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Questão de Português — Significação de Vocábulo e Expressões — FCC 2024

PortuguêsSignificação de Vocábulo e Expressões
Código
fc146717
Banca
FCC
Órgão
TJ AL
Ano
2024
Cargo
TJ ( )

Ninguém come dinheiro

 

Quando falo de humanidade, não estou falando só do Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos desde sempre: caçamos baleias, tiramos barbatana de tubarão, matamos leão e o penduramos na parede para mostrar que somos mais bravos que ele. Além da matança de todos os outros humanos que a gente achou que não tinham nada, que estavam aí só para nos suprir com roupa, comida, abrigo. Somos a praga do planeta, uma espécie de ameba gigante. Ao longo da história, os humanos — aliás, esse clube exclusivo da humanidade, que está na Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos protocolos das instituições — foram devastando tudo ao seu redor. É como se tivessem elegido uma casta, a humanidade, e todos que estão fora dela são a sub-humanidade. Não são só os caiçaras, quilombolas e povos indígenas, mas toda vida que deliberadamente largamos à margem do caminho. E o caminho é o progresso: essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar. Há um horizonte, estamos indo para lá, e vamos largando no percurso tudo que não interessa, o que sobra, a sub-humanidade — alguns de nós fazemos parte dela.

É incrível que esse vírus que está aí agora esteja atingindo só as pessoas. Foi uma manobra fantástica do organismo da Terra tirar a teta da nossa boca e dizer: "Respirem agora, quero ver". Isso denuncia o artifício do tipo de vida que nós criamos, porque chega uma hora que você precisa de uma máscara, de um aparelho para respirar, mas, em algum lugar, o aparelho precisa de uma usina hidrelétrica, nuclear ou de um gerador de energia qualquer. E o gerador também pode apagar, independentemente do nosso decreto, da nossa disposição. Estamos sendo lembrados de que somos tão vulneráveis que, se cortarem nosso ar por alguns minutos, a gente morre. Não é preciso nenhum sistema bélico complexo para apagar essa tal de humanidade: se extingue com a mesma facilidade que os mosquitos de uma sala depois de aplicado um aerossol. Nós não estamos com nada: essa é a declaração da Terra.

E, se nós não estamos com nada, deveríamos ter contato com a experiência de estar vivos para além dos aparatos tecnológicos que podemos inventar. A ideia da economia, por exemplo, essa coisa invisível, a não ser por aquele emblema de cifrão. Pode ser uma ficção afirmar que se a economia não estiver funcionando plenamente nós morremos. Nós poderíamos colocar todos os dirigentes do Banco Central em um cofre gigante e deixá-los vivendo lá, com a economia deles. Ninguém come dinheiro. Hoje de manhã eu vi um indígena norte-americano do conselho dos anciões do povo Lakota falar sobre o coronavírus. É um homem de uns setenta e poucos anos, chamado Wakya Un Manee, também conhecido como Vernon Foster. (Vernon, que é um típico nome americano, pois quando os colonos chegaram na América, além de proibirem as línguas nativas, mudavam os nomes das pessoas.) Pois, repetindo as palavras de um ancestral, ele dizia: "Quando o último peixe estiver nas águas e a última árvore for removida da terra, só então o homem perceberá que ele não é capaz de comer seu dinheiro."

Quem sabe a própria ideia de humanidade, essa totalidade que nós aprendemos a chamar assim, venha a se dissolver com esses eventos que estamos experimentando. Se isso acontecer, como é que os caras que concentram a grana do mundo — que são poucos — vão ficar? Quem sabe a gente consiga tirar o chão debaixo dos pés deles. Porque eles precisam de uma humanidade, nem que seja ilusória, para aterrorizarem toda manhã com a ameaça de que a bolsa vai cair, de que o mercado está nervoso, de que o dólar vai subir. Quando tudo isso não tiver sentido nenhum — o dólar que se exploda, o mercado que se coma! — aí não vai ter mais lugar para toda essa concentração de poder. Porque a concentração, de qualquer coisa, só pode existir num determinado ambiente. Até a poluição, se ela se espalhar sem contenção, o que vai acontecer? O ar vai passar por um processo de limpeza. O ar das cidades não ficou mais limpo quando diminuímos o ritmo? Acredito que essa ilusão de uma casta de humanoides que detém o segredo do santo graal, que se entope de riqueza enquanto aterroriza o resto do mundo, pode acabar implodindo. Talvez a pista mais recente sobre isso seja aquela história dos bilionários que estão construindo uma plataforma fora da Terra para irem viver, sei lá, em Marte. A gente deveria dizer: "Vão logo, esqueçam a gente aqui!". Deveríamos dar um passe livre para eles, para os donos da Tesla, da Amazon. Podem deixar o endereço que depois a gente manda suprimentos. (...)

(Fragmento de: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020)

Leia o texto abaixo para responder à questão.

 

No trecho E o caminho é o progresso: essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar., a palavra "prospectiva" é usada para:

  1. Afazer referência a algo que se sobressai.
  2. Bsondar pensamentos e sentimentos de alguém.
  3. Ctratar das possibilidades futuras de algo.
  4. Dabordar um fenômeno já ocorrido.
  5. Efazer alusão a algo de grandes proporções.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — tratar das possibilidades futuras de algo.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O sentido de "prospectiva" no texto de Ailton Krenak

Gabarito: letra C. A palavra "prospectiva" é usada para tratar das possibilidades futuras de algo, pois o próprio texto a define imediatamente: "essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar". A expressão "indo para algum lugar" aponta para o futuro, para um horizonte a ser alcançado, o que é exatamente o sentido de "prospectivo" (que olha para frente, que projeta o futuro).

A questão é de significação de vocábulo em contexto: não se pergunta o sentido dicionarizado isolado, mas o sentido que a palavra assume no trecho. O comando "é usada para" pede que você identifique a função semântica do termo dentro da frase, e a resposta está ancorada na explicação que o próprio autor dá na sequência.

O comando e o método

O verbo "é usada para" indica que a banca quer saber o efeito de sentido da palavra no contexto. Não é uma questão de gramática (classe, função sintática), mas de semântica contextual: qual ideia o autor quer transmitir ao escolher "prospectiva"? A técnica é simples: leia o entorno imediato da palavra. O autor não a usa de forma isolada; ele a explica com uma oração apositiva: "essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar". Essa explicação é a chave.

O texto e a pista decisiva

No trecho, o autor critica a noção de progresso como um caminho linear em direção a um futuro: "E o caminho é o progresso: essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar. Há um horizonte, estamos indo para lá". A palavra "prospectiva" está diretamente ligada a "indo para algum lugar" e a "horizonte". Tudo isso remete a algo que ainda virá, a uma projeção futura. O autor está falando de uma ideia que olha para a frente, que antecipa um destino.

"E o caminho é o progresso: essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar. Há um horizonte, estamos indo para lá"

A passagem prova que "prospectiva" carrega o sentido de futuro, de projeção. O autor não está falando de algo que se sobressai, nem de sentimentos, nem de algo passado, nem de proporções. Ele está falando de uma ideia que se projeta no tempo futuro.

A técnica que decide

A palavra "prospectiva" vem do latim prospicere (olhar para frente). Em contextos como "prospecção de clientes" ou "análise prospectiva", o sentido é sempre de antecipação, de olhar para o futuro. No texto, esse sentido é reforçado pela explicação do autor: "de que estamos indo para algum lugar". A banca explora exatamente essa relação: a palavra não está sendo usada em seu sentido técnico isolado, mas no sentido contextual de "que se projeta para o futuro".

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece alternativas que exploram outros sentidos possíveis da palavra (sobressair, sondar, proporções), mas todas ignoram a explicação que o próprio texto dá. A correta é a única que se alinha com a definição apresentada pelo autor na sequência imediata.

Análise das alternativas

1Origem: prospicere (olhar para frente)
2No texto
"indo para algum lugar"
"Há um horizonte"
3Sentido: projeção para o futuro
Possibilidades futuras (gabarito)
Sobressair
Sondar sentimentos
Fenômeno passado
Grandes proporções
"Prospectiva" (sentido contextual)
LEVELsoulevel.com.br
"Prospectiva" (sentido contextual): Origem: prospicere (olhar para frente); No texto ("indo para algum lugar", "Há um horizonte"); Sentido: projeção para o futuro (Possibilidades futuras (gabarito), Sobressair, Sondar sentimentos, Fenômeno passado, Grandes proporções)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Fazer referência a algo que se sobressai. O texto não fala de algo que se destaca ou se sobressai. A palavra "prospectiva" não tem relação com "sobressair". A alternativa extrapola um sentido que não está no contexto. O autor não está dizendo que a ideia de progresso se sobressai, mas que ela é uma projeção para o futuro.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Sondar pensamentos e sentimentos de alguém. Esse sentido se aproxima de "introspecção" ou "psicologia", mas não tem relação com o texto. O autor não está falando de sondar sentimentos, mas de uma ideia de futuro. A alternativa tangencia o tema, pois "prospectiva" pode lembrar "perspectiva" (ponto de vista), mas o contexto não autoriza essa leitura.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Tratar das possibilidades futuras de algo. É exatamente o que o texto diz: "essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar". A palavra "prospectiva" é usada para falar de algo que ainda virá, de uma projeção para o futuro. O autor reforça com "Há um horizonte, estamos indo para lá". A alternativa é uma paráfrase fiel do sentido contextual.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Abordar um fenômeno já ocorrido. O texto fala exatamente do oposto: algo que está por vir. "Prospectiva" olha para a frente, não para trás. A alternativa contradiz o texto, pois inverte a direção temporal. O autor está falando de futuro, não de passado.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Fazer alusão a algo de grandes proporções. O texto não fala de proporções ou tamanho. A palavra "prospectiva" não tem relação com "grande". A alternativa extrapola um sentido que não está no contexto. O autor está falando de direção futura, não de magnitude.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de significação de vocábulo, sempre leia o entorno imediato da palavra. O autor frequentemente explica o termo na sequência, como aqui: "prospectiva de que estamos indo para algum lugar". A resposta está na explicação que o próprio texto dá.

Gabarito: letra C. A palavra "prospectiva" é usada para tratar das possibilidades futuras de algo, como o próprio texto explica: "essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar".

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