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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc146713
Banca
FCC
Órgão
TJ AL
Ano
2024
Cargo
TJ ( )

Ninguém come dinheiro

 

Quando falo de humanidade, não estou falando só do Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos desde sempre: caçamos baleias, tiramos barbatana de tubarão, matamos leão e o penduramos na parede para mostrar que somos mais bravos que ele. Além da matança de todos os outros humanos que a gente achou que não tinham nada, que estavam aí só para nos suprir com roupa, comida, abrigo. Somos a praga do planeta, uma espécie de ameba gigante. Ao longo da história, os humanos — aliás, esse clube exclusivo da humanidade, que está na Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos protocolos das instituições — foram devastando tudo ao seu redor. É como se tivessem elegido uma casta, a humanidade, e todos que estão fora dela são a sub-humanidade. Não são só os caiçaras, quilombolas e povos indígenas, mas toda vida que deliberadamente largamos à margem do caminho. E o caminho é o progresso: essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar. Há um horizonte, estamos indo para lá, e vamos largando no percurso tudo que não interessa, o que sobra, a sub-humanidade — alguns de nós fazemos parte dela.

É incrível que esse vírus que está aí agora esteja atingindo só as pessoas. Foi uma manobra fantástica do organismo da Terra tirar a teta da nossa boca e dizer: "Respirem agora, quero ver". Isso denuncia o artifício do tipo de vida que nós criamos, porque chega uma hora que você precisa de uma máscara, de um aparelho para respirar, mas, em algum lugar, o aparelho precisa de uma usina hidrelétrica, nuclear ou de um gerador de energia qualquer. E o gerador também pode apagar, independentemente do nosso decreto, da nossa disposição. Estamos sendo lembrados de que somos tão vulneráveis que, se cortarem nosso ar por alguns minutos, a gente morre. Não é preciso nenhum sistema bélico complexo para apagar essa tal de humanidade: se extingue com a mesma facilidade que os mosquitos de uma sala depois de aplicado um aerossol. Nós não estamos com nada: essa é a declaração da Terra.

E, se nós não estamos com nada, deveríamos ter contato com a experiência de estar vivos para além dos aparatos tecnológicos que podemos inventar. A ideia da economia, por exemplo, essa coisa invisível, a não ser por aquele emblema de cifrão. Pode ser uma ficção afirmar que se a economia não estiver funcionando plenamente nós morremos. Nós poderíamos colocar todos os dirigentes do Banco Central em um cofre gigante e deixá-los vivendo lá, com a economia deles. Ninguém come dinheiro. Hoje de manhã eu vi um indígena norte-americano do conselho dos anciões do povo Lakota falar sobre o coronavírus. É um homem de uns setenta e poucos anos, chamado Wakya Un Manee, também conhecido como Vernon Foster. (Vernon, que é um típico nome americano, pois quando os colonos chegaram na América, além de proibirem as línguas nativas, mudavam os nomes das pessoas.) Pois, repetindo as palavras de um ancestral, ele dizia: "Quando o último peixe estiver nas águas e a última árvore for removida da terra, só então o homem perceberá que ele não é capaz de comer seu dinheiro."

Quem sabe a própria ideia de humanidade, essa totalidade que nós aprendemos a chamar assim, venha a se dissolver com esses eventos que estamos experimentando. Se isso acontecer, como é que os caras que concentram a grana do mundo — que são poucos — vão ficar? Quem sabe a gente consiga tirar o chão debaixo dos pés deles. Porque eles precisam de uma humanidade, nem que seja ilusória, para aterrorizarem toda manhã com a ameaça de que a bolsa vai cair, de que o mercado está nervoso, de que o dólar vai subir. Quando tudo isso não tiver sentido nenhum — o dólar que se exploda, o mercado que se coma! — aí não vai ter mais lugar para toda essa concentração de poder. Porque a concentração, de qualquer coisa, só pode existir num determinado ambiente. Até a poluição, se ela se espalhar sem contenção, o que vai acontecer? O ar vai passar por um processo de limpeza. O ar das cidades não ficou mais limpo quando diminuímos o ritmo? Acredito que essa ilusão de uma casta de humanoides que detém o segredo do santo graal, que se entope de riqueza enquanto aterroriza o resto do mundo, pode acabar implodindo. Talvez a pista mais recente sobre isso seja aquela história dos bilionários que estão construindo uma plataforma fora da Terra para irem viver, sei lá, em Marte. A gente deveria dizer: "Vão logo, esqueçam a gente aqui!". Deveríamos dar um passe livre para eles, para os donos da Tesla, da Amazon. Podem deixar o endereço que depois a gente manda suprimentos. (...)

(Fragmento de: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020)

Leia o texto abaixo para responder à questão.

 

De acordo com o 1° parágrafo, a "humanidade" é composta por:

  1. Aapenas Homo sapiens.
  2. BHomo sapiens e seres excluídos pela ação dos Homo sapiens.
  3. Capenas animais.
  4. Dos que estão "na declaração dos direitos humanos e nos protocolos das instituições".
  5. E"caiçaras, quilombolas e povos indígenas" e "toda vida que largamos deliberadamente à margem do caminho".
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Homo sapiens e seres excluídos pela ação dos Homo sapiens.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O sentido de "humanidade" no texto de Ailton Krenak

Gabarito: letra B. No 1º parágrafo, o autor afirma que "humanidade" não se restringe ao Homo sapiens: ele a define como um conjunto que inclui tanto os humanos quanto os seres que foram excluídos por eles. A passagem que sustenta isso é: "Quando falo de humanidade, não estou falando só do Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos desde sempre". A alternativa B é a única que capta essa ampliação do conceito.

O comando da questão

O enunciado pede que você identifique, de acordo com o 1º parágrafo, o que compõe a "humanidade". Isso é uma questão de compreensão (recorrência): a resposta está explícita no texto, não exige inferência. Você precisa encontrar a passagem que define o termo e ver qual alternativa a parafraseia fielmente, sem acrescentar nem restringir nada.

O texto e a tese do autor

No 1º parágrafo, Ailton Krenak desconstrói a ideia tradicional de "humanidade" como sinônimo de Homo sapiens. Ele diz que essa noção foi construída como um "clube exclusivo" que excluiu uma "imensidão de seres" — tanto outros animais quanto outros humanos (caiçaras, quilombolas, povos indígenas). O autor critica essa exclusão e propõe uma visão mais ampla: a humanidade, para ele, inclui tudo o que foi "largado à margem do caminho".

A passagem-chave é:

"Quando falo de humanidade, não estou falando só do Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos desde sempre"

Aqui, o autor amplia o conceito: humanidade = Homo sapiens + seres excluídos. A alternativa B é a paráfrase exata dessa ideia.

A técnica: cuidado com a polissemia

A palavra "humanidade" tem vários sentidos: pode significar a espécie humana, o conjunto de todos os humanos, ou ainda um sentimento de compaixão. No texto, o autor ressignifica o termo: ele não usa o sentido biológico (só Homo sapiens), mas um sentido inclusivo que abarca os excluídos. A banca explora exatamente essa polissemia: as alternativas erradas tentam te levar a um sentido restrito ou distorcido.

Dica: quando a questão perguntar o sentido de uma palavra, volte ao texto e veja como ela é usada no contexto. Não use o sentido do dicionário; use o sentido que o autor construiu.

Análise das alternativas

"Humanidade" (Krenak)
  • 1Não é só Homo sapiens
  • 2Inclui
    • Homo sapiens
    • Seres excluídos pelos humanos
      • Outros animais
      • Humanos excluídos (caiçaras, quilombolas, indígenas)
  • 3Crítica ao "clube exclusivo"
    • Declaração dos direitos humanos
    • Protocolos das instituições
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: restringe indevidamente. A alternativa diz "apenas Homo sapiens", mas o texto afirma o contrário: "não estou falando só do Homo sapiens". O autor exclui a restrição, então a alternativa contradiz o texto.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Paráfrase fiel. O texto diz que humanidade inclui o Homo sapiens e os seres excluídos por eles. A alternativa B resume exatamente isso: "Homo sapiens e seres excluídos pela ação dos Homo sapiens". Não há acréscimo nem restrição.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: restringe e contradiz. Dizer "apenas animais" exclui os humanos, mas o texto inclui o Homo sapiens como parte da humanidade. Além disso, o autor fala de "seres" que incluem também humanos excluídos (caiçaras, quilombolas, indígenas). A alternativa restringe o conceito a animais, o que não está no texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: restringe e inverte a lógica. A alternativa cita "os que estão na declaração dos direitos humanos e nos protocolos das instituições", mas o texto usa essa expressão para criticar o "clube exclusivo" que exclui os demais. O autor não diz que a humanidade é composta por esses; ele diz que essa é a definição restrita que ele critica. A alternativa contradiz a tese do autor.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: incompleta e restringe. A alternativa cita "caiçaras, quilombolas e povos indígenas" e "toda vida que largamos deliberadamente à margem do caminho", mas o texto inclui também o Homo sapiens como parte da humanidade. A alternativa omite o elemento central (o Homo sapiens) e, portanto, fica incompleta.

Conclusão

A questão testa sua capacidade de compreender o sentido contextual de uma palavra. A alternativa B é a única que parafraseia o texto sem restringir nem acrescentar. Lembre-se: em questões de compreensão, a resposta certa é sempre a que reescreve o que está dito, sem tirar nem pôr.

Gabarito: letra B

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