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Questão de Português — Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto. — FCC 2024

PortuguêsReescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto.
Código
fc146715
Banca
FCC
Órgão
TJ AL
Ano
2024
Cargo
TJ ( )

Ninguém come dinheiro

 

Quando falo de humanidade, não estou falando só do Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos desde sempre: caçamos baleias, tiramos barbatana de tubarão, matamos leão e o penduramos na parede para mostrar que somos mais bravos que ele. Além da matança de todos os outros humanos que a gente achou que não tinham nada, que estavam aí só para nos suprir com roupa, comida, abrigo. Somos a praga do planeta, uma espécie de ameba gigante. Ao longo da história, os humanos — aliás, esse clube exclusivo da humanidade, que está na Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos protocolos das instituições — foram devastando tudo ao seu redor. É como se tivessem elegido uma casta, a humanidade, e todos que estão fora dela são a sub-humanidade. Não são só os caiçaras, quilombolas e povos indígenas, mas toda vida que deliberadamente largamos à margem do caminho. E o caminho é o progresso: essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar. Há um horizonte, estamos indo para lá, e vamos largando no percurso tudo que não interessa, o que sobra, a sub-humanidade — alguns de nós fazemos parte dela.

É incrível que esse vírus que está aí agora esteja atingindo só as pessoas. Foi uma manobra fantástica do organismo da Terra tirar a teta da nossa boca e dizer: "Respirem agora, quero ver". Isso denuncia o artifício do tipo de vida que nós criamos, porque chega uma hora que você precisa de uma máscara, de um aparelho para respirar, mas, em algum lugar, o aparelho precisa de uma usina hidrelétrica, nuclear ou de um gerador de energia qualquer. E o gerador também pode apagar, independentemente do nosso decreto, da nossa disposição. Estamos sendo lembrados de que somos tão vulneráveis que, se cortarem nosso ar por alguns minutos, a gente morre. Não é preciso nenhum sistema bélico complexo para apagar essa tal de humanidade: se extingue com a mesma facilidade que os mosquitos de uma sala depois de aplicado um aerossol. Nós não estamos com nada: essa é a declaração da Terra.

E, se nós não estamos com nada, deveríamos ter contato com a experiência de estar vivos para além dos aparatos tecnológicos que podemos inventar. A ideia da economia, por exemplo, essa coisa invisível, a não ser por aquele emblema de cifrão. Pode ser uma ficção afirmar que se a economia não estiver funcionando plenamente nós morremos. Nós poderíamos colocar todos os dirigentes do Banco Central em um cofre gigante e deixá-los vivendo lá, com a economia deles. Ninguém come dinheiro. Hoje de manhã eu vi um indígena norte-americano do conselho dos anciões do povo Lakota falar sobre o coronavírus. É um homem de uns setenta e poucos anos, chamado Wakya Un Manee, também conhecido como Vernon Foster. (Vernon, que é um típico nome americano, pois quando os colonos chegaram na América, além de proibirem as línguas nativas, mudavam os nomes das pessoas.) Pois, repetindo as palavras de um ancestral, ele dizia: "Quando o último peixe estiver nas águas e a última árvore for removida da terra, só então o homem perceberá que ele não é capaz de comer seu dinheiro."

Quem sabe a própria ideia de humanidade, essa totalidade que nós aprendemos a chamar assim, venha a se dissolver com esses eventos que estamos experimentando. Se isso acontecer, como é que os caras que concentram a grana do mundo — que são poucos — vão ficar? Quem sabe a gente consiga tirar o chão debaixo dos pés deles. Porque eles precisam de uma humanidade, nem que seja ilusória, para aterrorizarem toda manhã com a ameaça de que a bolsa vai cair, de que o mercado está nervoso, de que o dólar vai subir. Quando tudo isso não tiver sentido nenhum — o dólar que se exploda, o mercado que se coma! — aí não vai ter mais lugar para toda essa concentração de poder. Porque a concentração, de qualquer coisa, só pode existir num determinado ambiente. Até a poluição, se ela se espalhar sem contenção, o que vai acontecer? O ar vai passar por um processo de limpeza. O ar das cidades não ficou mais limpo quando diminuímos o ritmo? Acredito que essa ilusão de uma casta de humanoides que detém o segredo do santo graal, que se entope de riqueza enquanto aterroriza o resto do mundo, pode acabar implodindo. Talvez a pista mais recente sobre isso seja aquela história dos bilionários que estão construindo uma plataforma fora da Terra para irem viver, sei lá, em Marte. A gente deveria dizer: "Vão logo, esqueçam a gente aqui!". Deveríamos dar um passe livre para eles, para os donos da Tesla, da Amazon. Podem deixar o endereço que depois a gente manda suprimentos. (...)

(Fragmento de: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020)

Leia o texto abaixo para responder à questão.

   

Considere o trecho a seguir.

"Pode ser uma ficção afirmar que se a economia não estiver funcionando plenamente nós morreremos."

Está mantido o sentido original do trecho acima em:

  1. ATalvez não seja verdade que, caso a economia não esteja funcionando bem, nós morreremos.
  2. BÉ uma mentira que morreremos porque a economia não está funcionando em sua plenitude.
  3. CCom a economia apresentando problemas, enfraquecida, nós morreremos. E isso é um fato.
  4. DA partir do momento em que a economia não funciona plenamente, todos corremos risco de vida.
  5. ESabemos que não é possível sobreviver em uma economia que não esteja funcionando de modo pleno.
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GabaritoA — Talvez não seja verdade que, caso a economia não esteja funcionando bem, nós morreremos.

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Reescrita semântica: "Pode ser uma ficção afirmar que se a economia não estiver funcionando plenamente nós morreremos"

Gabarito: letra A. A alternativa A é a única que preserva integralmente o sentido do trecho original: o autor não afirma que morreremos se a economia falhar; ele diz que essa afirmação pode ser uma ficção, ou seja, talvez não seja verdade. A reescrita em A mantém exatamente essa dúvida/possibilidade de falsidade, como se lê na passagem original: "Pode ser uma ficção afirmar que se a economia não estiver funcionando plenamente nós morreremos".

O comando: reescrita sem alteração de sentido

A questão pede uma reescritura (paráfrase) que mantenha o sentido original. Isso não é uma questão de compreensão (o que o texto diz) nem de inferência (o que se deduz), mas de equivalência semântica: a alternativa deve dizer a mesma coisa que o trecho, com outras palavras, sem acrescentar, suprimir ou inverter nada. O teste é: "a reescrita afirma exatamente o que o original afirma?" — nem mais, nem menos.

O trecho original: decomposição lógica

"Pode ser uma ficção afirmar que se a economia não estiver funcionando plenamente nós morreremos."

Vamos decompor a estrutura lógica:

  1. "Pode ser uma ficção" = é possível que seja falso / não verdadeiro ("ficção" = invenção, algo que não corresponde à realidade).

  2. "afirmar que..." = o objeto da possível falsidade é a afirmação seguinte.

  3. "se a economia não estiver funcionando plenamente nós morreremos" = a afirmação em questão é uma condicional: SE a economia falhar, ENTÃO morreremos.

O sentido global é: "É possível que a afirmação 'se a economia falhar, morreremos' seja falsa". Ou seja, o autor não endossa essa condicional; ele a coloca em dúvida. A reescrita correta precisa manter essa dúvida e essa condicionalidade.

A técnica: o que procurar na reescrita

Para reescrever sem alterar o sentido, é preciso preservar três elementos:

  • A modalização de possibilidade ("pode ser") — a reescrita deve manter a ideia de que algo é possível, não certo.

  • A negação da verdade ("ficção") — a reescrita deve manter a ideia de que a afirmação pode não ser verdadeira.

  • A estrutura condicional ("se... então") — a reescrita deve manter a relação de condição entre a economia falhar e a morte.

A alternativa A faz exatamente isso: "Talvez não seja verdade que, caso a economia não esteja funcionando bem, nós morreremos". "Talvez" = "pode ser"; "não seja verdade" = "ficção"; "caso... não esteja funcionando bem" = "se... não estiver funcionando plenamente"; "nós morreremos" = "nós morreremos". Perfeita equivalência.

Reescrita semântica
  • 1Preservar 3 elementos
    • Modalização ("pode ser")
    • Negação da verdade ("ficção")
    • Condicional ("se... então")
  • 2Erros comuns
    • Troca "se" por "porque" (condição → causa)
    • Troca "pode ser" por "é" (possibilidade → certeza)
    • Acrescentar "sabemos que" (dúvida → certeza)
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A é a única que preserva integralmente o sentido. Ela mantém:

  • "Talvez" = modalização de possibilidade (equivale a "pode ser");

  • "não seja verdade" = negação da verdade (equivale a "ficção");

  • "caso a economia não esteja funcionando bem" = condicional (equivale a "se a economia não estiver funcionando plenamente");

  • "nós morreremos" = consequência (equivale a "nós morreremos").

Não acrescenta, não suprime, não inverte nada. É uma paráfrase fiel.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto (troca de modalização). A alternativa B diz: "É uma mentira que morreremos porque a economia não está funcionando em sua plenitude".

Aqui há dois problemas:

  1. "É uma mentira" — o original diz "pode ser uma ficção", ou seja, possibilidade de falsidade. "É uma mentira" afirma a falsidade como certa, eliminando a dúvida. Isso é uma generalização indevida (transforma possibilidade em certeza).

  2. "porque a economia não está funcionando" — o original usa "se", que estabelece uma condição (hipótese), não uma causa (fato). "Porque" indica causa real; "se" indica condição hipotética. A troca de "se" por "porque" inverte a relação lógica: no original, a economia pode não estar funcionando; na reescrita, ela não está funcionando (fato).

A alternativa B contradiz o sentido original ao afirmar como certo o que era apenas possível.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto (inverte a tese). A alternativa C diz: "Com a economia apresentando problemas, enfraquecida, nós morreremos. E isso é um fato".

Aqui o erro é duplo:

  1. "nós morreremos" — o original coloca essa consequência como objeto de uma afirmação duvidosa ("pode ser uma ficção afirmar que..."). A alternativa C a apresenta como certeza ("nós morreremos"), sem a modalização de dúvida.

  2. "E isso é um fato" — o original diz exatamente o contrário: que a afirmação pode ser uma ficção (não um fato). A alternativa C inverte a tese do autor, que é justamente duvidar dessa relação.

A alternativa C contradiz frontalmente o texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto (afirma como certo o que era duvidoso). A alternativa D diz: "A partir do momento em que a economia não funciona plenamente, todos corremos risco de vida".

Aqui o problema é:

  1. "A partir do momento em que" — essa expressão indica certeza de que a economia não funciona plenamente (fato). O original usa "se", que é hipótese ("se a economia não estiver funcionando"). A troca de condição por fato elimina a hipótese.

  2. "todos corremos risco de vida" — o original diz "nós morreremos" como consequência da condição, mas dentro de uma afirmação duvidosa. A alternativa D apresenta a consequência como certa ("corremos risco"), sem a modalização de dúvida.

A alternativa D contradiz o sentido original ao transformar hipótese em fato e dúvida em certeza.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto (inverte a tese). A alternativa E diz: "Sabemos que não é possível sobreviver em uma economia que não esteja funcionando de modo pleno".

Aqui o erro é claro:

  1. "Sabemos que" — o original diz "pode ser uma ficção afirmar que...", ou seja, não sabemos se é verdade. "Sabemos que" afirma certeza, eliminando a dúvida.

  2. "não é possível sobreviver" — o original diz "nós morreremos" como consequência da condição, mas dentro de uma afirmação duvidosa. A alternativa E apresenta a impossibilidade de sobreviver como certa ("não é possível"), sem a modalização de dúvida.

A alternativa E contradiz frontalmente o texto, pois o autor duvida exatamente dessa relação.

Conclusão

A única alternativa que preserva o sentido original é a letra A, pois mantém a modalização de possibilidade ("talvez"), a negação da verdade ("não seja verdade") e a estrutura condicional ("caso... não esteja funcionando bem"). As demais contradizem o texto ao transformar dúvida em certeza, hipótese em fato, ou ao inverter a tese do autor.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de reescrita, decomponha o trecho em seus elementos lógicos (modalização, negação, condicionalidade) e verifique se a alternativa preserva todos eles. Desconfie de reescritas que trocam "se" por "porque", "pode ser" por "é", ou que acrescentam "sabemos que" — essas trocas invertem o sentido.

Gabarito: letra A

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