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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc146716
Banca
FCC
Órgão
TJ AL
Ano
2024
Cargo
TJ ( )

Ninguém come dinheiro

 

Quando falo de humanidade, não estou falando só do Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos desde sempre: caçamos baleias, tiramos barbatana de tubarão, matamos leão e o penduramos na parede para mostrar que somos mais bravos que ele. Além da matança de todos os outros humanos que a gente achou que não tinham nada, que estavam aí só para nos suprir com roupa, comida, abrigo. Somos a praga do planeta, uma espécie de ameba gigante. Ao longo da história, os humanos — aliás, esse clube exclusivo da humanidade, que está na Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos protocolos das instituições — foram devastando tudo ao seu redor. É como se tivessem elegido uma casta, a humanidade, e todos que estão fora dela são a sub-humanidade. Não são só os caiçaras, quilombolas e povos indígenas, mas toda vida que deliberadamente largamos à margem do caminho. E o caminho é o progresso: essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar. Há um horizonte, estamos indo para lá, e vamos largando no percurso tudo que não interessa, o que sobra, a sub-humanidade — alguns de nós fazemos parte dela.

É incrível que esse vírus que está aí agora esteja atingindo só as pessoas. Foi uma manobra fantástica do organismo da Terra tirar a teta da nossa boca e dizer: "Respirem agora, quero ver". Isso denuncia o artifício do tipo de vida que nós criamos, porque chega uma hora que você precisa de uma máscara, de um aparelho para respirar, mas, em algum lugar, o aparelho precisa de uma usina hidrelétrica, nuclear ou de um gerador de energia qualquer. E o gerador também pode apagar, independentemente do nosso decreto, da nossa disposição. Estamos sendo lembrados de que somos tão vulneráveis que, se cortarem nosso ar por alguns minutos, a gente morre. Não é preciso nenhum sistema bélico complexo para apagar essa tal de humanidade: se extingue com a mesma facilidade que os mosquitos de uma sala depois de aplicado um aerossol. Nós não estamos com nada: essa é a declaração da Terra.

E, se nós não estamos com nada, deveríamos ter contato com a experiência de estar vivos para além dos aparatos tecnológicos que podemos inventar. A ideia da economia, por exemplo, essa coisa invisível, a não ser por aquele emblema de cifrão. Pode ser uma ficção afirmar que se a economia não estiver funcionando plenamente nós morremos. Nós poderíamos colocar todos os dirigentes do Banco Central em um cofre gigante e deixá-los vivendo lá, com a economia deles. Ninguém come dinheiro. Hoje de manhã eu vi um indígena norte-americano do conselho dos anciões do povo Lakota falar sobre o coronavírus. É um homem de uns setenta e poucos anos, chamado Wakya Un Manee, também conhecido como Vernon Foster. (Vernon, que é um típico nome americano, pois quando os colonos chegaram na América, além de proibirem as línguas nativas, mudavam os nomes das pessoas.) Pois, repetindo as palavras de um ancestral, ele dizia: "Quando o último peixe estiver nas águas e a última árvore for removida da terra, só então o homem perceberá que ele não é capaz de comer seu dinheiro."

Quem sabe a própria ideia de humanidade, essa totalidade que nós aprendemos a chamar assim, venha a se dissolver com esses eventos que estamos experimentando. Se isso acontecer, como é que os caras que concentram a grana do mundo — que são poucos — vão ficar? Quem sabe a gente consiga tirar o chão debaixo dos pés deles. Porque eles precisam de uma humanidade, nem que seja ilusória, para aterrorizarem toda manhã com a ameaça de que a bolsa vai cair, de que o mercado está nervoso, de que o dólar vai subir. Quando tudo isso não tiver sentido nenhum — o dólar que se exploda, o mercado que se coma! — aí não vai ter mais lugar para toda essa concentração de poder. Porque a concentração, de qualquer coisa, só pode existir num determinado ambiente. Até a poluição, se ela se espalhar sem contenção, o que vai acontecer? O ar vai passar por um processo de limpeza. O ar das cidades não ficou mais limpo quando diminuímos o ritmo? Acredito que essa ilusão de uma casta de humanoides que detém o segredo do santo graal, que se entope de riqueza enquanto aterroriza o resto do mundo, pode acabar implodindo. Talvez a pista mais recente sobre isso seja aquela história dos bilionários que estão construindo uma plataforma fora da Terra para irem viver, sei lá, em Marte. A gente deveria dizer: "Vão logo, esqueçam a gente aqui!". Deveríamos dar um passe livre para eles, para os donos da Tesla, da Amazon. Podem deixar o endereço que depois a gente manda suprimentos. (...)

(Fragmento de: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020)

Leia o texto abaixo para responder à questão.

 

O texto "Ninguém come dinheiro", de Ailton Krenak, foi escrito no contexto da pandemia de Covid-19. O trecho que apresenta uma referência explícita que comprova essa afirmação é:

  1. AAo longo da história, os humanos, aliás, esse clube exclusivo da humanidade - que está na declaração universal dos direitos humanos e nos protocolos das instituições -, foram devastando tudo ao seu redor.
  2. BAcredito que essa ilusão de uma casta de humanoides que detém o segredo do santo graal, que se entope de riqueza enquanto aterroriza o resto do mundo, pode acabar implodindo.
  3. CÉ incrível que esse vírus que está aí agora esteja atingindo só as pessoas. Foi uma manobra fantástica do organismo da Terra tirar a teta da nossa boca e dizer: "Respirem agora, quero ver". 
  4. DQuando falo de humanidade não estou falando só do Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos desde sempre: caçamos baleia, tiramos barbatana de tubarão, matamos leão e o penduramos na parede para mostrar que somos mais bravos que ele.
  5. ENós poderíamos colocar todos os dirigentes do Banco Central em um cofre gigante e deixá-los vivendo lá, com a economia deles. Ninguém come dinheiro.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — É incrível que esse vírus que está aí agora esteja atingindo só as pessoas. Foi uma manobra fantástica do organismo da Terra tirar a teta da nossa boca e dizer: "Respirem agora, quero ver".

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Referência explícita à pandemia no texto de Krenak

Gabarito: letra C. A única alternativa que apresenta uma referência explícita ao contexto da pandemia de Covid-19 é a C, pois nela o autor menciona diretamente "esse vírus que está aí agora" e a necessidade de máscara e aparelho para respirar — elementos inequívocos do cenário pandêmico. As demais alternativas tratam de temas correlatos (crítica à humanidade, economia, povos indígenas), mas nenhuma menciona o vírus ou a pandemia.

O comando: localizar, não inferir

O enunciado pede o trecho que "apresenta uma referência explícita que comprova" a afirmação de que o texto foi escrito no contexto da pandemia. A palavra-chave é explícita: não se trata de inferir ou deduzir, mas de encontrar a passagem que nomeia diretamente o vírus ou a situação pandêmica. Isso muda a estratégia: você não precisa interpretar nada, apenas varrer o texto em busca da menção literal.

O texto: onde mora a resposta

No segundo parágrafo, o autor escreve:

"É incrível que esse vírus que está aí agora esteja atingindo só as pessoas. Foi uma manobra fantástica do organismo da Terra tirar a teta da nossa boca e dizer: 'Respirem agora, quero ver'."

A expressão "esse vírus que está aí agora" é a referência explícita: "esse" indica algo presente e conhecido (o coronavírus), e "agora" situa no tempo da escrita. Além disso, o trecho fala em "máscara" e "aparelho para respirar", elementos diretamente ligados à pandemia. Nenhuma outra alternativa contém palavra que remeta ao vírus ou à doença.

A técnica: teste cada alternativa com a pergunta "o texto autoriza?"

Para cada alternativa, pergunte: há alguma palavra que nomeie ou descreva o vírus/pandemia? Se não houver, a alternativa não serve, mesmo que trate de temas relacionados (como a crítica à humanidade ou a economia). A alternativa C é a única que passa no teste.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Ao longo da história, os humanos, aliás, esse clube exclusivo da humanidade - que está na declaração universal dos direitos humanos e nos protocolos das instituições -, foram devastando tudo ao seu redor."

Este trecho critica a humanidade e menciona a Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas não há qualquer menção a vírus, pandemia ou Covid-19. É uma crítica geral à ação humana, sem referência ao contexto pandêmico. Erro: tangencia o tema (fala de algo correlato, mas não do que o enunciado pede).

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Acredito que essa ilusão de uma casta de humanoides que detém o segredo do santo graal, que se entope de riqueza enquanto aterroriza o resto do mundo, pode acabar implodindo."

Aqui o autor fala da concentração de riqueza e do poder de uma elite, mas não menciona o vírus nem a pandemia. É uma reflexão sobre o sistema econômico, não uma referência explícita ao contexto pandêmico. Erro: tangencia o tema.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"É incrível que esse vírus que está aí agora esteja atingindo só as pessoas. Foi uma manobra fantástica do organismo da Terra tirar a teta da nossa boca e dizer: 'Respirem agora, quero ver'."

A expressão "esse vírus que está aí agora" é a referência explícita ao coronavírus. O trecho também menciona a necessidade de máscara e aparelho para respirar, elementos diretamente ligados à pandemia. É a única alternativa que nomeia o vírus e, portanto, comprova o contexto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Quando falo de humanidade não estou falando só do Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos desde sempre: caçamos baleia, tiramos barbatana de tubarão, matamos leão e o penduramos na parede para mostrar que somos mais bravos que ele."

O trecho critica a exploração animal e a exclusão de outros seres, mas não há menção a vírus ou pandemia. É uma crítica à relação humana com a natureza, não ao contexto pandêmico. Erro: tangencia o tema.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Nós poderíamos colocar todos os dirigentes do Banco Central em um cofre gigante e deixá-los vivendo lá, com a economia deles. Ninguém come dinheiro."

Aqui o autor critica a economia e a dependência do sistema financeiro, mas não menciona o vírus nem a pandemia. É uma reflexão sobre o valor do dinheiro, não uma referência ao contexto pandêmico. Erro: tangencia o tema.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece trechos que tratam de temas próximos (crítica à humanidade, economia, povos indígenas) para confundir, mas apenas a alternativa C contém a palavra "vírus" — a referência explícita pedida.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de "referência explícita", sublinhe as palavras-chave do enunciado (no caso, "vírus", "pandemia") e procure por elas no texto. Se a alternativa não contém nenhuma palavra que remeta diretamente ao contexto, descarte-a.

Gabarito: letra C — a única que menciona explicitamente o vírus e, portanto, comprova o contexto pandêmico.

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