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Questão de Português — Significação de Vocábulo e Expressões — FCC 2024

PortuguêsSignificação de Vocábulo e Expressões
Código
fc146714
Banca
FCC
Órgão
TJ AL
Ano
2024
Cargo
TJ ( )

Ninguém come dinheiro

 

Quando falo de humanidade, não estou falando só do Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos desde sempre: caçamos baleias, tiramos barbatana de tubarão, matamos leão e o penduramos na parede para mostrar que somos mais bravos que ele. Além da matança de todos os outros humanos que a gente achou que não tinham nada, que estavam aí só para nos suprir com roupa, comida, abrigo. Somos a praga do planeta, uma espécie de ameba gigante. Ao longo da história, os humanos — aliás, esse clube exclusivo da humanidade, que está na Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos protocolos das instituições — foram devastando tudo ao seu redor. É como se tivessem elegido uma casta, a humanidade, e todos que estão fora dela são a sub-humanidade. Não são só os caiçaras, quilombolas e povos indígenas, mas toda vida que deliberadamente largamos à margem do caminho. E o caminho é o progresso: essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar. Há um horizonte, estamos indo para lá, e vamos largando no percurso tudo que não interessa, o que sobra, a sub-humanidade — alguns de nós fazemos parte dela.

É incrível que esse vírus que está aí agora esteja atingindo só as pessoas. Foi uma manobra fantástica do organismo da Terra tirar a teta da nossa boca e dizer: "Respirem agora, quero ver". Isso denuncia o artifício do tipo de vida que nós criamos, porque chega uma hora que você precisa de uma máscara, de um aparelho para respirar, mas, em algum lugar, o aparelho precisa de uma usina hidrelétrica, nuclear ou de um gerador de energia qualquer. E o gerador também pode apagar, independentemente do nosso decreto, da nossa disposição. Estamos sendo lembrados de que somos tão vulneráveis que, se cortarem nosso ar por alguns minutos, a gente morre. Não é preciso nenhum sistema bélico complexo para apagar essa tal de humanidade: se extingue com a mesma facilidade que os mosquitos de uma sala depois de aplicado um aerossol. Nós não estamos com nada: essa é a declaração da Terra.

E, se nós não estamos com nada, deveríamos ter contato com a experiência de estar vivos para além dos aparatos tecnológicos que podemos inventar. A ideia da economia, por exemplo, essa coisa invisível, a não ser por aquele emblema de cifrão. Pode ser uma ficção afirmar que se a economia não estiver funcionando plenamente nós morremos. Nós poderíamos colocar todos os dirigentes do Banco Central em um cofre gigante e deixá-los vivendo lá, com a economia deles. Ninguém come dinheiro. Hoje de manhã eu vi um indígena norte-americano do conselho dos anciões do povo Lakota falar sobre o coronavírus. É um homem de uns setenta e poucos anos, chamado Wakya Un Manee, também conhecido como Vernon Foster. (Vernon, que é um típico nome americano, pois quando os colonos chegaram na América, além de proibirem as línguas nativas, mudavam os nomes das pessoas.) Pois, repetindo as palavras de um ancestral, ele dizia: "Quando o último peixe estiver nas águas e a última árvore for removida da terra, só então o homem perceberá que ele não é capaz de comer seu dinheiro."

Quem sabe a própria ideia de humanidade, essa totalidade que nós aprendemos a chamar assim, venha a se dissolver com esses eventos que estamos experimentando. Se isso acontecer, como é que os caras que concentram a grana do mundo — que são poucos — vão ficar? Quem sabe a gente consiga tirar o chão debaixo dos pés deles. Porque eles precisam de uma humanidade, nem que seja ilusória, para aterrorizarem toda manhã com a ameaça de que a bolsa vai cair, de que o mercado está nervoso, de que o dólar vai subir. Quando tudo isso não tiver sentido nenhum — o dólar que se exploda, o mercado que se coma! — aí não vai ter mais lugar para toda essa concentração de poder. Porque a concentração, de qualquer coisa, só pode existir num determinado ambiente. Até a poluição, se ela se espalhar sem contenção, o que vai acontecer? O ar vai passar por um processo de limpeza. O ar das cidades não ficou mais limpo quando diminuímos o ritmo? Acredito que essa ilusão de uma casta de humanoides que detém o segredo do santo graal, que se entope de riqueza enquanto aterroriza o resto do mundo, pode acabar implodindo. Talvez a pista mais recente sobre isso seja aquela história dos bilionários que estão construindo uma plataforma fora da Terra para irem viver, sei lá, em Marte. A gente deveria dizer: "Vão logo, esqueçam a gente aqui!". Deveríamos dar um passe livre para eles, para os donos da Tesla, da Amazon. Podem deixar o endereço que depois a gente manda suprimentos. (...)

(Fragmento de: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020)

Leia o texto abaixo para responder à questão.

 

A locução adverbial "além de" presente em Além da matança de todos os outros humanos que a gente achou que não tinham nada, que estavam aí só para nos suprir com roupa, comida, abrigo. Expressa, nesse trecho, o sentido de:

  1. Amais adiante
  2. Bno lado oposto de
  3. Cda parte de lá
  4. Dem adição a algo
  5. Eacima de
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — em adição a algo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O sentido de "além de" no texto de Ailton Krenak

Gabarito: letra D. A locução adverbial "além de", no trecho "Além da matança de todos os outros humanos...", expressa adição: soma-se a matança dos humanos à matança de baleias, tubarões e leões já mencionada. A prova está na estrutura do parágrafo: o autor enumera as violências da humanidade — "caçamos baleias, tiramos barbatana de tubarão, matamos leão" — e, em seguida, acrescenta "Além da matança de todos os outros humanos". O sentido é claramente de acréscimo, não de lugar.

O comando

A questão pede o sentido da locução adverbial "além de" no trecho. Isso é uma questão de semântica contextual: não se pergunta o que a palavra significa isoladamente (sentido literal/dicionarizado), mas o valor que ela assume naquele enunciado. A banca quer que você perceba que "além de" pode ter dois valores: espacial ("mais adiante", "do outro lado") e aditivo ("em adição a", "além disso"). No texto, o valor é o segundo.

O texto

No primeiro parágrafo, Krenak critica a humanidade por devastar tudo ao redor. Ele lista exemplos: "caçamos baleias, tiramos barbatana de tubarão, matamos leão e o penduramos na parede". Depois, acrescenta:

"Além da matança de todos os outros humanos que a gente achou que não tinham nada, que estavam aí só para nos suprir com roupa, comida, abrigo."

A locução "além de" introduz um novo item na lista de crimes da humanidade: a matança de outros humanos. Não há ideia de deslocamento espacial; há ideia de soma. O autor está dizendo: "não só matamos baleias, tubarões e leões, mas também matamos outros humanos".

A técnica

Para resolver, pergunte: "o que a locução faz no texto?" Ela adiciona um elemento a uma lista já iniciada. Se você substituir "além de" por "em adição a", o sentido permanece: "Em adição à matança de todos os outros humanos...". Já se substituir por "mais adiante", o sentido se perde completamente. Essa é a prova de que o valor é aditivo.

"Além de" (polissemia)
  • 1Sentido espacial
    • Mais adiante
    • No lado oposto
    • Da parte de lá
    • Acima de
  • 2Sentido aditivo
    • Em adição a algo
    • Soma elemento à lista
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"Mais adiante" é um sentido espacial de "além de". Exemplo: "A casa fica além do rio" = "mais adiante do rio". No texto, não há deslocamento no espaço; há acréscimo de ideias. A alternativa extrapola o contexto, aplicando um sentido que a locução tem em outras frases, mas não aqui.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"No lado oposto de" também é um sentido espacial. Exemplo: "A loja fica além da praça" = "no lado oposto da praça". No trecho, "além de" não indica posição geográfica; indica soma de elementos. A alternativa troca o sentido por um valor que não se sustenta no texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Da parte de lá" é outro sentido espacial, sinônimo de "do outro lado". Exemplo: "Ele veio de além-mar" = "da parte de lá do mar". No texto, não há referência a lugar; há referência a adição de um novo item à lista de violências. A alternativa tangencia o sentido, fugindo ao valor aditivo.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Em adição a algo" é exatamente o valor de "além de" no trecho. O autor lista as violências contra animais e, em seguida, adiciona a matança de humanos. A prova está na estrutura: "caçamos baleias, tiramos barbatana de tubarão, matamos leão... Além da matança de todos os outros humanos". A locução soma um novo elemento à enumeração. Substitua por "em adição à" e o sentido permanece intacto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Acima de" é um sentido espacial de superioridade física. Exemplo: "O avião voa além das nuvens" = "acima das nuvens". No texto, não há hierarquia espacial; há acréscimo de ideias. A alternativa restringe o sentido a um valor que não se aplica ao contexto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a polissemia de "além de": a maioria das alternativas traz sentidos espaciais (mais adiante, no lado oposto, da parte de lá, acima de), que são possíveis em outros contextos, mas não neste. O candidato que não atenta ao contexto escolhe uma das espaciais.

PEGA ESSA DICA!

Ao encontrar uma locução com múltiplos sentidos, substitua-a por sinônimos e veja qual preserva o sentido do texto. Se "em adição a" funciona, o valor é aditivo; se "mais adiante" funciona, é espacial.

Gabarito: letra D — a única que expressa o valor aditivo de "além de" no trecho.

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