráfrase fiel do trecho, sem acrescentar nada de fora.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B diz que "para quem sabe ouvi-la" personaliza um receptor de atenção descurada. Isso contradiz o texto. O autor afirma que "A conversa evocativa de um velho é sempre uma experiência profunda: para quem sabe ouvi-la, cria um nexo entre o passado e o presente, é instigante e inspiradora". O receptor é descrito como alguém que sabe ouvir — e a conversa é "experiência profunda", "instigante e inspiradora". Não há nenhuma "atenção descurada"; pelo contrário, há a valorização de uma escuta atenta. A alternativa inverte o sentido ao introduzir um juízo negativo que o texto não contém. Erro: contradiz o texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C afirma que "inteligência do presente" se refere à racionalidade de quem se aliena do que já passou. Isso extrapola o texto. No 1º parágrafo, o autor diz: "Não há evocação, não há memória sem uma inteligência do presente, um homem não sabe o que ele é se não for capaz de sair das determinações atuais". A "inteligência do presente" é apresentada como condição para a memória — é a capacidade de refletir sobre o presente para então evocar o passado. Não há qualquer ideia de "alienação" ou de "racionalidade de quem se aliena". A alternativa acrescenta uma opinião (a de que isso seria alienação) que não está no texto. Erro: extrapolação.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D diz que "diamante bruto" é usada para acentuar o desprestígio de que sofre a memória dos velhos. Isso contradiz o texto. No 1º parágrafo, o autor escreve: "Uma lembrança é um diamante bruto que precisa ser lapidado pelo espírito: sem o trabalho da reflexão e da localização, seria uma imagem fugidia". A metáfora do "diamante bruto" valoriza a lembrança — diamante é algo precioso, que precisa apenas ser lapidado. Não há "desprestígio" algum; pelo contrário, há a ideia de que a lembrança tem potencial valioso que se realiza com o trabalho da reflexão. A alternativa inverte o sentido da metáfora. Erro: contradiz o texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E afirma que "prática de hábitos assimilados" acentua a capacidade máxima de criação que tem a memória. Isso restringe e distorce o texto. No 2º parágrafo, o autor distingue duas memórias: "uma memória voltada para a ação, com sua prática de hábitos assimilados, e uma outra memória que simplesmente revive o passado". A "prática de hábitos assimilados" é característica da memória voltada para a ação — não é apresentada como algo criativo, mas como algo mecânico, repetitivo. A alternativa atribui a essa expressão um sentido de "capacidade máxima de criação" que o texto não confere. Erro: troca de conceito — confunde a memória prática com a memória criativa.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a inversão de valor: oferece leituras que transformam uma ideia positiva (memória como função social, lembrança como diamante) em algo negativo (desprestígio, alienação) ou que trocam o sentido de uma expressão (prática de hábitos como criação). Fique atento ao tom do texto: ele é elogioso em relação à memória dos velhos.

PEGA ESSA DICA!

Ao interpretar uma expressão, volte ao parágrafo e pergunte: qual é a função dessa expressão no argumento? Se o texto valoriza a memória, a expressão deve apontar para esse valor. Desconfie de alternativas que introduzem juízos negativos ou palavras absolutas ("sempre", "nunca", "apenas").

Conclusão: a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto é a letra A, pois "divisar os limites de uma história" é apresentado como a "alta função" do ancião, que permite transmitir um mundo social rico e diverso — exatamente a relevância social da memória dos velhos. As demais ou contradizem o texto, ou extrapolam com opiniões não ditas, ou trocam o sentido de uma expressão. Gabarito: letra A.

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