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Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — FCC 2024

PortuguêsCoerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
fc146718
Banca
FCC
Órgão
TJ AL
Ano
2024
Cargo
TJ ( )

Ninguém come dinheiro

 

Quando falo de humanidade, não estou falando só do Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos desde sempre: caçamos baleias, tiramos barbatana de tubarão, matamos leão e o penduramos na parede para mostrar que somos mais bravos que ele. Além da matança de todos os outros humanos que a gente achou que não tinham nada, que estavam aí só para nos suprir com roupa, comida, abrigo. Somos a praga do planeta, uma espécie de ameba gigante. Ao longo da história, os humanos — aliás, esse clube exclusivo da humanidade, que está na Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos protocolos das instituições — foram devastando tudo ao seu redor. É como se tivessem elegido uma casta, a humanidade, e todos que estão fora dela são a sub-humanidade. Não são só os caiçaras, quilombolas e povos indígenas, mas toda vida que deliberadamente largamos à margem do caminho. E o caminho é o progresso: essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar. Há um horizonte, estamos indo para lá, e vamos largando no percurso tudo que não interessa, o que sobra, a sub-humanidade — alguns de nós fazemos parte dela.

É incrível que esse vírus que está aí agora esteja atingindo só as pessoas. Foi uma manobra fantástica do organismo da Terra tirar a teta da nossa boca e dizer: "Respirem agora, quero ver". Isso denuncia o artifício do tipo de vida que nós criamos, porque chega uma hora que você precisa de uma máscara, de um aparelho para respirar, mas, em algum lugar, o aparelho precisa de uma usina hidrelétrica, nuclear ou de um gerador de energia qualquer. E o gerador também pode apagar, independentemente do nosso decreto, da nossa disposição. Estamos sendo lembrados de que somos tão vulneráveis que, se cortarem nosso ar por alguns minutos, a gente morre. Não é preciso nenhum sistema bélico complexo para apagar essa tal de humanidade: se extingue com a mesma facilidade que os mosquitos de uma sala depois de aplicado um aerossol. Nós não estamos com nada: essa é a declaração da Terra.

E, se nós não estamos com nada, deveríamos ter contato com a experiência de estar vivos para além dos aparatos tecnológicos que podemos inventar. A ideia da economia, por exemplo, essa coisa invisível, a não ser por aquele emblema de cifrão. Pode ser uma ficção afirmar que se a economia não estiver funcionando plenamente nós morremos. Nós poderíamos colocar todos os dirigentes do Banco Central em um cofre gigante e deixá-los vivendo lá, com a economia deles. Ninguém come dinheiro. Hoje de manhã eu vi um indígena norte-americano do conselho dos anciões do povo Lakota falar sobre o coronavírus. É um homem de uns setenta e poucos anos, chamado Wakya Un Manee, também conhecido como Vernon Foster. (Vernon, que é um típico nome americano, pois quando os colonos chegaram na América, além de proibirem as línguas nativas, mudavam os nomes das pessoas.) Pois, repetindo as palavras de um ancestral, ele dizia: "Quando o último peixe estiver nas águas e a última árvore for removida da terra, só então o homem perceberá que ele não é capaz de comer seu dinheiro."

Quem sabe a própria ideia de humanidade, essa totalidade que nós aprendemos a chamar assim, venha a se dissolver com esses eventos que estamos experimentando. Se isso acontecer, como é que os caras que concentram a grana do mundo — que são poucos — vão ficar? Quem sabe a gente consiga tirar o chão debaixo dos pés deles. Porque eles precisam de uma humanidade, nem que seja ilusória, para aterrorizarem toda manhã com a ameaça de que a bolsa vai cair, de que o mercado está nervoso, de que o dólar vai subir. Quando tudo isso não tiver sentido nenhum — o dólar que se exploda, o mercado que se coma! — aí não vai ter mais lugar para toda essa concentração de poder. Porque a concentração, de qualquer coisa, só pode existir num determinado ambiente. Até a poluição, se ela se espalhar sem contenção, o que vai acontecer? O ar vai passar por um processo de limpeza. O ar das cidades não ficou mais limpo quando diminuímos o ritmo? Acredito que essa ilusão de uma casta de humanoides que detém o segredo do santo graal, que se entope de riqueza enquanto aterroriza o resto do mundo, pode acabar implodindo. Talvez a pista mais recente sobre isso seja aquela história dos bilionários que estão construindo uma plataforma fora da Terra para irem viver, sei lá, em Marte. A gente deveria dizer: "Vão logo, esqueçam a gente aqui!". Deveríamos dar um passe livre para eles, para os donos da Tesla, da Amazon. Podem deixar o endereço que depois a gente manda suprimentos. (...)

(Fragmento de: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020)

Leia o texto abaixo para responder à questão.

 

Observe os pronomes destacados nos trechos a seguir e considere as afirmações feitas a respeito do sentido de cada um deles dentro do contexto apresentado:

 

Quando falo de humanidade não estou falando só do Homo sapiens, (I) me refiro a uma imensidão de seres que (II) nós excluímos desde sempre (...).

(...) porque chega uma hora que (III) você precisa de uma máscara (...)".

I. "me" se refere ao narrador.

II. "nós" se refere aos Homo sapiens.

III. "você" se refere ao leitor específico do texto.

Está correto o que se afirma APENAS em:

  1. AI.
  2. BII.
  3. CIII.
  4. DI e II.
  5. EII e III.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — I e II.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Referência pronominal: o valor de "me", "nós" e "você" no texto de Krenak

Gabarito: letra D. Estão corretas apenas as afirmações I e II: o pronome "me" refere-se ao narrador (Ailton Krenak, que escreve em 1ª pessoa), e "nós" refere-se aos Homo sapiens — exatamente como o texto diz: "não estou falando só do Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos desde sempre". A afirmação III está errada porque "você" não se refere a um leitor específico, mas tem valor genérico/indefinido — inclui qualquer pessoa, inclusive o próprio autor, como se vê em "chega uma hora que você precisa de uma máscara".

O comando: o que a banca pede

A questão não pede para interpretar o texto em profundidade, mas para identificar o referente de cada pronome destacado dentro do contexto. Isso é uma questão de coesão referencial: os pronomes retomam (anáfora) ou antecipam (catáfora) termos do texto, e o candidato deve descobrir a que ou a quem cada um se refere. A armadilha está em confundir o valor específico de um pronome (referir-se a um ser determinado) com o valor genérico (referir-se a qualquer pessoa, de forma indefinida).

O texto: onde mora a resposta

O texto é um ensaio de Ailton Krenak, escrito em 1ª pessoa do singular ("Quando falo de humanidade..."). O autor critica a noção de humanidade como um clube exclusivo, que exclui outros seres e outros humanos. No primeiro parágrafo, ele diz:

"Quando falo de humanidade, não estou falando só do Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos desde sempre"

Aqui, "me" é pronome oblíquo átono que se refere ao narrador (o próprio Krenak, que fala em 1ª pessoa). "nós" é pronome reto de 1ª pessoa do plural e se refere aos Homo sapiens — o grupo do qual o autor faz parte e que exclui outros seres. No segundo parágrafo, o autor usa "você":

"porque chega uma hora que você precisa de uma máscara, de um aparelho para respirar"

Aqui, "você" não aponta para um leitor específico, mas para qualquer pessoa — é um uso genérico, equivalente a "a gente" ou "uma pessoa". O autor está falando da vulnerabilidade humana em geral, não de um interlocutor particular.

A técnica: como testar cada pronome

Para resolver, pergunte: "A que termo do texto esse pronome retoma?" Se o pronome retoma um termo anterior, é anáfora; se antecipa, é catáfora. No caso de "me" e "nós", a referência é clara pelo contexto: "me" = narrador; "nós" = Homo sapiens. Já "você" é um pronome de 2ª pessoa que, em muitos contextos, perde o valor específico e ganha valor indefinido — é o chamado "você genérico". Isso é comum em textos argumentativos, quando o autor quer incluir o leitor na reflexão, mas sem apontar para uma pessoa determinada.

1"me" (I)
Refere-se ao narrador
2"nós" (II)
Refere-se aos Homo sapiens
3"você" (III)
Não é leitor específico
Valor genérico/indefinido
Pronomes no texto
LEVELsoulevel.com.br
Pronomes no texto: "me" (I) (Refere-se ao narrador); "nós" (II) (Refere-se aos Homo sapiens); "você" (III) (Não é leitor específico, Valor genérico/indefinido)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Afirma que apenas I está correta. Mas II também está correta, como vimos: "nós" refere-se aos Homo sapiens. A alternativa restringe o conjunto de itens corretos, deixando de fora um item verdadeiro.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Afirma que apenas II está correta. Mas I também está correta: "me" refere-se ao narrador. A alternativa restringe novamente, ignorando o item I.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Afirma que apenas III está correta. Mas III é falsa: "você" não se refere a um leitor específico, tem valor genérico. A alternativa contradiz o texto, atribuindo ao pronome um referente que ele não tem.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Corretas I e II. O texto comprova:

"Quando falo de humanidade, não estou falando só do Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos desde sempre"

"me" = narrador (1ª pessoa); "nós" = Homo sapiens (o grupo que exclui). A afirmação III é falsa, pois "você" é genérico. Portanto, apenas I e II estão corretas.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Afirma que II e III estão corretas. Mas III é falsa, como explicado. A alternativa inclui um item incorreto, o que a torna errada.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o "você" específico (que aponta para um interlocutor determinado) e o "você" genérico (que inclui qualquer pessoa). No texto, "você" é genérico — não se refere a um leitor específico.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar pronomes, pergunte sempre: "esse pronome retoma um termo específico do texto ou tem valor genérico?" Palavras como "você", "a gente", "se" muitas vezes têm valor indefinido.

Conclusão: a questão testa a coesão referencial — a capacidade de identificar o referente de cada pronome. A correta é a letra D, pois apenas I e II estão corretas. Lembre-se: "você" genérico não é um leitor específico.

Gabarito: letra D

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