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Questão de Português — Advérbio — FCC 2024

PortuguêsAdvérbio
Código
fc146719
Banca
FCC
Órgão
TJ AL
Ano
2024
Cargo
TJ ( )

Ninguém come dinheiro

 

Quando falo de humanidade, não estou falando só do Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos desde sempre: caçamos baleias, tiramos barbatana de tubarão, matamos leão e o penduramos na parede para mostrar que somos mais bravos que ele. Além da matança de todos os outros humanos que a gente achou que não tinham nada, que estavam aí só para nos suprir com roupa, comida, abrigo. Somos a praga do planeta, uma espécie de ameba gigante. Ao longo da história, os humanos — aliás, esse clube exclusivo da humanidade, que está na Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos protocolos das instituições — foram devastando tudo ao seu redor. É como se tivessem elegido uma casta, a humanidade, e todos que estão fora dela são a sub-humanidade. Não são só os caiçaras, quilombolas e povos indígenas, mas toda vida que deliberadamente largamos à margem do caminho. E o caminho é o progresso: essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar. Há um horizonte, estamos indo para lá, e vamos largando no percurso tudo que não interessa, o que sobra, a sub-humanidade — alguns de nós fazemos parte dela.

É incrível que esse vírus que está aí agora esteja atingindo só as pessoas. Foi uma manobra fantástica do organismo da Terra tirar a teta da nossa boca e dizer: "Respirem agora, quero ver". Isso denuncia o artifício do tipo de vida que nós criamos, porque chega uma hora que você precisa de uma máscara, de um aparelho para respirar, mas, em algum lugar, o aparelho precisa de uma usina hidrelétrica, nuclear ou de um gerador de energia qualquer. E o gerador também pode apagar, independentemente do nosso decreto, da nossa disposição. Estamos sendo lembrados de que somos tão vulneráveis que, se cortarem nosso ar por alguns minutos, a gente morre. Não é preciso nenhum sistema bélico complexo para apagar essa tal de humanidade: se extingue com a mesma facilidade que os mosquitos de uma sala depois de aplicado um aerossol. Nós não estamos com nada: essa é a declaração da Terra.

E, se nós não estamos com nada, deveríamos ter contato com a experiência de estar vivos para além dos aparatos tecnológicos que podemos inventar. A ideia da economia, por exemplo, essa coisa invisível, a não ser por aquele emblema de cifrão. Pode ser uma ficção afirmar que se a economia não estiver funcionando plenamente nós morremos. Nós poderíamos colocar todos os dirigentes do Banco Central em um cofre gigante e deixá-los vivendo lá, com a economia deles. Ninguém come dinheiro. Hoje de manhã eu vi um indígena norte-americano do conselho dos anciões do povo Lakota falar sobre o coronavírus. É um homem de uns setenta e poucos anos, chamado Wakya Un Manee, também conhecido como Vernon Foster. (Vernon, que é um típico nome americano, pois quando os colonos chegaram na América, além de proibirem as línguas nativas, mudavam os nomes das pessoas.) Pois, repetindo as palavras de um ancestral, ele dizia: "Quando o último peixe estiver nas águas e a última árvore for removida da terra, só então o homem perceberá que ele não é capaz de comer seu dinheiro."

Quem sabe a própria ideia de humanidade, essa totalidade que nós aprendemos a chamar assim, venha a se dissolver com esses eventos que estamos experimentando. Se isso acontecer, como é que os caras que concentram a grana do mundo — que são poucos — vão ficar? Quem sabe a gente consiga tirar o chão debaixo dos pés deles. Porque eles precisam de uma humanidade, nem que seja ilusória, para aterrorizarem toda manhã com a ameaça de que a bolsa vai cair, de que o mercado está nervoso, de que o dólar vai subir. Quando tudo isso não tiver sentido nenhum — o dólar que se exploda, o mercado que se coma! — aí não vai ter mais lugar para toda essa concentração de poder. Porque a concentração, de qualquer coisa, só pode existir num determinado ambiente. Até a poluição, se ela se espalhar sem contenção, o que vai acontecer? O ar vai passar por um processo de limpeza. O ar das cidades não ficou mais limpo quando diminuímos o ritmo? Acredito que essa ilusão de uma casta de humanoides que detém o segredo do santo graal, que se entope de riqueza enquanto aterroriza o resto do mundo, pode acabar implodindo. Talvez a pista mais recente sobre isso seja aquela história dos bilionários que estão construindo uma plataforma fora da Terra para irem viver, sei lá, em Marte. A gente deveria dizer: "Vão logo, esqueçam a gente aqui!". Deveríamos dar um passe livre para eles, para os donos da Tesla, da Amazon. Podem deixar o endereço que depois a gente manda suprimentos. (...)

(Fragmento de: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020)

Leia o texto abaixo para responder à questão.

 

No trecho Não são os caiçaras, quilombo/as e povos indígenas, mas toda vida que deliberadamente largamos à margem do caminho, a palavra "só" cumpre a função de:

  1. Aadjetivo.
  2. Bsubstantivo.
  3. Cpronome.
  4. Dpreposição.
  5. Eadvérbio.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — advérbio.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A palavra "só" no trecho: advérbio de exclusão

Gabarito: letra E. No trecho "Não são só os caiçaras, quilombolas e povos indígenas, mas toda vida que deliberadamente largamos à margem do caminho", a palavra "só" equivale a "somente", "apenas" — ou seja, funciona como advérbio de exclusão, modificando o sentido da oração. A pista decisiva está no próprio texto: a estrutura "não só... mas" é uma correlação que exclui um conjunto para incluir outro, e o "só" aí não varia, não concorda com nada, não caracteriza substantivo — é invariável, como todo advérbio.

O comando da questão

A banca pergunta qual a função (classe gramatical) da palavra "só" no contexto. Isso é uma questão de morfologia aplicada ao texto: não basta saber que "só" pode ser adjetivo (sozinho) ou advérbio (somente); é preciso olhar o contexto e ver qual sentido ele assume ali. O comando não pede interpretação de ideias, mas classificação morfológica — e a classificação depende do uso.

O texto e o ponto exato

No fragmento, o autor critica a ideia de humanidade como casta exclusiva. O trecho citado está no primeiro parágrafo:

"Não são só os caiçaras, quilombolas e povos indígenas, mas toda vida que deliberadamente largamos à margem do caminho."

Aqui, "só" tem valor de exclusão: o autor diz que não são apenas aqueles grupos humanos que ficam à margem, mas toda vida que é descartada. A palavra "só" está restringindo o alcance do que vem depois — exclui a ideia de que a lista se limita àqueles povos. Esse é exatamente o papel de um advérbio de exclusão (como "somente", "apenas", "unicamente").

A regra que decide

A palavra "só" tem dois usos principais:

Uso

Sentido

Classe

Exemplo

Advérbio

"somente", "apenas"

Invariável

"Ele quer um café."

Adjetivo

"sozinho", "sem companhia"

Variável (só, sós, só, sós)

"Estávamos sós naquele lugar."

No trecho, "só" não varia (não poderia virar "sós"), não caracteriza um substantivo (não diz que os caiçaras estão sozinhos), e não pode ser substituído por "sozinho". Ele pode ser substituído por "somente" ou "apenas" sem alterar o sentido: "Não são somente os caiçaras...". Isso prova que é advérbio.

PEGA ESSA DICA!

Para testar se "só" é advérbio, tente substituí-lo por "somente" ou "apenas". Se o sentido permanecer, é advérbio. Se puder trocar por "sozinho" e variar em número (sós), é adjetivo.

Análise das alternativas

"Só" (polissemia)
  • 1Advérbio
    • sentido de "somente"/"apenas"
    • invariável
    • modifica a oração
  • 2Adjetivo
    • sentido de "sozinho"
    • variável (só/sós)
    • caracteriza substantivo
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Adjetivo é a palavra que caracteriza o substantivo, variando em gênero e número. No trecho, "só" não caracteriza "caiçaras", "quilombolas" nem "povos"; não concorda com eles (não vira "sós") e não pode ser substituído por "sozinho". A banca tenta confundir com o uso adjetivo de "só" (= sozinho), que não é o caso aqui.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Substantivo é a palavra que nomeia seres, objetos, ideias. "Só" não nomeia nada no trecho; não é núcleo de sintagma nominal, não recebe artigo (não é "o só") e não exerce função de sujeito ou objeto. É uma classe totalmente incompatível com o uso.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Pronome é a palavra que substitui ou acompanha o substantivo, indicando pessoa do discurso, posse, demonstração etc. "Só" não substitui nem acompanha substantivo; não há referência a algo anterior. A confusão pode vir do fato de "só" às vezes ser classificado como pronome indefinido em outros contextos (ex.: "só ele veio"), mas aqui o sentido é de exclusão, não de indefinição.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Preposição é a palavra invariável que liga dois termos, estabelecendo relação de subordinação (ex.: "casa de pedra"). "Só" não liga termos; não introduz complemento nem adjunto. Está sozinha, modificando o sentido da oração, o que é típico de advérbio.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Advérbio é a classe invariável que modifica verbo, adjetivo, outro advérbio ou a oração inteira, indicando circunstância. No trecho, "só" equivale a "somente", "apenas" — é um advérbio de exclusão. Ele modifica o sentido da oração "Não são só os caiçaras...", restringindo o alcance da afirmação. A prova: substituição por "somente" mantém o sentido — "Não são somente os caiçaras...".

NÃO CAIA NESSA!

A banca aposta na polissemia de "só". Muitos candidatos lembram que "só" pode ser adjetivo (= sozinho) e marcam a letra A. Mas o contexto é de exclusão, não de solidão. O teste da substituição por "somente" resolve na hora.

Conclusão: a palavra "só" no trecho é advérbio de exclusão, pois equivale a "somente" e modifica o sentido da oração. As demais classes (adjetivo, substantivo, pronome, preposição) não se sustentam no contexto. Gabarito: letra E.

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